por Maria Rita Angeiras
Quando a vida contorna a vontade
Fazendo o tempo esquecer o jeito
Na sequência o coração se corrige
Pulando feito pipoca no peito
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
PARA SEMPRE
por Maria Rita Angeiras
Sentada no vestiário, ela trocava a roupa do dia pelo maiô preto, que fazia um contraste incrível com seus cabelos brancos e curtos. Carregava no rosto uma alegria sincera, envolvida pelas fortes rugas dos olhos, que se comprimiam toda vez que saudava de um jeito simpático as jovens moças de expressão reta, como se estas já carregassem nas costas mais de sessenta anos de batalha. Lá fora, em um banheiro de porta entreaberta, estava o homem que era seu, sentado em uma cadeira de rodas, de sunga, sem camisa, tentando achar nas frestas do azulejo alguma esperança, enquanto aguardava sua amada o vir buscar. Logo em seguida, ela saía, colocava as mãos na cadeira e subia a rampa que dava na piscina. Ela não precisava de fisioterapia, mas ele precisava dela. Precisava da companhia daquela mulher que conhecia seus cantos, seus poros, suas dores. Precisava daquelas mãos que empurravam não apenas a cadeira, mas ele próprio, que o davam coragem de ser forte só mais uma vez, preso em um corpo que já não respondia mais como antigamente. Precisava daquela mulher que andava logo atrás dele na piscina, dando várias voltas, impedindo que ele parasse por causa do cansaço. E ela simplesmente ia, sem sequer sentir, como se o próprio estar já fosse mecânico. Ia porque não sabia fazer outra coisa senão continuar indo. Precisava daquele homem frágil, sentado, porque ele fazia ela acordar todos os dias do ano. Precisava daquele homem porque ele tinha os olhos mais doces do mundo, e mesmo depois de décadas juntos, aquele olhar ainda causava cócegas lá no fundo da sua alma. Precisava daquele homem andando na sua frente, na piscina, porque só assim ela sabia em que direção seguir. Os dois precisavam um do outro, desesperadamente, tateando as bordas dos seus corpos enrugados e tentando se achar no meio das ondas que se formavam na piscina. Precisavam quando as mãos paravam de segurar, quando a oração parava de pedir, quando o olho parava de implorar, quando a perna parava de sentir, quando o peito parava de pular e quando a vida, contrariando o resto do corpo, insistia em seguir.
Sentada no vestiário, ela trocava a roupa do dia pelo maiô preto, que fazia um contraste incrível com seus cabelos brancos e curtos. Carregava no rosto uma alegria sincera, envolvida pelas fortes rugas dos olhos, que se comprimiam toda vez que saudava de um jeito simpático as jovens moças de expressão reta, como se estas já carregassem nas costas mais de sessenta anos de batalha. Lá fora, em um banheiro de porta entreaberta, estava o homem que era seu, sentado em uma cadeira de rodas, de sunga, sem camisa, tentando achar nas frestas do azulejo alguma esperança, enquanto aguardava sua amada o vir buscar. Logo em seguida, ela saía, colocava as mãos na cadeira e subia a rampa que dava na piscina. Ela não precisava de fisioterapia, mas ele precisava dela. Precisava da companhia daquela mulher que conhecia seus cantos, seus poros, suas dores. Precisava daquelas mãos que empurravam não apenas a cadeira, mas ele próprio, que o davam coragem de ser forte só mais uma vez, preso em um corpo que já não respondia mais como antigamente. Precisava daquela mulher que andava logo atrás dele na piscina, dando várias voltas, impedindo que ele parasse por causa do cansaço. E ela simplesmente ia, sem sequer sentir, como se o próprio estar já fosse mecânico. Ia porque não sabia fazer outra coisa senão continuar indo. Precisava daquele homem frágil, sentado, porque ele fazia ela acordar todos os dias do ano. Precisava daquele homem porque ele tinha os olhos mais doces do mundo, e mesmo depois de décadas juntos, aquele olhar ainda causava cócegas lá no fundo da sua alma. Precisava daquele homem andando na sua frente, na piscina, porque só assim ela sabia em que direção seguir. Os dois precisavam um do outro, desesperadamente, tateando as bordas dos seus corpos enrugados e tentando se achar no meio das ondas que se formavam na piscina. Precisavam quando as mãos paravam de segurar, quando a oração parava de pedir, quando o olho parava de implorar, quando a perna parava de sentir, quando o peito parava de pular e quando a vida, contrariando o resto do corpo, insistia em seguir.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
DISTRAÍDA
por Maria Rita Angeiras
Estranho é deixar alguém partir
Alegando que essa dor não importa
Pelo motivo de não se perder de si
Porque dor mesmo é a dor da volta
Engano é não se deixar levar
Achando que correr faz muito sentido
Mas quando não se sabe de quê se corre
O pra onde também é um perigo
Incrível é preferir dormir
A escrever com a expressão reta
Para salvar da dor as palavras
Para poupar da tristeza o poeta
Estranho é deixar alguém partir
Alegando que essa dor não importa
Pelo motivo de não se perder de si
Porque dor mesmo é a dor da volta
Engano é não se deixar levar
Achando que correr faz muito sentido
Mas quando não se sabe de quê se corre
O pra onde também é um perigo
Incrível é preferir dormir
A escrever com a expressão reta
Para salvar da dor as palavras
Para poupar da tristeza o poeta
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
terça-feira, 27 de outubro de 2009
O HOMEM BUFÊ
por Maria Rita Angeiras
De todos os tipos de caras que a gente encontra por aí, nenhum me dá mais preguiça emocional do que o homem bufê. Como identificar um? Fácil. Ele serve de tudo, mas não é especialista em absolutamente nada. É o clássico feijoada com strogonoff e salada. Coloca a maior banca de que sabe demais, de música erudita a punk rock, de blockbusters a curtas iranianos, de best-sellers a clássicos da literatura, de pintores renascentistas a artistas conceituais, enfim, uma lista longa de A a Z dos mais diversos assuntos. Um chato inseguro, fantasiado de estudante de curso de filosofia, sempre preocupado em exibir seu repertório de voraz consumidor dessa cultura in box. É o tipo de cara que lê a orelha de um livro, decora a sinopse de um filme, memoriza a crítica de uma peça e ouve os primeiros quinze segundos de uma música. Ele sabe de tudo um pouco, mas não sabe muito sobre nada. Em um hospital, assumiria mais ou menos o papel do clínico geral. Conhece um pouco de pulmão, um pouco de coração, um pouco de cada área, mas no final da consulta encaminha você pra alguém que realmente entende do assunto. A única diferença é que esse tipo de homem nunca estuda o suficiente pra passar em medicina, por exemplo. Livro de anatomia? Ele leria até a página cinco, só pra ter uma ideia. Então fique à vontade e faça o teste: o que o homem bufê sabe sobre poesia? ‘O Soneto da Felicidade’. Sobre Nietzsche? ‘Deus está morto’. Sobre Woody Allen? ‘Pegou a enteada’. Além disso, sobram no seu vocabulário palavras empregadas de modo genérico e vago, como ‘releitura’, ‘artsy’, ‘coletivo’, ‘experimental’, ‘estética’ e ‘colagem’. E ele ainda faz aquela cara de natureza morta em shows e exposições, simulando um possível encantamento dos sentidos. O homem bufê, na minha opinião, é um bombardeio de clichês culturais e aquela típica despreocupação com o guarda-roupa representa apenas o seu tão desejado passaporte para a cultura. Grosseiramente falsificado, mas que ainda engana muita gente.
De todos os tipos de caras que a gente encontra por aí, nenhum me dá mais preguiça emocional do que o homem bufê. Como identificar um? Fácil. Ele serve de tudo, mas não é especialista em absolutamente nada. É o clássico feijoada com strogonoff e salada. Coloca a maior banca de que sabe demais, de música erudita a punk rock, de blockbusters a curtas iranianos, de best-sellers a clássicos da literatura, de pintores renascentistas a artistas conceituais, enfim, uma lista longa de A a Z dos mais diversos assuntos. Um chato inseguro, fantasiado de estudante de curso de filosofia, sempre preocupado em exibir seu repertório de voraz consumidor dessa cultura in box. É o tipo de cara que lê a orelha de um livro, decora a sinopse de um filme, memoriza a crítica de uma peça e ouve os primeiros quinze segundos de uma música. Ele sabe de tudo um pouco, mas não sabe muito sobre nada. Em um hospital, assumiria mais ou menos o papel do clínico geral. Conhece um pouco de pulmão, um pouco de coração, um pouco de cada área, mas no final da consulta encaminha você pra alguém que realmente entende do assunto. A única diferença é que esse tipo de homem nunca estuda o suficiente pra passar em medicina, por exemplo. Livro de anatomia? Ele leria até a página cinco, só pra ter uma ideia. Então fique à vontade e faça o teste: o que o homem bufê sabe sobre poesia? ‘O Soneto da Felicidade’. Sobre Nietzsche? ‘Deus está morto’. Sobre Woody Allen? ‘Pegou a enteada’. Além disso, sobram no seu vocabulário palavras empregadas de modo genérico e vago, como ‘releitura’, ‘artsy’, ‘coletivo’, ‘experimental’, ‘estética’ e ‘colagem’. E ele ainda faz aquela cara de natureza morta em shows e exposições, simulando um possível encantamento dos sentidos. O homem bufê, na minha opinião, é um bombardeio de clichês culturais e aquela típica despreocupação com o guarda-roupa representa apenas o seu tão desejado passaporte para a cultura. Grosseiramente falsificado, mas que ainda engana muita gente.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
FLOR
por Maria Rita Angeiras
Como um dente de leão, frágil
Me espalho em mais de mil pedaços
Que não se entregam ao chão
Alcançam o céu, as nuvens, o espaço
Porque não chego a ser flor
Nasci pra durar pouco, me entregar
Um movimento brusco e me desfaço
Como um dente de leão, frágil
Me espalho em mais de mil pedaços
Que não se entregam ao chão
Alcançam o céu, as nuvens, o espaço
Porque não chego a ser flor
Nasci pra durar pouco, me entregar
Um movimento brusco e me desfaço
BORBOLETA
por Maria Rita Angeiras
Meu mundo não-bege, multicolorido
Com paredes plenas de palmas
Estampam no tecido da cortina branca
Quando a arrasto pelo trilho, palavras
E as andorinhas que voam logo acima
Chamando de poesia o que é vento
Velam a respiração da menina, borboleta
Quando ela grita ou faz
Shhhh, silêncio...
Meu mundo não-bege, multicolorido
Com paredes plenas de palmas
Estampam no tecido da cortina branca
Quando a arrasto pelo trilho, palavras
E as andorinhas que voam logo acima
Chamando de poesia o que é vento
Velam a respiração da menina, borboleta
Quando ela grita ou faz
Shhhh, silêncio...
terça-feira, 13 de outubro de 2009
FOI UM CHORO TÃO SINCERO
por Maria Rita Angeiras
Segurado com as pontas dos dedos, despejado na gola encharcada da blusa, engasgado como o de criança, desesperado como se fosse o último, mergulhado em poucas palavras, perdido naquela larga avenida, pulado no peito, caído no pescoço, pingado nos braços, escorrido na perna, marcado pela tinta do rímel preto, escondido na manga dos ombros, afagado pelos cabelos, misturado com a água do copo, testemunhado pelo porteiro, comentado pelos seguranças, abraçado pela cama, sentido pelo telefone, interminável como as missas, soluçado pelos cantos, aberto para o mundo, exposto na grade da janela, apontado pelos vizinhos, triste como uma prece, apoiado nas paredes, feito de água, de sódio, de sal, de açúcar, de doce, de dor, de marmelo, engolido pela boca, aspirado pelo nariz, eternizado nas olheiras, exposto como ferida aberta, espalhado pela casa, escutado pelos outros, manchado no lençol, fincado naquele dia, relembrado no seguinte, repetido no outro, mergulhado na pia, secado no vento, refletido no espelho, cansado na barriga, pintado de vermelho no olho, semeado na alma, plantado nos poros, cultivado pelo tempo, germinado na pele, esculpido nas bochechas, jogado do queixo, canalizado pelas coxas, tremido nos pés, agachado na cozinha, apoiado no banheiro, apertado na respiração, acalmado pelos conselhos, silenciado nas conversas, continuado na manhã seguinte, pelo céu, com chuva, e cicatrizado na última noite, no leve gesto da mão fechando de vez a torneira do rosto. Porque se a lágrima é o sangue da alma, então que o destino da lágrima também seja o de ser refém do corpo.
Segurado com as pontas dos dedos, despejado na gola encharcada da blusa, engasgado como o de criança, desesperado como se fosse o último, mergulhado em poucas palavras, perdido naquela larga avenida, pulado no peito, caído no pescoço, pingado nos braços, escorrido na perna, marcado pela tinta do rímel preto, escondido na manga dos ombros, afagado pelos cabelos, misturado com a água do copo, testemunhado pelo porteiro, comentado pelos seguranças, abraçado pela cama, sentido pelo telefone, interminável como as missas, soluçado pelos cantos, aberto para o mundo, exposto na grade da janela, apontado pelos vizinhos, triste como uma prece, apoiado nas paredes, feito de água, de sódio, de sal, de açúcar, de doce, de dor, de marmelo, engolido pela boca, aspirado pelo nariz, eternizado nas olheiras, exposto como ferida aberta, espalhado pela casa, escutado pelos outros, manchado no lençol, fincado naquele dia, relembrado no seguinte, repetido no outro, mergulhado na pia, secado no vento, refletido no espelho, cansado na barriga, pintado de vermelho no olho, semeado na alma, plantado nos poros, cultivado pelo tempo, germinado na pele, esculpido nas bochechas, jogado do queixo, canalizado pelas coxas, tremido nos pés, agachado na cozinha, apoiado no banheiro, apertado na respiração, acalmado pelos conselhos, silenciado nas conversas, continuado na manhã seguinte, pelo céu, com chuva, e cicatrizado na última noite, no leve gesto da mão fechando de vez a torneira do rosto. Porque se a lágrima é o sangue da alma, então que o destino da lágrima também seja o de ser refém do corpo.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
COMO DIRIA A NINA, FEELING GOOD
por Maria Rita Angeiras
Confesso que esses seus olhos doces me bagunçam. E agora que deixei de viver a vida de uma poetisa, fico catando palavras ou poemas que tenham restado no fundo dos meus bolsos, junto com as moedas e os sonhos, só para descrever esse seu jeito tímido que fica invadindo minha memória às quatro e trinta e dois da tarde. Mas você tem uma calma que não combina com essa passionalidade de escritora, então desisto de ser a menina que um dia vai querer pichar coisas lindas no muro do seu prédio para ser a mulher que adoraria ver a chuva escorregar na janela junto com você e a Nina Simone, sem precisar falar absolutamente nada importante ou inteligente. Mas agora eu sou muito pouco louca até mesmo para gostar de algo que pareça tão certo. Agora eu só penso em comer direito, dormir cedo, ir pra academia, tomar sol e aproveitar o final de semana. Agora eu só quero correr, correr todos os dias, correr feito uma louca, correr de todo mundo e depois correr de volta para o meu cantinho. Agora eu peço silêncio para todos os homens descartáveis, calando as rimas que relatam seus estragos irreparáveis e abro mão deles para que sigam diretamente para os braços das próximas mulheres. Agora eu agradeço porque, de alguma forma, tudo faz muito sentido no final do dia, e eu consigo ser uma pessoa inteira e feliz, sem precisar ficar me procurando embaixo do tapete, atrás da cama, ou ficar pensando no que vou fazer comigo quando me descobrir pra valer. Agora não tropeço em poesias que ficaram pelo caminho junto com meus pedaços ou gasto meu dia arrumando paciência para tantas bobagens emocionais. O que posso afirmar é que, de todas essas coisas que eu fui, que eu sou e que eu ainda vou ser, só uma permanece: um sorriso de canto de boca. Isso mesmo. Você é o feliz proprietário de um adorável sorrisinho de canto de boca, que fica insistindo no meu rosto durante vários quarteirões, enquanto a chuva arrasta pelas canaletas essa vontade de me jogar no seu colo junto com meus vinte e poucos anos.
Confesso que esses seus olhos doces me bagunçam. E agora que deixei de viver a vida de uma poetisa, fico catando palavras ou poemas que tenham restado no fundo dos meus bolsos, junto com as moedas e os sonhos, só para descrever esse seu jeito tímido que fica invadindo minha memória às quatro e trinta e dois da tarde. Mas você tem uma calma que não combina com essa passionalidade de escritora, então desisto de ser a menina que um dia vai querer pichar coisas lindas no muro do seu prédio para ser a mulher que adoraria ver a chuva escorregar na janela junto com você e a Nina Simone, sem precisar falar absolutamente nada importante ou inteligente. Mas agora eu sou muito pouco louca até mesmo para gostar de algo que pareça tão certo. Agora eu só penso em comer direito, dormir cedo, ir pra academia, tomar sol e aproveitar o final de semana. Agora eu só quero correr, correr todos os dias, correr feito uma louca, correr de todo mundo e depois correr de volta para o meu cantinho. Agora eu peço silêncio para todos os homens descartáveis, calando as rimas que relatam seus estragos irreparáveis e abro mão deles para que sigam diretamente para os braços das próximas mulheres. Agora eu agradeço porque, de alguma forma, tudo faz muito sentido no final do dia, e eu consigo ser uma pessoa inteira e feliz, sem precisar ficar me procurando embaixo do tapete, atrás da cama, ou ficar pensando no que vou fazer comigo quando me descobrir pra valer. Agora não tropeço em poesias que ficaram pelo caminho junto com meus pedaços ou gasto meu dia arrumando paciência para tantas bobagens emocionais. O que posso afirmar é que, de todas essas coisas que eu fui, que eu sou e que eu ainda vou ser, só uma permanece: um sorriso de canto de boca. Isso mesmo. Você é o feliz proprietário de um adorável sorrisinho de canto de boca, que fica insistindo no meu rosto durante vários quarteirões, enquanto a chuva arrasta pelas canaletas essa vontade de me jogar no seu colo junto com meus vinte e poucos anos.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
ATÉ LOGO
por Maria Rita Angeiras
Escrever é tocar alguma coisa. Uma coisa que às vezes é macia, mas que às vezes fere, até ferir tantas vezes que um dia o machucado fica tão grande que é preciso parar e cuidar da mão. Escrever acontece. E em alguns períodos acontece com tanta frequência que é preciso dar um passo atrás, antes que se adoeça do oco que se sente entre a linha um e a linha dois. E existe o cansaço físico de transformar letra em sentimento e sentimento em letra, porque é impossível equilibrar a limitação das palavras com a adorável ilimitação da vida. Escrever adoece. O pulmão, o coração, o peito e qualquer parte sensível que não aguente o sufoco de vibrar numa rima e morrer na outra, repetidamente. Escrever é uma troca. E sempre faz bem para os dois lados, mas não é saudável usar o ombro de quem lê para enxugar as lágrimas de quem escreve. Por isso, é preciso respeitar a ausência, sem achar que a falta da coisa escrita é a falta da própria pessoa que escreve. É preciso absorver o vazio, sem precisar recorrer à última gota de poesia, porque esta nunca se deve tirar do sangue que passeia no corpo. E, por fim, é preciso aceitar, com doçura, o silêncio, sem nenhum sentimento de perda, mas acreditando que, com ele, se ganha outra coisa. Outra coisa que engrandece. Outra coisa que não está escrita. E que nem precisa estar.
Eventualmente eu volto a escrever.
Escrever é tocar alguma coisa. Uma coisa que às vezes é macia, mas que às vezes fere, até ferir tantas vezes que um dia o machucado fica tão grande que é preciso parar e cuidar da mão. Escrever acontece. E em alguns períodos acontece com tanta frequência que é preciso dar um passo atrás, antes que se adoeça do oco que se sente entre a linha um e a linha dois. E existe o cansaço físico de transformar letra em sentimento e sentimento em letra, porque é impossível equilibrar a limitação das palavras com a adorável ilimitação da vida. Escrever adoece. O pulmão, o coração, o peito e qualquer parte sensível que não aguente o sufoco de vibrar numa rima e morrer na outra, repetidamente. Escrever é uma troca. E sempre faz bem para os dois lados, mas não é saudável usar o ombro de quem lê para enxugar as lágrimas de quem escreve. Por isso, é preciso respeitar a ausência, sem achar que a falta da coisa escrita é a falta da própria pessoa que escreve. É preciso absorver o vazio, sem precisar recorrer à última gota de poesia, porque esta nunca se deve tirar do sangue que passeia no corpo. E, por fim, é preciso aceitar, com doçura, o silêncio, sem nenhum sentimento de perda, mas acreditando que, com ele, se ganha outra coisa. Outra coisa que engrandece. Outra coisa que não está escrita. E que nem precisa estar.
Eventualmente eu volto a escrever.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
SER FLOR
por Maria Rita Angeiras
Florzinha brincava de ser malabarista, cambaleando nas ruas do Rio de Janeiro, pensando nos próximos dez reais que ia ganhar por passar a noite com um daqueles gringos que cheiravam a protetor solar e caipirinha. Tropeçava em árvores frondosas, pedras soltas, pedaços de madeira e no cocô que os cachorros iam deixando para trás, junto com os sonhos que ela não teve tempo de ter. Nunca teve um quarto rosa, nunca sonhou em ser astronauta, nunca ganhou uma tiara de princesa, nunca escreveu suas férias em um diário, nunca se apaixonou pelo amiguinho do colégio. Não era gente, não era flor, era bicho. Nem sabia ao certo se tinha onze ou doze anos, tinha esquecido com o tempo, e estava sempre drogada demais para ter alguma memória dos pais ou da casa pobre em que nasceu. Aliás, preferia não ter lembrança alguma dessa vida, porque não tinha passado nem futuro, mas sim um presente que se repetia mil vezes: os programas, o crack, a bebida, as ruas com cheiro de xixi e os pés pretos, de tanto arrastar sua miséria pelas avenidas da cidade cartão-postal. Tinha um rosto bonito, de traços finos, que há tempos não conheciam lágrimas, porque lágrima é coisa de quem ainda tem amor, apego. E ela só conhecia o amor necessário pela droga ou o amor que imaginava que uma mulher devia sentir na cama, quando se deitava ao lado um homem, diferente dela com os coroas gringos. Florzinha, como milhares de meninas, nasceu com uma história fadada a não ter final, quanto mais final feliz. Coisa de quem morre em plena vida, condenada a sofrer cada segundo dessa meia-existência, continuando sem ter o que continuar, seguindo sem ter quem seguir. A verdade é que Florzinha não morreu, mas um dia desses, fazendo malabarismo drogada no trilho, foi atropelada por um trem. Depois de ter sido atropelada pela vida durante seus onze ou, quem sabe, doze anos.
Florzinha brincava de ser malabarista, cambaleando nas ruas do Rio de Janeiro, pensando nos próximos dez reais que ia ganhar por passar a noite com um daqueles gringos que cheiravam a protetor solar e caipirinha. Tropeçava em árvores frondosas, pedras soltas, pedaços de madeira e no cocô que os cachorros iam deixando para trás, junto com os sonhos que ela não teve tempo de ter. Nunca teve um quarto rosa, nunca sonhou em ser astronauta, nunca ganhou uma tiara de princesa, nunca escreveu suas férias em um diário, nunca se apaixonou pelo amiguinho do colégio. Não era gente, não era flor, era bicho. Nem sabia ao certo se tinha onze ou doze anos, tinha esquecido com o tempo, e estava sempre drogada demais para ter alguma memória dos pais ou da casa pobre em que nasceu. Aliás, preferia não ter lembrança alguma dessa vida, porque não tinha passado nem futuro, mas sim um presente que se repetia mil vezes: os programas, o crack, a bebida, as ruas com cheiro de xixi e os pés pretos, de tanto arrastar sua miséria pelas avenidas da cidade cartão-postal. Tinha um rosto bonito, de traços finos, que há tempos não conheciam lágrimas, porque lágrima é coisa de quem ainda tem amor, apego. E ela só conhecia o amor necessário pela droga ou o amor que imaginava que uma mulher devia sentir na cama, quando se deitava ao lado um homem, diferente dela com os coroas gringos. Florzinha, como milhares de meninas, nasceu com uma história fadada a não ter final, quanto mais final feliz. Coisa de quem morre em plena vida, condenada a sofrer cada segundo dessa meia-existência, continuando sem ter o que continuar, seguindo sem ter quem seguir. A verdade é que Florzinha não morreu, mas um dia desses, fazendo malabarismo drogada no trilho, foi atropelada por um trem. Depois de ter sido atropelada pela vida durante seus onze ou, quem sabe, doze anos.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
O PEQUENO INSTANTE DE UM DIA
por Maria Rita Angeiras
Você me perturba, perturba meu sono e perturba minha fome com suas conversas. Eu não consigo dormir direito, fico me remexendo na cama. Acordo toda errada, toda confusa, toda despedaçada e chego a passar meia hora encarando a fumaça do chuveiro, com o olhar lá longe, em qualquer lugar do mundo, menos onde devia estar. Demoro a encontrar uma roupa, detesto todas e escolho qualquer uma. Tomo café da manhã quase me jogando na cama de novo, perco a hora e entro no elevador ajeitando o cabelo que eu esqueci de ajeitar porque não lembrava o que fui fazer na frente do espelho. Gasto quinze minutos tentando tirar o nó do meu cordão, meio aérea, e esqueço a vida lá fora, as pessoas lá fora e tudo que acontece à minha volta. Subo as escadas do trabalho totalmente inconsciente, sento na minha mesa e só fico pensando em coisas que não fazem o menor sentido, totalmente desconexas, sem chegar a conclusão alguma. Não consigo juntar duas palavras, formar uma frase completa ou ter uma conversa decente com ninguém, porque a verdade é que nem me apetece falar nada. Fico ouvindo as mesmas músicas dezenas de vezes, talvez para não pensar, mas não faz a menor diferença, porque nem pensar eu consigo direito, são só alguns pedaços de várias coisas aleatórias. Tento escrever um poema, uma crônica, um pensamento ou tirar alguma poesia de mim, mas o esforço é ridículo e quando percebo já se passaram duas horas e o computador continua em branco. Meu relógio funciona, mas às vezes para, e de vez em quando volta, e eu nunca tenho noção de hora. Ando na rua e ela parece vazia, e parece que eu vou flutuar, mas volto e, inconscientemente, me puxo de volta. Sento no restaurante de óculos escuros, completamente na minha, e saio ainda mais na minha do que entrei, depois de odiar a comida, achar o suco azedo e o lugar frio. É como se você desse um pause na minha vida. Suas falas passeiam pela minha frente como um filme, que eu fico assistindo vinte e quatro horas, imóvel. E, por um dia inteiro, não sei quem eu sou, não sei o que eu quero, não sei em quem acredito. Você nunca erra. Você fala a coisa certa. Você me entende. Você me arranca, pedacinho por pedacinho, das minhas próprias mãos. E eu não sei o que fazer com o que sobrou de mim. E deixa eu te dizer. Você me perturba.
Você me perturba, perturba meu sono e perturba minha fome com suas conversas. Eu não consigo dormir direito, fico me remexendo na cama. Acordo toda errada, toda confusa, toda despedaçada e chego a passar meia hora encarando a fumaça do chuveiro, com o olhar lá longe, em qualquer lugar do mundo, menos onde devia estar. Demoro a encontrar uma roupa, detesto todas e escolho qualquer uma. Tomo café da manhã quase me jogando na cama de novo, perco a hora e entro no elevador ajeitando o cabelo que eu esqueci de ajeitar porque não lembrava o que fui fazer na frente do espelho. Gasto quinze minutos tentando tirar o nó do meu cordão, meio aérea, e esqueço a vida lá fora, as pessoas lá fora e tudo que acontece à minha volta. Subo as escadas do trabalho totalmente inconsciente, sento na minha mesa e só fico pensando em coisas que não fazem o menor sentido, totalmente desconexas, sem chegar a conclusão alguma. Não consigo juntar duas palavras, formar uma frase completa ou ter uma conversa decente com ninguém, porque a verdade é que nem me apetece falar nada. Fico ouvindo as mesmas músicas dezenas de vezes, talvez para não pensar, mas não faz a menor diferença, porque nem pensar eu consigo direito, são só alguns pedaços de várias coisas aleatórias. Tento escrever um poema, uma crônica, um pensamento ou tirar alguma poesia de mim, mas o esforço é ridículo e quando percebo já se passaram duas horas e o computador continua em branco. Meu relógio funciona, mas às vezes para, e de vez em quando volta, e eu nunca tenho noção de hora. Ando na rua e ela parece vazia, e parece que eu vou flutuar, mas volto e, inconscientemente, me puxo de volta. Sento no restaurante de óculos escuros, completamente na minha, e saio ainda mais na minha do que entrei, depois de odiar a comida, achar o suco azedo e o lugar frio. É como se você desse um pause na minha vida. Suas falas passeiam pela minha frente como um filme, que eu fico assistindo vinte e quatro horas, imóvel. E, por um dia inteiro, não sei quem eu sou, não sei o que eu quero, não sei em quem acredito. Você nunca erra. Você fala a coisa certa. Você me entende. Você me arranca, pedacinho por pedacinho, das minhas próprias mãos. E eu não sei o que fazer com o que sobrou de mim. E deixa eu te dizer. Você me perturba.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
quarta-feira, 29 de julho de 2009
NOS VEMOS EM PARIS
Por Maria Rita Angeiras
Você atravessa a rua e todos os homens te encaram, virando o rosto para acompanhar seu suposto corpinho sexy e irresistível, que você vestiu com a primeira blusa que sua mão pegou no armário e com aquela calça jeans que nem marcar o corpo marca. Você vai tomar um café na esquina e todos os motoristas fazem uma sinfonia constrangedora, enquanto você olha para trás, constrangida, se perguntando se tudo aquilo é com você mesmo ou com alguma loira, peituda e bunduda que está a alguns metros de você. Você vai almoçar e o garçom traz um biscoitinho extra na hora do café, acompanhado de uma piscadinha ou de algum comentário com a palavra ‘princesa’ no meio. Você vai fazer compras no supermercado e o caixa inventa uma suposta promoção, afirmando que você vai poder levar tudo de graça para casa, nem que ele tenha que perder o emprego para isso. Você desliga o celular no final do semana e, como num milagre, ele liga sozinho e, um segundo depois, o telefone toca. Você entra no elevador bagunçada, com o cabelo estranho e a roupa toda molhada de chuva e o vizinho desconhecido resolve puxar assunto, porque parece que ele gosta de mulheres molhadas de chuva, com cara de cansada e o cabelo embolado. Você liga para o telemarketing da operadora e o atendente resolve te dar um celular, casa, comida e roupa lavada, se 'a senhora estiver aceitando', é claro. Você abre o e-mail e aparecem várias mensagens, com a balada mais legal cidade, o restaurante mais legal da cidade e com as pessoas mais legais da cidade. A vida é mesmo patética. É quando você não tá nem aí para todos os homens do universo que eles resolvem ficar super aí para você. E, ainda por cima, falando sobre Paris.
Você atravessa a rua e todos os homens te encaram, virando o rosto para acompanhar seu suposto corpinho sexy e irresistível, que você vestiu com a primeira blusa que sua mão pegou no armário e com aquela calça jeans que nem marcar o corpo marca. Você vai tomar um café na esquina e todos os motoristas fazem uma sinfonia constrangedora, enquanto você olha para trás, constrangida, se perguntando se tudo aquilo é com você mesmo ou com alguma loira, peituda e bunduda que está a alguns metros de você. Você vai almoçar e o garçom traz um biscoitinho extra na hora do café, acompanhado de uma piscadinha ou de algum comentário com a palavra ‘princesa’ no meio. Você vai fazer compras no supermercado e o caixa inventa uma suposta promoção, afirmando que você vai poder levar tudo de graça para casa, nem que ele tenha que perder o emprego para isso. Você desliga o celular no final do semana e, como num milagre, ele liga sozinho e, um segundo depois, o telefone toca. Você entra no elevador bagunçada, com o cabelo estranho e a roupa toda molhada de chuva e o vizinho desconhecido resolve puxar assunto, porque parece que ele gosta de mulheres molhadas de chuva, com cara de cansada e o cabelo embolado. Você liga para o telemarketing da operadora e o atendente resolve te dar um celular, casa, comida e roupa lavada, se 'a senhora estiver aceitando', é claro. Você abre o e-mail e aparecem várias mensagens, com a balada mais legal cidade, o restaurante mais legal da cidade e com as pessoas mais legais da cidade. A vida é mesmo patética. É quando você não tá nem aí para todos os homens do universo que eles resolvem ficar super aí para você. E, ainda por cima, falando sobre Paris.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
VULGARIZANDO AMORES
por Maria Rita Angeiras
O amor passa pelos meus olhos com uma freqüência tão desconcertante que, de repente, me pego amando várias pequenas coisas que se debruçam ao longo do meu caminho. O jeito doce da Diana Ross de dançar e balançar os ombros com as Supremes, dentro de um vestidinho azul adorável, enquanto regula a mão direita num movimento lateral suave, que eu tento imitar em baladas e jantares pessoais. Minhas meias engraçadas com um pequeno pompom bem atrás, que fazem com que eu me sinta um pouco como a Pipi Longstocking, e eu quase bato um pé no outro, achando que elas podem produzir algum tipo de magia escondida. O cheiro que fica no hall do elevador aos domingos, quando meus vizinhos juntam a família e fazem uma receita com um cheiro entorpecedor de frango com batatas, fazendo com que eu me transporte automaticamente para casa. A música ‘Miss Otis Regrets (She Unable To Lunch Today)’, do Cole Porter, e a música ‘I Love You (But You’re Green)’, dos Babyshambles, só porque elas têm esse nome incrível, que cavam um sorriso de canto de boca em mim toda vez que leio. O momento em que Elliot se convida, no filme Hannah and Her Sisters, para acompanhar Lee à próxima sessão dos Alcoólatras Anônimos, porque ele quer desesperadamente ficar perto dela, nem que seja numa dessas reuniões. Os trechos ‘I like my body when it is with your body’, e ‘Nobody, not even the rain, has such small hands’, do E. E. Cummings, porque eu sinto uma vontade louca de conhecer alguém bacana toda vez que leio esses poemas. As fotos em que Clara desafia a máquina fotográfica e a pessoa por trás dela, arregalando os olhos com uma expressão de quem pensa ‘De novo? Como vocês, humanos, são bobos’, porque eu tenho certeza que ela veio de algum lugar muito maior do que tudo isso aqui ou saiu direto de algum conto de Clarice Lispector ou de Isabel Allende. As dez ligações diárias que eu recebo do meu pai perguntando se tá tudo bem comigo, eufemismo de “filha, checa os pulsos, os batimentos cardíacos e os reflexos cerebrais, só pra eu dormir tranqüilo hoje”. Aqueles olhos doces. A palavra em inglês ‘rainbow’, só porque é gostosa de dizer mesmo, e às vezes me acalma, como um mantra super secreto. George Harrison rindo no segundo sete da música ‘Here Comes The Sun’, implacável em todos os meus dias de chuva. Os pássaros e as borboletas da parede do meu apartamento, porque às vezes eu desconfio que eles voam enquanto eu durmo no quarto. As ombreiras, as roupinhas cafonas e as performances do Brandon Flowers, dos Killers. O delicioso sotaque inglês do Pete Doherty na exata hora em que ele canta ‘and to lie to you, rather than hurt you?’, em ‘Music When The Lights Go Out’. Todas as fotos do Henri Cartier-Bresson, o quadro ‘Rain, Steam and Speed’, do William Turner, e o quadro ‘Composition IX’, do Kandinsky. Quem tira os óculos do dia-a-dia e enxerga a menina por trás de todos esses clichêzinhos de escritora de cabecinha ferrada. E tantas outras coisas e pessoas que vou amar hoje, amanhã e depois. Até o dia em que não couber mais tanto amor dentro do meu corpo. Ou pelo menos até o dia em que deixar de amar esses detalhes e criar coragem pra amar alguém por inteiro.
O amor passa pelos meus olhos com uma freqüência tão desconcertante que, de repente, me pego amando várias pequenas coisas que se debruçam ao longo do meu caminho. O jeito doce da Diana Ross de dançar e balançar os ombros com as Supremes, dentro de um vestidinho azul adorável, enquanto regula a mão direita num movimento lateral suave, que eu tento imitar em baladas e jantares pessoais. Minhas meias engraçadas com um pequeno pompom bem atrás, que fazem com que eu me sinta um pouco como a Pipi Longstocking, e eu quase bato um pé no outro, achando que elas podem produzir algum tipo de magia escondida. O cheiro que fica no hall do elevador aos domingos, quando meus vizinhos juntam a família e fazem uma receita com um cheiro entorpecedor de frango com batatas, fazendo com que eu me transporte automaticamente para casa. A música ‘Miss Otis Regrets (She Unable To Lunch Today)’, do Cole Porter, e a música ‘I Love You (But You’re Green)’, dos Babyshambles, só porque elas têm esse nome incrível, que cavam um sorriso de canto de boca em mim toda vez que leio. O momento em que Elliot se convida, no filme Hannah and Her Sisters, para acompanhar Lee à próxima sessão dos Alcoólatras Anônimos, porque ele quer desesperadamente ficar perto dela, nem que seja numa dessas reuniões. Os trechos ‘I like my body when it is with your body’, e ‘Nobody, not even the rain, has such small hands’, do E. E. Cummings, porque eu sinto uma vontade louca de conhecer alguém bacana toda vez que leio esses poemas. As fotos em que Clara desafia a máquina fotográfica e a pessoa por trás dela, arregalando os olhos com uma expressão de quem pensa ‘De novo? Como vocês, humanos, são bobos’, porque eu tenho certeza que ela veio de algum lugar muito maior do que tudo isso aqui ou saiu direto de algum conto de Clarice Lispector ou de Isabel Allende. As dez ligações diárias que eu recebo do meu pai perguntando se tá tudo bem comigo, eufemismo de “filha, checa os pulsos, os batimentos cardíacos e os reflexos cerebrais, só pra eu dormir tranqüilo hoje”. Aqueles olhos doces. A palavra em inglês ‘rainbow’, só porque é gostosa de dizer mesmo, e às vezes me acalma, como um mantra super secreto. George Harrison rindo no segundo sete da música ‘Here Comes The Sun’, implacável em todos os meus dias de chuva. Os pássaros e as borboletas da parede do meu apartamento, porque às vezes eu desconfio que eles voam enquanto eu durmo no quarto. As ombreiras, as roupinhas cafonas e as performances do Brandon Flowers, dos Killers. O delicioso sotaque inglês do Pete Doherty na exata hora em que ele canta ‘and to lie to you, rather than hurt you?’, em ‘Music When The Lights Go Out’. Todas as fotos do Henri Cartier-Bresson, o quadro ‘Rain, Steam and Speed’, do William Turner, e o quadro ‘Composition IX’, do Kandinsky. Quem tira os óculos do dia-a-dia e enxerga a menina por trás de todos esses clichêzinhos de escritora de cabecinha ferrada. E tantas outras coisas e pessoas que vou amar hoje, amanhã e depois. Até o dia em que não couber mais tanto amor dentro do meu corpo. Ou pelo menos até o dia em que deixar de amar esses detalhes e criar coragem pra amar alguém por inteiro.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
MUDANÇA
por Maria Rita Angeiras
Palavras que se entrelaçam no ar
Como longos fios de barbante amarelo
Confusos, ásperos, difíceis de soltar
Conversas sobre histórias que já vivi
Mas prefiro minha calma de agora
Caos, confusão, cansei de déjà vu
Alegrias bobas que antes deixava passar
A partir de agora dou atenção em dobro
Pulmão, coração, não é tudo no mesmo lugar?
Palavras que se entrelaçam no ar
Como longos fios de barbante amarelo
Confusos, ásperos, difíceis de soltar
Conversas sobre histórias que já vivi
Mas prefiro minha calma de agora
Caos, confusão, cansei de déjà vu
Alegrias bobas que antes deixava passar
A partir de agora dou atenção em dobro
Pulmão, coração, não é tudo no mesmo lugar?
segunda-feira, 6 de julho de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009
NAS ENTRELINHAS
por Maria Rita Angeiras
Poetas e escritores de quinta, destacando que o “de quinta” é apenas um jeito charmoso de denominar a classe que escreve sem grandes pretensões burguesas, são a nata artística da virilidade dos homens. Têm o costume de ocupar as mesas dos bares sem aquela falsa despretensão indie, e fazem do chão sujo dos botecos um templo de adoração dos amigos garçons, da cerveja estupidamente gelada e, claro, de reverência às suas musas inspiradoras. Estas, ao contrário da maioria que se vê por aí, não se aventuram ao longo dos azulejos azuis em saltos quinze centímetros ou em calças jeans “um número a menos, por favor”. Em compensação, têm a graciosidade estampada nos tênis infanto-juvenis, no cabelo quase sempre bagunçado e cansado do dia-a-dia, na maneira apaixonada com que defendem seus ideais pseudo-feministas e na revelação dos amores comunistas que vão fazendo ao longo da noite, de acordo com o adorável nível alcoólico. Não querem presentes caros, mimos exóticos, mensagens amorosas às oito da noite, mensagens desesperadas às cinco da manhã e e-mails com declarações de amor virtuais. Querem a vivacidade dos poemas, a dor dos sonetos, a continuação das estrofes, a perdição dos trechos, a narração dos enredos, a descrição das crônicas e a simplicidade dos textos. Desejam, sem nenhum apego consumista, deitar por cima de papéis, abraçar bilhetes e escrever na parede um pedaço dele, na tentativa de aprisionar aquela poesia entre quatro paredes. E enquanto outras falam de borboletas, estas carregam na barriga frases, palavras, orações e letras. E diante de tanta poesia, se alguém vem me falar de preço, eu viro a cara, mudo de calçada e até finjo que desconheço. Porque não se pode comparar a conta de um jantar romântico com a eternidade de um soneto.
Poetas e escritores de quinta, destacando que o “de quinta” é apenas um jeito charmoso de denominar a classe que escreve sem grandes pretensões burguesas, são a nata artística da virilidade dos homens. Têm o costume de ocupar as mesas dos bares sem aquela falsa despretensão indie, e fazem do chão sujo dos botecos um templo de adoração dos amigos garçons, da cerveja estupidamente gelada e, claro, de reverência às suas musas inspiradoras. Estas, ao contrário da maioria que se vê por aí, não se aventuram ao longo dos azulejos azuis em saltos quinze centímetros ou em calças jeans “um número a menos, por favor”. Em compensação, têm a graciosidade estampada nos tênis infanto-juvenis, no cabelo quase sempre bagunçado e cansado do dia-a-dia, na maneira apaixonada com que defendem seus ideais pseudo-feministas e na revelação dos amores comunistas que vão fazendo ao longo da noite, de acordo com o adorável nível alcoólico. Não querem presentes caros, mimos exóticos, mensagens amorosas às oito da noite, mensagens desesperadas às cinco da manhã e e-mails com declarações de amor virtuais. Querem a vivacidade dos poemas, a dor dos sonetos, a continuação das estrofes, a perdição dos trechos, a narração dos enredos, a descrição das crônicas e a simplicidade dos textos. Desejam, sem nenhum apego consumista, deitar por cima de papéis, abraçar bilhetes e escrever na parede um pedaço dele, na tentativa de aprisionar aquela poesia entre quatro paredes. E enquanto outras falam de borboletas, estas carregam na barriga frases, palavras, orações e letras. E diante de tanta poesia, se alguém vem me falar de preço, eu viro a cara, mudo de calçada e até finjo que desconheço. Porque não se pode comparar a conta de um jantar romântico com a eternidade de um soneto.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
TRECHOS
por Maria Rita Angeiras
- Tô só tô desabando.
- Desabafando, você quis dizer.
- Dá no mesmo, não?
- Tô só tô desabando.
- Desabafando, você quis dizer.
- Dá no mesmo, não?
INSPIRAÇÃO
por Maria Rita Angeiras
Há horas encaro o branco
E não me ocorre absolutamente nada
E chego a ficar na dúvida
Se prefiro ser uma página vazia
Ou uma página riscada
Há horas encaro o branco
E não me ocorre absolutamente nada
E chego a ficar na dúvida
Se prefiro ser uma página vazia
Ou uma página riscada
segunda-feira, 22 de junho de 2009
ÓBVIO
por Maria Rita Angeiras
O que levo das coisas que vejo
Tirando tudo que pareça impróprio
É que nada é tão difícil de ver
Como aquilo que parece óbvio
O que levo das coisas que vejo
Tirando tudo que pareça impróprio
É que nada é tão difícil de ver
Como aquilo que parece óbvio
sexta-feira, 19 de junho de 2009
TAPETE DE VERSOS
por Maria Rita Angeiras
Eu vou pegar minhas palavras
E espalhar pelos seus bolsos
Esconder nos seus sapatos
Pendurar no seu pescoço
E quando caírem pela rua
Enfeitarão de versos o chão
Só para te guiar pelo caminho
Como se pegassem tua mão
E cada rima que pousar no cimento
Escrita sem qualquer esforço
Vai adubar o perfume das flores
Ou encher de poesia os esgotos
E se teu céu se vestir de cinza
Faço um arco-íris com pincel
Para isso te dou minha palavra
Ou quantas couberem num papel
Eu vou pegar minhas palavras
E espalhar pelos seus bolsos
Esconder nos seus sapatos
Pendurar no seu pescoço
E quando caírem pela rua
Enfeitarão de versos o chão
Só para te guiar pelo caminho
Como se pegassem tua mão
E cada rima que pousar no cimento
Escrita sem qualquer esforço
Vai adubar o perfume das flores
Ou encher de poesia os esgotos
E se teu céu se vestir de cinza
Faço um arco-íris com pincel
Para isso te dou minha palavra
Ou quantas couberem num papel
quarta-feira, 17 de junho de 2009
TRECHOS
por Maria Rita Angeiras
Existe uma certa beleza em não falar. Dizer as coisas é meio vulgar, desnecessário. O que a gente tem lá dentro é tão melhor, mais bonito e até maior quando fica lá dentro mesmo, protegido, a salvo. Não sei se é o calor, o sol, o vento ou tom da nossa voz, mas tem algo que estraga a poesia quando a boca coloca ela pra fora. Acho que é por isso que o meu lado que sente não conversa com o meu lado que fala. O que sai de um e o que sai do outro são de uma diferença absurda. Um lado simplesmente trai o outro. Por isso, eu escrevo. Escrevo feito uma louca. Escrevo sem hora certa. Escrevo sem parar. Escrevo para que os outros me entendam. Porque me escutar é algo completamente inútil.
Existe uma certa beleza em não falar. Dizer as coisas é meio vulgar, desnecessário. O que a gente tem lá dentro é tão melhor, mais bonito e até maior quando fica lá dentro mesmo, protegido, a salvo. Não sei se é o calor, o sol, o vento ou tom da nossa voz, mas tem algo que estraga a poesia quando a boca coloca ela pra fora. Acho que é por isso que o meu lado que sente não conversa com o meu lado que fala. O que sai de um e o que sai do outro são de uma diferença absurda. Um lado simplesmente trai o outro. Por isso, eu escrevo. Escrevo feito uma louca. Escrevo sem hora certa. Escrevo sem parar. Escrevo para que os outros me entendam. Porque me escutar é algo completamente inútil.
A DOR DO POETA
por Maria Rita Angeiras
Poemas são grandes dores
Cuspidas para fora do corpo
Em pequenas doses homeopáticas
Para salvar o poeta do oco
Poemas são como crimes
Com punhaladas em excesso
Mas o poeta recebe o perdão
Por fazer com tão lindos versos
Poemas são acusações covardes
Captadas nas entrelinhas
Que escondem dores e confissões
Por trás das palavras vizinhas
Poemas são quase uma incógnita
Estrofes perdidas num vão
E sinto que são pela metade
Porque deviam ser canção
Poemas são grandes dores
Cuspidas para fora do corpo
Em pequenas doses homeopáticas
Para salvar o poeta do oco
Poemas são como crimes
Com punhaladas em excesso
Mas o poeta recebe o perdão
Por fazer com tão lindos versos
Poemas são acusações covardes
Captadas nas entrelinhas
Que escondem dores e confissões
Por trás das palavras vizinhas
Poemas são quase uma incógnita
Estrofes perdidas num vão
E sinto que são pela metade
Porque deviam ser canção
segunda-feira, 15 de junho de 2009
PARA CLARA
por Maria Rita Angeiras
Você foi a primeira a nascer, mas já chegou com a manha das caçulas, pescando sorrisos com olhares doces e enchendo nossas vidas de música e de risadas, desconfiando do seu alto poder diante de tanta gente boba de amor. Não pude te conhecer logo, quando você fez bico na maternidade e decidiu ficar lá mais um tempo, mas era certo que estava apenas descansando sua alegria frágil antes de receber tantos cheiros, apertos e beijos. E quando te conheci, algum tempo depois, já de roupa colorida e olhos pretos curiosos, você só não me partiu em duzentos pedaços pequenos porque eu tinha que te segurar bem forte nos meu braços. Você me ganhou no primeiro segundo e me ganha cada dia que eu vou pra Recife e acordo cedo, coisa que nunca fiz, só pra te pegar no colo e decorar cada parte perfeita do teu rostinho de princesa antes de voltar pra casa. É, dizem que você se parece comigo quando criança e eu faço questão de também achar, carregando uma certa glória por você poder se lembrar da sua tia não pelas raras visitas, mas pelas vezes em que se olha no espelho, brincando de ser boneca que anda e que fala. Também rezo pra você não crescer com pressa, pra poder aproveitar bem muito o castelo que a gente construiu com um dragão bravo na porta só pra zelar teu sono e te proteger dos pesadelos. E me apavoro de saber que você já está correndo feito uma doidinha, porque agora já pode fugir sorrateira dos nossos abraços apertados demais e do nosso jeito bobo de te amar incondicionalmente. Enquanto isso, vou ensaiando daqui de longe os “não” que nunca vou conseguir te dizer e toda a poesia que ainda vou escrever pra falar do amor que esse teu berço guarda, como uma caixinha de música que guarda uma bailarina cansada de dançar o dia inteiro. E quando penso que você é a nossa menina, sei que estou errado. Não é você que é a nossa menina, nós é que somos todos seus, minha linda.
Você foi a primeira a nascer, mas já chegou com a manha das caçulas, pescando sorrisos com olhares doces e enchendo nossas vidas de música e de risadas, desconfiando do seu alto poder diante de tanta gente boba de amor. Não pude te conhecer logo, quando você fez bico na maternidade e decidiu ficar lá mais um tempo, mas era certo que estava apenas descansando sua alegria frágil antes de receber tantos cheiros, apertos e beijos. E quando te conheci, algum tempo depois, já de roupa colorida e olhos pretos curiosos, você só não me partiu em duzentos pedaços pequenos porque eu tinha que te segurar bem forte nos meu braços. Você me ganhou no primeiro segundo e me ganha cada dia que eu vou pra Recife e acordo cedo, coisa que nunca fiz, só pra te pegar no colo e decorar cada parte perfeita do teu rostinho de princesa antes de voltar pra casa. É, dizem que você se parece comigo quando criança e eu faço questão de também achar, carregando uma certa glória por você poder se lembrar da sua tia não pelas raras visitas, mas pelas vezes em que se olha no espelho, brincando de ser boneca que anda e que fala. Também rezo pra você não crescer com pressa, pra poder aproveitar bem muito o castelo que a gente construiu com um dragão bravo na porta só pra zelar teu sono e te proteger dos pesadelos. E me apavoro de saber que você já está correndo feito uma doidinha, porque agora já pode fugir sorrateira dos nossos abraços apertados demais e do nosso jeito bobo de te amar incondicionalmente. Enquanto isso, vou ensaiando daqui de longe os “não” que nunca vou conseguir te dizer e toda a poesia que ainda vou escrever pra falar do amor que esse teu berço guarda, como uma caixinha de música que guarda uma bailarina cansada de dançar o dia inteiro. E quando penso que você é a nossa menina, sei que estou errado. Não é você que é a nossa menina, nós é que somos todos seus, minha linda.
terça-feira, 9 de junho de 2009
COMO QUEM RESPIRA
por Maria Rita Angeiras
É o minuto, é o instante, é o seguinte, é a hora,
que passa, que vira, que muda, e o resto é mais, é menos,
depende da hora, do tempo, do segundo,
mas é tudo tão sonho, pesadelo, escuro, sossego.
São planos, papéis, lençóis, travesseiros,
enganos, puros, humanos, erros, adoráveis consertos,
portas e linhas tortas, mas minhas, só minhas, importa?
É o vento, é o poema, é o beijo, chorado, apertado, soluçado,
é a despedida com um lenço na mão, que segura, feito peneira,
as palavras, como areia, que vão caindo no chão.
É o talvez, é o pode ser, é o sim que não cai,
segurado pelos braços, pelos pés, atados,
pela dúvida, pelo vai, pelo não vai,
mas se duvida, não toca, então sai, só sai.
É a loucura sem a doidice de vez,
cada vez, dessa vez, mais uma vez, quantas vezes?
Dois, só nós dois, sem eles, sem vós, nós.
Um passo atrás e estamos sós.
É a cama, é a lama, é o céu de pijama,
ama, não engana, não brinca, e vou, e volto,
e sumo, e te adoro, e te amo, e te odeio, e te xingo e te gosto.
São sorrisos, conversas, borrachas, papéis,
brancos, azuis, coloridos, perdidos
no incrível preto, amarelo, roxo, rosa, verde, infinito.
Madrugadas sem volta, só de ida, sem vinda,
linda, louca, viva, mas perdida, eternamente perdida.
É o minuto, é o instante, é o seguinte, é a hora,
que passa, que vira, que muda, e o resto é mais, é menos,
depende da hora, do tempo, do segundo,
mas é tudo tão sonho, pesadelo, escuro, sossego.
São planos, papéis, lençóis, travesseiros,
enganos, puros, humanos, erros, adoráveis consertos,
portas e linhas tortas, mas minhas, só minhas, importa?
É o vento, é o poema, é o beijo, chorado, apertado, soluçado,
é a despedida com um lenço na mão, que segura, feito peneira,
as palavras, como areia, que vão caindo no chão.
É o talvez, é o pode ser, é o sim que não cai,
segurado pelos braços, pelos pés, atados,
pela dúvida, pelo vai, pelo não vai,
mas se duvida, não toca, então sai, só sai.
É a loucura sem a doidice de vez,
cada vez, dessa vez, mais uma vez, quantas vezes?
Dois, só nós dois, sem eles, sem vós, nós.
Um passo atrás e estamos sós.
É a cama, é a lama, é o céu de pijama,
ama, não engana, não brinca, e vou, e volto,
e sumo, e te adoro, e te amo, e te odeio, e te xingo e te gosto.
São sorrisos, conversas, borrachas, papéis,
brancos, azuis, coloridos, perdidos
no incrível preto, amarelo, roxo, rosa, verde, infinito.
Madrugadas sem volta, só de ida, sem vinda,
linda, louca, viva, mas perdida, eternamente perdida.
terça-feira, 2 de junho de 2009
AMIGA
por Maria Rita Angeiras
Você me abraçou e podia ser só mais abraço. Mas não, você me abraçou e continuou abraçando por longos minutos, sem soltar, e eu fiquei sem reação, porque de repente senti que tinha te deixado de lado por tanto tempo que você tava compensando tudo naquele único abraço. E eu me senti um nada ao quadrado multiplicado por dez, porque eu não ando merecendo ouvir todas as coisas lindas que você me falou naquele momento. Agora eu só quero saber do trabalho, vivo toda cansada, fico aérea nos almoços, tenho preguiça de argumentar e troco nossos sábados e domingos ressacados no boteco pela luz branca da agência. Trabalho, trabalho, trabalho. Logo nesse momento, que você anda precisando tanto que eu e os meus dois ombros amigos estejam lá, na hora em que você precisar, simplesmente porque você já fez muito isso por mim. E naquele dia, depois da conversa e do abraço, eu percebi todas essas coisas me senti um grande lixo. E você certamente merece uma amiga melhor, mas eu sou muito lixo até pra admitir isso. E eu só quero que você volte logo a dormir sem se preocupar com essas coisas que estão acontecendo, e eu te prometo que tudo vai melhorar, ou que pelo menos eu vou estar lá pra te dizer isso mais vezes, sempre que você precisar. E que eventualmente o trabalho vai deixar de ser o centro da minha vida e eu vou sentar de novo no sofá da sua casa pra gente tomar tequila, comer brigadeiro, ver filmes estúpidos e desfilar pela casa com nossos pijaminhas preguiçosos. Ah, e lembra quando você disse, toda enciumada, que eu só escrevo crônicas pra carinhas babacas que eu nem gosto tanto assim? Bom, acho melhor você inventar outra teoria maluca, porque essa crônica aqui é pra você.
Você me abraçou e podia ser só mais abraço. Mas não, você me abraçou e continuou abraçando por longos minutos, sem soltar, e eu fiquei sem reação, porque de repente senti que tinha te deixado de lado por tanto tempo que você tava compensando tudo naquele único abraço. E eu me senti um nada ao quadrado multiplicado por dez, porque eu não ando merecendo ouvir todas as coisas lindas que você me falou naquele momento. Agora eu só quero saber do trabalho, vivo toda cansada, fico aérea nos almoços, tenho preguiça de argumentar e troco nossos sábados e domingos ressacados no boteco pela luz branca da agência. Trabalho, trabalho, trabalho. Logo nesse momento, que você anda precisando tanto que eu e os meus dois ombros amigos estejam lá, na hora em que você precisar, simplesmente porque você já fez muito isso por mim. E naquele dia, depois da conversa e do abraço, eu percebi todas essas coisas me senti um grande lixo. E você certamente merece uma amiga melhor, mas eu sou muito lixo até pra admitir isso. E eu só quero que você volte logo a dormir sem se preocupar com essas coisas que estão acontecendo, e eu te prometo que tudo vai melhorar, ou que pelo menos eu vou estar lá pra te dizer isso mais vezes, sempre que você precisar. E que eventualmente o trabalho vai deixar de ser o centro da minha vida e eu vou sentar de novo no sofá da sua casa pra gente tomar tequila, comer brigadeiro, ver filmes estúpidos e desfilar pela casa com nossos pijaminhas preguiçosos. Ah, e lembra quando você disse, toda enciumada, que eu só escrevo crônicas pra carinhas babacas que eu nem gosto tanto assim? Bom, acho melhor você inventar outra teoria maluca, porque essa crônica aqui é pra você.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
TUDO E NADA AO MESMO TEMPO
por Maria Rita Angeiras
Hoje de manhã eu vou colar todos os meus pedacinhos, mas minha cabeça tá girando tanto que eu prometo fazer isso mais tarde, quando acalmar a minha urgência de viver que tirou férias e agora voltou com tudo. E eu bem que ouviria algum jazz, talvez aquela exata cantora de jazz que eu adoro, porque ultimamente eu decidi deixar o cansaço me levar, e cansada eu não sei distinguir o certo do errado, eu só vou indo mesmo, até bater a cabeça na parede. Mas como faz tempo que não bato, eu finjo que tá tudo bem e escuto a cantora de jazz mil vezes, enquanto bagunço meu cabelo no meio de uma dancinha ridícula, porque a cantora de jazz acalma meu corpo, porque cantar desafoga a alma e porque eu preciso cantar loucamente, até o meu vizinho concluir que ser doido é muito melhor que ser isso que a gente é de segunda a sexta. E a gente vai cuidando da vida enquanto faz confissões de sábado à noite na cozinha, tentando adivinhar a ordem das coisas, mas chegando à conclusão que elas não têm ordem nenhuma e que o negócio é ir indo, até que uma hora a gente finalmente chega em algum lugar. E que o bom do final de semana é não ter hora, e que do alto de uma montanha, sentados numa pedra, a vida parece ser toda nossa, e ela simplesmente é, toda linda, sem a gente ter que complicar muito. E quando eu penso naquela imagem, eu fico pensando em deus, porque deus deve ser exatamente aquilo, mas numa proporção bem maior. E eu vou colocando isso tudo pra fora como quem sonha, totalmente inconsciente, porque o barato da minha loucurinha é voltar pra tudo isso sem nem pensar. Não agora. Não hoje. Quem sabe amanhã. Vai saber.
Hoje de manhã eu vou colar todos os meus pedacinhos, mas minha cabeça tá girando tanto que eu prometo fazer isso mais tarde, quando acalmar a minha urgência de viver que tirou férias e agora voltou com tudo. E eu bem que ouviria algum jazz, talvez aquela exata cantora de jazz que eu adoro, porque ultimamente eu decidi deixar o cansaço me levar, e cansada eu não sei distinguir o certo do errado, eu só vou indo mesmo, até bater a cabeça na parede. Mas como faz tempo que não bato, eu finjo que tá tudo bem e escuto a cantora de jazz mil vezes, enquanto bagunço meu cabelo no meio de uma dancinha ridícula, porque a cantora de jazz acalma meu corpo, porque cantar desafoga a alma e porque eu preciso cantar loucamente, até o meu vizinho concluir que ser doido é muito melhor que ser isso que a gente é de segunda a sexta. E a gente vai cuidando da vida enquanto faz confissões de sábado à noite na cozinha, tentando adivinhar a ordem das coisas, mas chegando à conclusão que elas não têm ordem nenhuma e que o negócio é ir indo, até que uma hora a gente finalmente chega em algum lugar. E que o bom do final de semana é não ter hora, e que do alto de uma montanha, sentados numa pedra, a vida parece ser toda nossa, e ela simplesmente é, toda linda, sem a gente ter que complicar muito. E quando eu penso naquela imagem, eu fico pensando em deus, porque deus deve ser exatamente aquilo, mas numa proporção bem maior. E eu vou colocando isso tudo pra fora como quem sonha, totalmente inconsciente, porque o barato da minha loucurinha é voltar pra tudo isso sem nem pensar. Não agora. Não hoje. Quem sabe amanhã. Vai saber.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
LIFE IN PLASTIC
por Maria Rita Angeiras
Mulheres de lingerie cereja, minúscula e com renda entram nos bares depois dos ventiladores industriais, com seus cabelos esvoaçantes destacando seus cortes de cabelo “igualzinho ao da Gisele, moço, por favor”. Elas chegam sempre aos bandos, inseguras demais pra decidirem sozinhas se querem beber caipiroska de uva ou caipisakê de frutas vermelhas, enquanto enrolam compulsivamente os cachos dourados no dedo indicador, pedindo com voz de menina-do-papai a ajuda do garçom, que a esta altura já se perdeu no decote da dita cuja. São praticamente iguais, e três copos de cerveja depois, nenhum homem consegue distinguir a Lê, a Rê e a Fê, mas eventualmente vai levar uma das três pra casa, provavelmente a primeira que sofrer de falta de ar por causa da calça jeans apertada. Todas têm cara de paisagem, a maioria do tipo “final de semana em Punta”, e quando o assunto é viagem, dão aquela risadinha cúmplice e sacana entre si porque suas histórias homéricas sobre compras e vômitos em bolsas falsificadas são simplesmente impagáveis, mas jamais são reveladas, porque até o último segundo, elas vão fazer os homens acreditarem que são boas demais pra eles. Dão gritinhos irritantes e a experiência de sentar numa mesa ao lado delas é quase espiritual, porque você precisa sair do corpo pra suportar tanta futilidade e chilique junto. Livros: só os para-didáticos, que foram obrigadas a ler durante o ensino fundamental. Jornal: suja as mãos de preto e “ah não, eu acabei de fazer as unhas”. Revistas: variam entre Vogue, pra distinguir branco de off-white, e Marie Claire, pra responder o teste “High ou high-low?”. Algumas são até legais, é verdade, mas o instinto de bando é sempre mais forte e prevalece acima de qualquer coisa. Elas adoram as baladas com música muito alta, talvez pra não denunciar seus cérebros atrofiados, depois de tantas horas marinados na vodka com energético. Têm como trabalho e diversão de vida seduzir: seduzem o manobrista, o garçom, o porteiro, o faxineiro, os playboys, os hippies, os indies e os namoradas da amigas. Elas não acrescentam nada nas conversas e estão sempre ocupadas demais se equilibrando nos saltos altos ou retocando o glitter que aumenta o volume dos lábios, porque todas querem ter a boca da Angelina Jolie, o cabelo da Gisele, as pernas da Adriana Lima, a inteligência emocional da Lindsay Lohan e o QI da Paris Hilton. Por isso, eu afirmo: longa viva às calcinhas brancas, beges, pretas, coloridas, de esquerda, mas cheias de personalidade. Mulheres de lingerie cereja, minúscula e com renda são como itens de decoração: ficam ótimas na estante da sala, mas não passam de lindos objetos.
Mulheres de lingerie cereja, minúscula e com renda entram nos bares depois dos ventiladores industriais, com seus cabelos esvoaçantes destacando seus cortes de cabelo “igualzinho ao da Gisele, moço, por favor”. Elas chegam sempre aos bandos, inseguras demais pra decidirem sozinhas se querem beber caipiroska de uva ou caipisakê de frutas vermelhas, enquanto enrolam compulsivamente os cachos dourados no dedo indicador, pedindo com voz de menina-do-papai a ajuda do garçom, que a esta altura já se perdeu no decote da dita cuja. São praticamente iguais, e três copos de cerveja depois, nenhum homem consegue distinguir a Lê, a Rê e a Fê, mas eventualmente vai levar uma das três pra casa, provavelmente a primeira que sofrer de falta de ar por causa da calça jeans apertada. Todas têm cara de paisagem, a maioria do tipo “final de semana em Punta”, e quando o assunto é viagem, dão aquela risadinha cúmplice e sacana entre si porque suas histórias homéricas sobre compras e vômitos em bolsas falsificadas são simplesmente impagáveis, mas jamais são reveladas, porque até o último segundo, elas vão fazer os homens acreditarem que são boas demais pra eles. Dão gritinhos irritantes e a experiência de sentar numa mesa ao lado delas é quase espiritual, porque você precisa sair do corpo pra suportar tanta futilidade e chilique junto. Livros: só os para-didáticos, que foram obrigadas a ler durante o ensino fundamental. Jornal: suja as mãos de preto e “ah não, eu acabei de fazer as unhas”. Revistas: variam entre Vogue, pra distinguir branco de off-white, e Marie Claire, pra responder o teste “High ou high-low?”. Algumas são até legais, é verdade, mas o instinto de bando é sempre mais forte e prevalece acima de qualquer coisa. Elas adoram as baladas com música muito alta, talvez pra não denunciar seus cérebros atrofiados, depois de tantas horas marinados na vodka com energético. Têm como trabalho e diversão de vida seduzir: seduzem o manobrista, o garçom, o porteiro, o faxineiro, os playboys, os hippies, os indies e os namoradas da amigas. Elas não acrescentam nada nas conversas e estão sempre ocupadas demais se equilibrando nos saltos altos ou retocando o glitter que aumenta o volume dos lábios, porque todas querem ter a boca da Angelina Jolie, o cabelo da Gisele, as pernas da Adriana Lima, a inteligência emocional da Lindsay Lohan e o QI da Paris Hilton. Por isso, eu afirmo: longa viva às calcinhas brancas, beges, pretas, coloridas, de esquerda, mas cheias de personalidade. Mulheres de lingerie cereja, minúscula e com renda são como itens de decoração: ficam ótimas na estante da sala, mas não passam de lindos objetos.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
TRECHOS
por Maria Rita Angeiras
Eu gosto do intenso. Tudo intenso. Menos o amor. O amor precisa ser calmo. O amor precisa dormir em paz.
Eu gosto do intenso. Tudo intenso. Menos o amor. O amor precisa ser calmo. O amor precisa dormir em paz.
POEMA DE PRESENTE
por Maria Rita Angeiras
Peço a gentileza de devolver ao céu
Esse azul que seus olhos roubaram
Para fazer charme às meninas
Porque eu, que adoro um dia de sol
Fico triste quando ele amanhece cinza
Por isso atenda o meu pedido
Já que hoje é o seu aniversário
Em troca brinco de fazer poesia
Só pra te alegrar um pouquinho
Com esse presente ao contrário
Peço a gentileza de devolver ao céu
Esse azul que seus olhos roubaram
Para fazer charme às meninas
Porque eu, que adoro um dia de sol
Fico triste quando ele amanhece cinza
Por isso atenda o meu pedido
Já que hoje é o seu aniversário
Em troca brinco de fazer poesia
Só pra te alegrar um pouquinho
Com esse presente ao contrário
terça-feira, 12 de maio de 2009
O PROBLEMA NÃO É VOCÊ, SOU EU
por Maria Rita Angeiras
Nós dizemos não, vocês dizem sim. Nós dizemos sim, vocês dizem não. Quem sabe da próxima vez a gente não pula essa parte e vai jogar Detetive lá em casa? Pode ser um jogo minimamente mais divertido, meu bem. Mas não, vocês insistem nas suas paixões adolescentes. E enquanto vocês perdem tempo fazendo mil malabarismos emocionais pra não se entregar, a gente tem vontade de apoiar o cotovelo na mesa e abrir a boca, afinal esse teatrinho cheio de clichês é coisa de menino e dá muita preguiça de assistir. Porque, se vocês ainda não perceberam, a gente passou dos dezessete, trabalha e tem duzentas outras preocupações que não incluem ficar decifrando suas mensagens subliminares a vida inteira. Então a gente prefere pegar um filme e ficar em casa, porque pelo menos dá pra entender o início, o meio e o fim, sem ficar boiando na história. Cansamos de esperar o amor de vocês chegar numa sexta-feira à noite, junto com um pouco de equilíbrio e planos pra o futuro. Preferimos abandonar as borboletas no estômago, o frio na barriga e o nervosismo juvenil por caras mais velhos, que sabem o que querem. Eles curtem a calmaria dos domingos, também topam os sábados frenéticos, falam sobre qualquer coisa, conversam com calma, não têm tempo pra joguinhos, fazem planos pra o futuro e tentam, se tudo der certo, te incluir nele. Sem aquela babaquice emocional ou putaria psicológica para menores de idade. E é por isso que quando uma mulher diz “o problema não é você, sou eu”, o único problema que ela tem é querer ao lado dela um cara com o mínimo de maturidade.
Nós dizemos não, vocês dizem sim. Nós dizemos sim, vocês dizem não. Quem sabe da próxima vez a gente não pula essa parte e vai jogar Detetive lá em casa? Pode ser um jogo minimamente mais divertido, meu bem. Mas não, vocês insistem nas suas paixões adolescentes. E enquanto vocês perdem tempo fazendo mil malabarismos emocionais pra não se entregar, a gente tem vontade de apoiar o cotovelo na mesa e abrir a boca, afinal esse teatrinho cheio de clichês é coisa de menino e dá muita preguiça de assistir. Porque, se vocês ainda não perceberam, a gente passou dos dezessete, trabalha e tem duzentas outras preocupações que não incluem ficar decifrando suas mensagens subliminares a vida inteira. Então a gente prefere pegar um filme e ficar em casa, porque pelo menos dá pra entender o início, o meio e o fim, sem ficar boiando na história. Cansamos de esperar o amor de vocês chegar numa sexta-feira à noite, junto com um pouco de equilíbrio e planos pra o futuro. Preferimos abandonar as borboletas no estômago, o frio na barriga e o nervosismo juvenil por caras mais velhos, que sabem o que querem. Eles curtem a calmaria dos domingos, também topam os sábados frenéticos, falam sobre qualquer coisa, conversam com calma, não têm tempo pra joguinhos, fazem planos pra o futuro e tentam, se tudo der certo, te incluir nele. Sem aquela babaquice emocional ou putaria psicológica para menores de idade. E é por isso que quando uma mulher diz “o problema não é você, sou eu”, o único problema que ela tem é querer ao lado dela um cara com o mínimo de maturidade.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
JOGOS E MULHERES
por Maria Rita Angeiras
Calma, nem vem, devagar
deixa eu ir, deixa eu querer
não é loucura, é jeito de ver
Segura, um passo atrás
um segundo, meu espaço
preciso, deixa, isso ou nada
Menos, mais, adivinha, vai
Sem jogos, só os meus, teus
Aceita, sem mas
Liga, desliga, faz isso
É calmo, é perigo, é jogo
mas toca que faz sentido
Calma, nem vem, devagar
deixa eu ir, deixa eu querer
não é loucura, é jeito de ver
Segura, um passo atrás
um segundo, meu espaço
preciso, deixa, isso ou nada
Menos, mais, adivinha, vai
Sem jogos, só os meus, teus
Aceita, sem mas
Liga, desliga, faz isso
É calmo, é perigo, é jogo
mas toca que faz sentido
quarta-feira, 6 de maio de 2009
CORAÇÃO
por Maria Rita Angeiras
Minha lucidez que vá embora
Agora eu não me importo
Se não virar amor, vira poesia
E de poesia eu também gosto
Minha lucidez que vá embora
Agora eu não me importo
Se não virar amor, vira poesia
E de poesia eu também gosto
segunda-feira, 4 de maio de 2009
MAS
por Maria Rita Angeiras
Eu podia ter me apaixonado por você, mas você não é meio confuso, não tem um jeitinho subliminar, não é todo perdido, não vai ferrar a minha cabeça de escritora e não vai me obrigar a ouvir jazz sábado de manhã pra curar a dor do meu coração de espírito livre.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas eu sou enjoada, toda errada, cheia de perguntas difíceis, palavras complexas, respostas prontas, crônicas endereçadas, poesias distraídas e sou meio como o mar, que tem dias de calmaria e dias de muita intensidade.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas eu sempre faço questão de falar das minhas dúvidas, dos meus defeitos de menina mimada e dos meus questionamentos existenciais até perder totalmente o encanto, como a menina do filme, guardando só para os íntimos a doçura, as risadas, o carinho, o cuidado, a atenção, as confissões e o amor que não questiona.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas você cuidaria tão bem de mim que todo mundo odiaria a felicidade estampada no meu sorrisinho de canto de boca, que você levaria pra passear junto com o seu quando eu não estivesse trabalhando, escrevendo, dando risada ou ouvindo The Supremes na cama que abraça.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas eu tenho essa dor no peito quando respiro muito forte, e você merece muito mais do que uma bronquite crônica e sem cura que eu herdei de tantos desamores, de tantas palavras dolorosas e de tantas confissões de travesseiro.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas ultimamente eu sou do tipo que fica no seguro, e agora todo mundo tem que me ganhar nos primeiros sete segundos e depois me ganhar sempre um pouquinho, até eu ser inteira de novo e não mais uma grande cratera vazia que faz eco.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas poderia acabar me apaixonando demais, e depois poderia te querer só pra mim, e um dia você acordaria guardado dentro de uma caixinha, onde eu ia te ensinar a fazer poesia pra gente poder se alimentar só disso.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas comigo existe sempre um mas.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas você não é meio confuso, não tem um jeitinho subliminar, não é todo perdido, não vai ferrar a minha cabeça de escritora e não vai me obrigar a ouvir jazz sábado de manhã pra curar a dor do meu coração de espírito livre.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas eu sou enjoada, toda errada, cheia de perguntas difíceis, palavras complexas, respostas prontas, crônicas endereçadas, poesias distraídas e sou meio como o mar, que tem dias de calmaria e dias de muita intensidade.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas eu sempre faço questão de falar das minhas dúvidas, dos meus defeitos de menina mimada e dos meus questionamentos existenciais até perder totalmente o encanto, como a menina do filme, guardando só para os íntimos a doçura, as risadas, o carinho, o cuidado, a atenção, as confissões e o amor que não questiona.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas você cuidaria tão bem de mim que todo mundo odiaria a felicidade estampada no meu sorrisinho de canto de boca, que você levaria pra passear junto com o seu quando eu não estivesse trabalhando, escrevendo, dando risada ou ouvindo The Supremes na cama que abraça.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas eu tenho essa dor no peito quando respiro muito forte, e você merece muito mais do que uma bronquite crônica e sem cura que eu herdei de tantos desamores, de tantas palavras dolorosas e de tantas confissões de travesseiro.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas ultimamente eu sou do tipo que fica no seguro, e agora todo mundo tem que me ganhar nos primeiros sete segundos e depois me ganhar sempre um pouquinho, até eu ser inteira de novo e não mais uma grande cratera vazia que faz eco.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas poderia acabar me apaixonando demais, e depois poderia te querer só pra mim, e um dia você acordaria guardado dentro de uma caixinha, onde eu ia te ensinar a fazer poesia pra gente poder se alimentar só disso.
Eu podia ter me apaixonado por você, mas comigo existe sempre um mas.
terça-feira, 28 de abril de 2009
ELES
por Maria Rita Angeiras
Têm a malícia, a malandragem, o jeitinho sem querer de pisar na bola, como criança quando quebra um vaso, só pra ver se parte mesmo. E nós partimos, partimos mesmo. Em duzentos pedaços, colados, trincados, suados, recolocados. Amamos beijos, abraços, promessas. Promete o mundo que prometo acreditar, meu bem, minha casa, meu nada. Abre os braços, a vida, o caos, o lapso, vai que eu abraço. Minto eu, mentes tu, mas mentimos juntos. Mente pra mim. Minto pra mim também. Juro. Amamos ser enganadas, letradas na arte de amar, erradas. Apostamos alto, sempre. No bicho, no pôquer, na loteria, no amor. Uma chance em um milhão. Vai que acertamos. Apostamos hoje, amanhã e depois, mesmo com o vaso sem um pedaço. Ou dois, ou três ou quatro. Amamos com fé, com alma, mas sem corpo fechado. Mutilado, cansado, sofrido, estendido no chão depois de morrer de vocês. Somos as outras. As outras, das outras das outras, até vocês fecharem o círculo passando por todas, com o nosso amor espalhado em bocas, com nossa dor zombada por outras. Mas abraça, beija, pede desculpa e faz graça. Em troca reclamo, te amo, te chamo. E, mais uma vez, faço do meu coração tua casa.
Têm a malícia, a malandragem, o jeitinho sem querer de pisar na bola, como criança quando quebra um vaso, só pra ver se parte mesmo. E nós partimos, partimos mesmo. Em duzentos pedaços, colados, trincados, suados, recolocados. Amamos beijos, abraços, promessas. Promete o mundo que prometo acreditar, meu bem, minha casa, meu nada. Abre os braços, a vida, o caos, o lapso, vai que eu abraço. Minto eu, mentes tu, mas mentimos juntos. Mente pra mim. Minto pra mim também. Juro. Amamos ser enganadas, letradas na arte de amar, erradas. Apostamos alto, sempre. No bicho, no pôquer, na loteria, no amor. Uma chance em um milhão. Vai que acertamos. Apostamos hoje, amanhã e depois, mesmo com o vaso sem um pedaço. Ou dois, ou três ou quatro. Amamos com fé, com alma, mas sem corpo fechado. Mutilado, cansado, sofrido, estendido no chão depois de morrer de vocês. Somos as outras. As outras, das outras das outras, até vocês fecharem o círculo passando por todas, com o nosso amor espalhado em bocas, com nossa dor zombada por outras. Mas abraça, beija, pede desculpa e faz graça. Em troca reclamo, te amo, te chamo. E, mais uma vez, faço do meu coração tua casa.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
SILÊNCIO
por Maria Rita Angeiras
O segredo do seu abraço
Não são os braços em si
Mas quanto demoram a soltar
Sufocando na gola da camisa
A tristeza que ela nunca vai contar
Porque o segredo do seu abraço
Não são os braços em si
Mas o que eles dispensam falar
O segredo do seu abraço
Não são os braços em si
Mas quanto demoram a soltar
Sufocando na gola da camisa
A tristeza que ela nunca vai contar
Porque o segredo do seu abraço
Não são os braços em si
Mas o que eles dispensam falar
quarta-feira, 22 de abril de 2009
O que tem no lado seguro?
por Maria Rita Angeiras
Tem catorze páginas a menos de diversão contadas num domingo para duas amigas, no meio de risadas homéricas e dez doses de arrependimento, devidamente acompanhadas de dez doses de tequila, uma pra cada besteira que vai te fazer rir sozinha numa segunda-feira às seis da tarde, na frente do computador, enquanto metade das pessoas à sua volta te diagnosticam como esquizofrênica, só porque aprenderam essa palavra na novela. Tem diversão dispensada por motivos estúpidos, como a necessidade urgente de você passar alguns dias se auto-conhecendo melhor, dentro do pijama que você nunca usa quando tem visita, porque ele abraça o corpo, tem umas bolinhas brancas cheias de personalidade e é tão molinho e confortável que no dia seguinte já acorda fora de você, pronto pra voltar pro esconderijo no armário. Tem encontro no bar com os amigos que te amam de pijaminha no boteco, porque você não anda muito a fim de fazer amizade com gente linda, simpática, sorridente e super bem resolvida, porque o seu armário sempre resolve receber essa gente linda, simpática, sorridente e super bem resolvida com uma calça jeans, uma camiseta branca e um tênis velho. Tem você fazendo abdominal e indo correr no parque pra ficar com o seu corpinho devidamente guardado dentro de casa. Tem você tomando sorvete pra sabotar esse mesmo corpinho que sofreu pra correr e fazer abdominal. Tem você suicidando sua vida amorosa e social em programas lights com um amigo bonito, legal e inteligente, mas com quem você jamais escorregaria, afinal, você sempre escolhe os estranhos, confusos e complicados que querem abraçar o mundo inteiro e não só você. Aí depois de tudo isso, obviamente, você fica na dúvida sobre o que é melhor: sair do seguro e viver uma vida louca ou ficar no seguro e enlouquecer de vez.
Tem catorze páginas a menos de diversão contadas num domingo para duas amigas, no meio de risadas homéricas e dez doses de arrependimento, devidamente acompanhadas de dez doses de tequila, uma pra cada besteira que vai te fazer rir sozinha numa segunda-feira às seis da tarde, na frente do computador, enquanto metade das pessoas à sua volta te diagnosticam como esquizofrênica, só porque aprenderam essa palavra na novela. Tem diversão dispensada por motivos estúpidos, como a necessidade urgente de você passar alguns dias se auto-conhecendo melhor, dentro do pijama que você nunca usa quando tem visita, porque ele abraça o corpo, tem umas bolinhas brancas cheias de personalidade e é tão molinho e confortável que no dia seguinte já acorda fora de você, pronto pra voltar pro esconderijo no armário. Tem encontro no bar com os amigos que te amam de pijaminha no boteco, porque você não anda muito a fim de fazer amizade com gente linda, simpática, sorridente e super bem resolvida, porque o seu armário sempre resolve receber essa gente linda, simpática, sorridente e super bem resolvida com uma calça jeans, uma camiseta branca e um tênis velho. Tem você fazendo abdominal e indo correr no parque pra ficar com o seu corpinho devidamente guardado dentro de casa. Tem você tomando sorvete pra sabotar esse mesmo corpinho que sofreu pra correr e fazer abdominal. Tem você suicidando sua vida amorosa e social em programas lights com um amigo bonito, legal e inteligente, mas com quem você jamais escorregaria, afinal, você sempre escolhe os estranhos, confusos e complicados que querem abraçar o mundo inteiro e não só você. Aí depois de tudo isso, obviamente, você fica na dúvida sobre o que é melhor: sair do seguro e viver uma vida louca ou ficar no seguro e enlouquecer de vez.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
BAÚ
por Maria Rita Angeiras
O seu tão chorado fim
Deu cabo à minha poesia
E ao lado do seu retrato,
Repousa uma página vazia.
E agora faço graça
Ou mostro todo meu despeito
Quando alguém fala de amor
Com a mão apertando o peito
E nesse demorado desfecho
Deitada sobre os meus restos
Lamento ter ficado com o buraco
E você, com meus versos.
O seu tão chorado fim
Deu cabo à minha poesia
E ao lado do seu retrato,
Repousa uma página vazia.
E agora faço graça
Ou mostro todo meu despeito
Quando alguém fala de amor
Com a mão apertando o peito
E nesse demorado desfecho
Deitada sobre os meus restos
Lamento ter ficado com o buraco
E você, com meus versos.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
SEÇÃO: GOTAS DE SABEDORIA
por Maria Rita Angeiras
Agora evito falar de amor.
Ele não tá aqui pra se defender.
Agora evito falar de amor.
Ele não tá aqui pra se defender.
terça-feira, 7 de abril de 2009
NEM
por Maria Rita Angeiras
A madrugada sou eu sem sono
Fazendo poesia no escuro
Tentando achar alguma resposta
Para as perguntas que não faço
Então escolho o seguro
Porque a única vontade agora
É tomar o rumo de casa
A madrugada sou eu sem sono
Fazendo poesia no escuro
Tentando achar alguma resposta
Para as perguntas que não faço
Então escolho o seguro
Porque a única vontade agora
É tomar o rumo de casa
segunda-feira, 6 de abril de 2009
DEUS OUVE JAZZ
por Maria Rita Angeiras
Outro dia saí da agência no meio da tarde e fui no banco. Quando estou quase entrando na agência, o manobrista começa a cantar “Você não sabe o que é amor, você não sabe o que é amar”, embalada numa melodia meio brega. Cantou o refrão e parou, então continuei andando normalmente. Saí do banco por uma rua, passei no posto pra tomar um café, e acabei voltando pela mesma rua que tinha ido. Quando passo na frente do banco, ele solta novamente: “Você não sabe o que é amor, você não sabe o que é amar”. Como não podia ser uma cantada, eu fiquei pensando se seria uma mensagem, se aquele homem cantando por acaso o mesmo refrão duas vezes na exata hora em que eu passo seria alguma mensagem divina pra eu deixar de ser essa coisa radical que ou ama demais ou não ama ninguém. Fiquei com aquilo na minha cabeça por um bom tempo, e até evitei passar por aquela rua alguns dias, com medo do senhor manobrista e conselheiro do Itaú do Jardim Europa inventar de dizer que eu não sei amar. Droga, moço, isso eu já sei, minha mãe já sabe, meus amigos já sabem e todo mundo que lê minha terapia de letrinha também já sabe. Que tal alguma novidade? Também já revi a cena trezentas vezes e me perguntei porque não parei na frente dele e pedi ele pra continuar a música, porque assim pelo menos eu ia saber a história toda ou como ela acaba. Não consegui. Continuei andando apressada com o Toddynho na mão, me sentindo decifrada por um estranho que manobra carros e tem péssimo gosto musical. Então hoje, depois de passar na mesma rua e relembrar a história, decidi dar um Google na letra da música. O refrão inteiro é assim:
Me dediquei somente pra você
Tudo que eu podia eu tentei fazer
Mas nada, não adiantou
Você não sabe o que é amor
Você não sabe o que e amar
Acha que é somente ficar, ficar, ficar
O que rolar, rolou
Eu só consegui dar risada na frente do computador. E por dois motivos. Primeiro, porque ele se enganou feio comigo. Segundo, porque eu tenho certeza de que, se Deus realmente existe, ele jamais mandaria uma mensagem divina numa letra do Aviões do Forró.
Outro dia saí da agência no meio da tarde e fui no banco. Quando estou quase entrando na agência, o manobrista começa a cantar “Você não sabe o que é amor, você não sabe o que é amar”, embalada numa melodia meio brega. Cantou o refrão e parou, então continuei andando normalmente. Saí do banco por uma rua, passei no posto pra tomar um café, e acabei voltando pela mesma rua que tinha ido. Quando passo na frente do banco, ele solta novamente: “Você não sabe o que é amor, você não sabe o que é amar”. Como não podia ser uma cantada, eu fiquei pensando se seria uma mensagem, se aquele homem cantando por acaso o mesmo refrão duas vezes na exata hora em que eu passo seria alguma mensagem divina pra eu deixar de ser essa coisa radical que ou ama demais ou não ama ninguém. Fiquei com aquilo na minha cabeça por um bom tempo, e até evitei passar por aquela rua alguns dias, com medo do senhor manobrista e conselheiro do Itaú do Jardim Europa inventar de dizer que eu não sei amar. Droga, moço, isso eu já sei, minha mãe já sabe, meus amigos já sabem e todo mundo que lê minha terapia de letrinha também já sabe. Que tal alguma novidade? Também já revi a cena trezentas vezes e me perguntei porque não parei na frente dele e pedi ele pra continuar a música, porque assim pelo menos eu ia saber a história toda ou como ela acaba. Não consegui. Continuei andando apressada com o Toddynho na mão, me sentindo decifrada por um estranho que manobra carros e tem péssimo gosto musical. Então hoje, depois de passar na mesma rua e relembrar a história, decidi dar um Google na letra da música. O refrão inteiro é assim:
Me dediquei somente pra você
Tudo que eu podia eu tentei fazer
Mas nada, não adiantou
Você não sabe o que é amor
Você não sabe o que e amar
Acha que é somente ficar, ficar, ficar
O que rolar, rolou
Eu só consegui dar risada na frente do computador. E por dois motivos. Primeiro, porque ele se enganou feio comigo. Segundo, porque eu tenho certeza de que, se Deus realmente existe, ele jamais mandaria uma mensagem divina numa letra do Aviões do Forró.
domingo, 5 de abril de 2009
DOMINGO
por Maria Rita Angeiras
Você fez minha manhã feliz
Sem mágica, com malabares
Errando, acertando
Mas sem perder a calma
E te imaginei fazendo graça
Atrás de um balcão de bar
Meio triste, desanimado
Porque bêbado não bate palma
Você fez minha manhã feliz
Sem mágica, com malabares
Errando, acertando
Mas sem perder a calma
E te imaginei fazendo graça
Atrás de um balcão de bar
Meio triste, desanimado
Porque bêbado não bate palma
quinta-feira, 2 de abril de 2009
NO MEIO DE TANTA GENTE CHATA
por Maria Rita Angeiras
Te encontrar mexe comigo. Não porque te queria pra mim, não é isso, até porque nunca olhei pra você de outro jeito, mas porque você me lembra de todos os caras que conheci e que podiam ser incríveis como você e não são. Todos têm uma simpatia vulgar, em comparação com seu jeitinho adorável de ser doce com alguns e arrogantemente ácido com a maioria. Você, como poucos, é uma pessoa a se descobrir, sem aquela primeira impressão que quase nunca se modifica depois que a gente conhece alguém. Você é homem sem ser mal-educado e gentil sem ser bobo. Fala sobre qualquer coisa com a desenvoltura de um especialista, apesar de ter aprendido tudo com a vida, e percorre suas frases feitas com um risinho cretino super simpático, acompanhado de uma feição tímida, mas primordialmente canalha. É escolado na arte de ser na medida certa em tudo, como se tivesse estudado qualquer passo, mas faz isso com uma naturalidade humilhante em qualquer ambiente em que está. Você sabe o que quer da vida e tem uma segurança que me faz sentir perdida e adolescente do seu lado. É, eu sou uma adolescente do seu lado, e tenho certeza que não consigo disfarçar que me concentro só pra não perder nenhum detalhe dos absurdos hiper fantásticos que você me fala. Você não é o homem mais bonito que eu conheço, não é o mais inteligente, o mais esperto, o mais educado, nem o mais charmoso, mas consegue cumprir todos esses quesitos sem ser mediano. É dolorosamente sincero, e eu sempre me preparo pra te ver desfazer meu castelo de areia em dois segundos. E sabe rir das suas fraquezas, tornando seus defeitos meros espectadores das suas qualidades irreparáveis. E também me faz rir alto feito criança, até quando tá longe, e já dedicou parte do seu tempo precioso a me tirar do fundo do meu pocinho existencial e dos meus medos de menina. E você tem um jeitinho meio exclusivo de ser e eu fico toda feliz sempre que você arranja tempo pra mim. Mas depois de te encontrar sempre começo a olhar os homens na rua de outra maneira. E nessa hora eu chego à conclusão de que todos podiam ser incríveis como você e não são.
Te encontrar mexe comigo. Não porque te queria pra mim, não é isso, até porque nunca olhei pra você de outro jeito, mas porque você me lembra de todos os caras que conheci e que podiam ser incríveis como você e não são. Todos têm uma simpatia vulgar, em comparação com seu jeitinho adorável de ser doce com alguns e arrogantemente ácido com a maioria. Você, como poucos, é uma pessoa a se descobrir, sem aquela primeira impressão que quase nunca se modifica depois que a gente conhece alguém. Você é homem sem ser mal-educado e gentil sem ser bobo. Fala sobre qualquer coisa com a desenvoltura de um especialista, apesar de ter aprendido tudo com a vida, e percorre suas frases feitas com um risinho cretino super simpático, acompanhado de uma feição tímida, mas primordialmente canalha. É escolado na arte de ser na medida certa em tudo, como se tivesse estudado qualquer passo, mas faz isso com uma naturalidade humilhante em qualquer ambiente em que está. Você sabe o que quer da vida e tem uma segurança que me faz sentir perdida e adolescente do seu lado. É, eu sou uma adolescente do seu lado, e tenho certeza que não consigo disfarçar que me concentro só pra não perder nenhum detalhe dos absurdos hiper fantásticos que você me fala. Você não é o homem mais bonito que eu conheço, não é o mais inteligente, o mais esperto, o mais educado, nem o mais charmoso, mas consegue cumprir todos esses quesitos sem ser mediano. É dolorosamente sincero, e eu sempre me preparo pra te ver desfazer meu castelo de areia em dois segundos. E sabe rir das suas fraquezas, tornando seus defeitos meros espectadores das suas qualidades irreparáveis. E também me faz rir alto feito criança, até quando tá longe, e já dedicou parte do seu tempo precioso a me tirar do fundo do meu pocinho existencial e dos meus medos de menina. E você tem um jeitinho meio exclusivo de ser e eu fico toda feliz sempre que você arranja tempo pra mim. Mas depois de te encontrar sempre começo a olhar os homens na rua de outra maneira. E nessa hora eu chego à conclusão de que todos podiam ser incríveis como você e não são.
terça-feira, 31 de março de 2009
VAI LOGO
por Maria Rita Angeiras
Te peço que não me ame
Também não queria te amar
Por descobrir que você, meu bem
Não vale isso de chorar
Então aqui vai um pedido
Pra você fazer uma bobagem
Uma estupidez sem conserto
Um erro sem volta
Uma palavra torta
Só pra eu virar a cara
Mudar de calçada
Me fazer de morta
E bater minha porta
Nessa sua cara
Que meu coração adora
E insiste em lembrar
Mas uma hora isso muda
E eu finalmente cresço
Até viro do avesso
E brinco de te esqueço
Porque vai chegar o dia
Em que vou falar sério
Sem essa de brincar
Te peço que não me ame
Também não queria te amar
Por descobrir que você, meu bem
Não vale isso de chorar
Então aqui vai um pedido
Pra você fazer uma bobagem
Uma estupidez sem conserto
Um erro sem volta
Uma palavra torta
Só pra eu virar a cara
Mudar de calçada
Me fazer de morta
E bater minha porta
Nessa sua cara
Que meu coração adora
E insiste em lembrar
Mas uma hora isso muda
E eu finalmente cresço
Até viro do avesso
E brinco de te esqueço
Porque vai chegar o dia
Em que vou falar sério
Sem essa de brincar
quarta-feira, 25 de março de 2009
ESQUEÇA
por Maria Rita Angeiras
Ele me faz companhia na sexta-feira à noite e, quando já estou quase distraída, solta o clássico “ele não pensa em querer-te”, frase construída de um jeito tão doce que parece até um carinho e não um tapa, como de fato é. Então, minhas caras, desculpem dilacerar seus pequenos corações apaixonados, mas está na hora de admitir que ele, de fato, não pensa em querer-te. Não pensa em querer-te naquele vestidinho matador, de salto alto, e cabelo arrumado, meio famme fatale, desejando que ele te escolha, enquanto dezenas de homens que você ignora te vêem passar toda linda e perfumada. Não pensa em querer-te de sandália baixa, short jeans e camiseta branca, daquele jeitinho meio desleixado, implorando pra ele te amar até naquelas horas em que você tá pouco se lixando pra o circuito Paris-Tóquio-Milão. Não pensa em querer-te nas virgulas e reticências de cada frase que você diz, mostrando todas as tentativas que deveriam ser derradeiras e não foram, porque você sempre insiste em tentar mais uma vez. Não pensa em querer-te nas coisas que você diz e não diz, tentando soar meio misteriosa, querendo que ele deseje saber o que pensa uma mulher, digamos assim, tão subliminar. Não pensa em querer-te quando está sozinho, num domingo à noite, jogado no sofá de casa, assistindo um filme que não é de amor, como o seu. Não pensa em querer-te quando está na melhor festa da cidade, ignorando a hora em que você chegou, a hora em que foi embora e a hora em que seu braço foi puxado por outros dez homens, enquanto seu ombro empurrava as pessoas e as primeiras lágrimas manchavam seu rosto de rimel preto. Não pensa em querer-te quando você, por raiva, aceita todos os homens que puxaram seu braço e morre em cada um deles. Não pensa em querer-te mesmo depois daquelas piscadinhas ordinárias e frases bobas que você revê mil vezes na cabeça durante a semana, achando que ele te amou naquele detalhe. Não pensa em querer-te andando feito uma louca, falando feito uma louca e agindo feito uma louca, último sintoma do amor quando não cabe mais no corpo. Não pensa em querer-te, meu bem, por mais que você queira muito, por mais que seu amor valha por dois. E se não confia em mim, pelo menos dê algum crédito para o nosso Roberto.
Ele me faz companhia na sexta-feira à noite e, quando já estou quase distraída, solta o clássico “ele não pensa em querer-te”, frase construída de um jeito tão doce que parece até um carinho e não um tapa, como de fato é. Então, minhas caras, desculpem dilacerar seus pequenos corações apaixonados, mas está na hora de admitir que ele, de fato, não pensa em querer-te. Não pensa em querer-te naquele vestidinho matador, de salto alto, e cabelo arrumado, meio famme fatale, desejando que ele te escolha, enquanto dezenas de homens que você ignora te vêem passar toda linda e perfumada. Não pensa em querer-te de sandália baixa, short jeans e camiseta branca, daquele jeitinho meio desleixado, implorando pra ele te amar até naquelas horas em que você tá pouco se lixando pra o circuito Paris-Tóquio-Milão. Não pensa em querer-te nas virgulas e reticências de cada frase que você diz, mostrando todas as tentativas que deveriam ser derradeiras e não foram, porque você sempre insiste em tentar mais uma vez. Não pensa em querer-te nas coisas que você diz e não diz, tentando soar meio misteriosa, querendo que ele deseje saber o que pensa uma mulher, digamos assim, tão subliminar. Não pensa em querer-te quando está sozinho, num domingo à noite, jogado no sofá de casa, assistindo um filme que não é de amor, como o seu. Não pensa em querer-te quando está na melhor festa da cidade, ignorando a hora em que você chegou, a hora em que foi embora e a hora em que seu braço foi puxado por outros dez homens, enquanto seu ombro empurrava as pessoas e as primeiras lágrimas manchavam seu rosto de rimel preto. Não pensa em querer-te quando você, por raiva, aceita todos os homens que puxaram seu braço e morre em cada um deles. Não pensa em querer-te mesmo depois daquelas piscadinhas ordinárias e frases bobas que você revê mil vezes na cabeça durante a semana, achando que ele te amou naquele detalhe. Não pensa em querer-te andando feito uma louca, falando feito uma louca e agindo feito uma louca, último sintoma do amor quando não cabe mais no corpo. Não pensa em querer-te, meu bem, por mais que você queira muito, por mais que seu amor valha por dois. E se não confia em mim, pelo menos dê algum crédito para o nosso Roberto.
terça-feira, 24 de março de 2009
AS FEIRAS, O SANTO E A FESTA
por Maria Rita Angeiras
O cansaço do corpo é imenso, jogado na cama com a janela aberta pra não perder a hora de manhã, com o celular sem bateria e sem carregador, perdido por aí em qualquer tomada. O travesseiro que voa do rosto e cai na mesinha de cabeceira, derrubando no chão a água e o Santo Antônio recebido de presente, que apesar de todo preguiçoso e enrolado no quesito amoroso, é de ferro e não quebra. O barulho acorda de madrugada e eu só consigo salvar a água, deixando Santo Antônio pra de manhã cedo, já que ele também só me deixa pra depois, achando que meu peito sofrido agüenta o tranco, que nem ele ao cair no chão, mesmo sendo meio de barro, meio de argila, meio de algum material que desconheço, mas de certo com o coração feito de pedra, pra não me trazer um bom moço depois de me ver fazer tanta confissão de travesseiro e de ouvir jazz de manhã. E o corpo levanta e dói, acusando todas as dores que eu acumulo da sua falta, e ando dois metros e volto pra cama, com a cabeça girando em cima do relógio de tic-tac ensurdecedor, que dita o ritmo da minha vida inteira. Então levanto de novo, xingando metade do universo e jurando fazer picadinho de quem inventou as feiras da semana, caindo no sofá mais próximo e também único, tão gelado que crio coragem de ir pra debaixo do chuveiro, chorar minhas pitangas e pepinos da primeira feira depois do domingo, que foi tão bom e passou em câmera lenta. E essa segunda promete salvar minha alma, depois da terça, da quarta, da quinta e da sexta tentativa, até eu ser muito feliz de novo no sábado de manhã. E o almoço dura horas e eu prometo descansar ali, com aquele cheiro bom de café e climinha parisiense, prometendo em algum momento voltar pra casa e virar gente grande com responsabilidade. Então deito na cama, janto o melhor sorvete do mundo e fico morrendo de medo do filme de terror, enquanto minha mão alcança o Santo Antônio e pede pro bendito me ajudar a dormir, já que no resto eu mesma tenho que me virar.
O cansaço do corpo é imenso, jogado na cama com a janela aberta pra não perder a hora de manhã, com o celular sem bateria e sem carregador, perdido por aí em qualquer tomada. O travesseiro que voa do rosto e cai na mesinha de cabeceira, derrubando no chão a água e o Santo Antônio recebido de presente, que apesar de todo preguiçoso e enrolado no quesito amoroso, é de ferro e não quebra. O barulho acorda de madrugada e eu só consigo salvar a água, deixando Santo Antônio pra de manhã cedo, já que ele também só me deixa pra depois, achando que meu peito sofrido agüenta o tranco, que nem ele ao cair no chão, mesmo sendo meio de barro, meio de argila, meio de algum material que desconheço, mas de certo com o coração feito de pedra, pra não me trazer um bom moço depois de me ver fazer tanta confissão de travesseiro e de ouvir jazz de manhã. E o corpo levanta e dói, acusando todas as dores que eu acumulo da sua falta, e ando dois metros e volto pra cama, com a cabeça girando em cima do relógio de tic-tac ensurdecedor, que dita o ritmo da minha vida inteira. Então levanto de novo, xingando metade do universo e jurando fazer picadinho de quem inventou as feiras da semana, caindo no sofá mais próximo e também único, tão gelado que crio coragem de ir pra debaixo do chuveiro, chorar minhas pitangas e pepinos da primeira feira depois do domingo, que foi tão bom e passou em câmera lenta. E essa segunda promete salvar minha alma, depois da terça, da quarta, da quinta e da sexta tentativa, até eu ser muito feliz de novo no sábado de manhã. E o almoço dura horas e eu prometo descansar ali, com aquele cheiro bom de café e climinha parisiense, prometendo em algum momento voltar pra casa e virar gente grande com responsabilidade. Então deito na cama, janto o melhor sorvete do mundo e fico morrendo de medo do filme de terror, enquanto minha mão alcança o Santo Antônio e pede pro bendito me ajudar a dormir, já que no resto eu mesma tenho que me virar.
quarta-feira, 18 de março de 2009
CULPA
por Maria Rita Angeiras
Despi essa fantasia
de eu te amo
E agora escrevo curto
sem rima
Pra mostrar meu não-amor
que eu amei
Só pra me esconder em você
dos outros
Com minha tolice estampada
no rosto
Pedindo perdão por escrever
apaixonada
Pelo homem que você adoraria ser
mas não é
Despi essa fantasia
de eu te amo
E agora escrevo curto
sem rima
Pra mostrar meu não-amor
que eu amei
Só pra me esconder em você
dos outros
Com minha tolice estampada
no rosto
Pedindo perdão por escrever
apaixonada
Pelo homem que você adoraria ser
mas não é
DIA INTERNACIONAL DAS LAVADORAS DE CUECAS
por Maria Rita Angeiras
Ainda é terça-feira e eu já estou indignada. Pois é, enlouqueci quando li a seguinte manchete na Folha de São Paulo: “Máquina de lavar fez mais pela mulher do que a pílula, diz Vaticano”. Nem ia me pronunciar sobre o Dia Internacional da Mulher, porque acho que no final das contas os discursos acabam soando piegas, auto-elogiosos e mascaradamente machistas. O titulo do artigo do Vaticano: "A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe". Vamos discutir os avanços da mulher no mercado de trabalho, vamos discutir o direito ao aborto, vamos discutir a liberdade conquistada na Revolução Sexual, vamos discutir os novos cargos religiosos atribuídos a elas, enfim, deu pra perceber que a lista é longa e cheia de pontos realmente relevantes ao sexo feminino, mas deixar tudo isso de lado e dissertar sobre a importância da máquina de lavar na vida de todas nós é um insulto, porque deixa de lado tudo isso e, mais uma vez, nos resume a meras lavadoras de cuecas dos maridos. E o jornal ainda aponta que “o texto conta a história da máquina de lavar, desde um modelo rudimentar de 1767 na Alemanha, até os modernos equipamentos com os quais a mulher pode tomar um capuccino com as amigas enquanto a roupa é lavada”. O Vaticano tinha tanto pra dizer, mas escolheu falar da máquina de lavar e, pior, em detrimento à invenção da pílula. Feministas como a escritora francesa Christine de Pizan, autora do livro “A Cidade das Mulheres”, que defendia a educação igualitária entre meninos e meninas, devem estar se revirando no túmulo, preferindo ser enterradas novamente numa vala de indigente do que num cemitério comum, abençoado pelos valores machistas da igreja católica. Então eu quero saber: depois de você passar o dia 8 de março lendo arquivos poéticos com textos melosos em power point, o que você pensa sobre isso? Porque hoje, dois dias depois da data oficial, eu proponho que você pense nas primeiras mulheres que batalharam para estudar, superar os obstáculos, vencer os preconceitos e entrar no mercado de trabalho. Mulheres que deram a você o direito de ser quem você é hoje. Então você pode ter uma opinião sobre isso ou pode, como bem sugeriu o Vaticano, “pôr o detergente, fechar a tampa e relaxar”.
Ainda é terça-feira e eu já estou indignada. Pois é, enlouqueci quando li a seguinte manchete na Folha de São Paulo: “Máquina de lavar fez mais pela mulher do que a pílula, diz Vaticano”. Nem ia me pronunciar sobre o Dia Internacional da Mulher, porque acho que no final das contas os discursos acabam soando piegas, auto-elogiosos e mascaradamente machistas. O titulo do artigo do Vaticano: "A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe". Vamos discutir os avanços da mulher no mercado de trabalho, vamos discutir o direito ao aborto, vamos discutir a liberdade conquistada na Revolução Sexual, vamos discutir os novos cargos religiosos atribuídos a elas, enfim, deu pra perceber que a lista é longa e cheia de pontos realmente relevantes ao sexo feminino, mas deixar tudo isso de lado e dissertar sobre a importância da máquina de lavar na vida de todas nós é um insulto, porque deixa de lado tudo isso e, mais uma vez, nos resume a meras lavadoras de cuecas dos maridos. E o jornal ainda aponta que “o texto conta a história da máquina de lavar, desde um modelo rudimentar de 1767 na Alemanha, até os modernos equipamentos com os quais a mulher pode tomar um capuccino com as amigas enquanto a roupa é lavada”. O Vaticano tinha tanto pra dizer, mas escolheu falar da máquina de lavar e, pior, em detrimento à invenção da pílula. Feministas como a escritora francesa Christine de Pizan, autora do livro “A Cidade das Mulheres”, que defendia a educação igualitária entre meninos e meninas, devem estar se revirando no túmulo, preferindo ser enterradas novamente numa vala de indigente do que num cemitério comum, abençoado pelos valores machistas da igreja católica. Então eu quero saber: depois de você passar o dia 8 de março lendo arquivos poéticos com textos melosos em power point, o que você pensa sobre isso? Porque hoje, dois dias depois da data oficial, eu proponho que você pense nas primeiras mulheres que batalharam para estudar, superar os obstáculos, vencer os preconceitos e entrar no mercado de trabalho. Mulheres que deram a você o direito de ser quem você é hoje. Então você pode ter uma opinião sobre isso ou pode, como bem sugeriu o Vaticano, “pôr o detergente, fechar a tampa e relaxar”.
segunda-feira, 16 de março de 2009
MEU MAL
por Maria Rita Angeiras
Eu e minha bronquite que não cura
No meu peito que sempre dói
Acusando toda sua culpa
Por fazer tão mal uso dele
Agora só escreve linhas curtas
Pra falar de mim e de tu
E de como somos abençoados
Por nunca termos sido dois
Nesse meu peito que não agüenta
Essas maldades que você me diz
E essas crueldades que eu te devolvo
Só pra te machucar um pouco
Quando te descubro por perto
Porque ao lado do meu peito que dói
Tem um coração que pula
Às vezes, quando te vê, que bobo
Eu e minha bronquite que não cura
No meu peito que sempre dói
Acusando toda sua culpa
Por fazer tão mal uso dele
Agora só escreve linhas curtas
Pra falar de mim e de tu
E de como somos abençoados
Por nunca termos sido dois
Nesse meu peito que não agüenta
Essas maldades que você me diz
E essas crueldades que eu te devolvo
Só pra te machucar um pouco
Quando te descubro por perto
Porque ao lado do meu peito que dói
Tem um coração que pula
Às vezes, quando te vê, que bobo
DOIS MENOS DOIS
por Maria Rita Angeiras
Teu jeito abusado de me invadir
Sem por favor e sem licença
Se abriga no meu lado que te esconde
do meu lado que não te quer
E eu afogo nós dois no meu soluço
Pra ver se mato o resto dessa dor
Que sobrou em algum lugar
E que a gente não sabe onde fica
Porque cansei de ser bicho enjaulado
Preso no seu jeito de não dizer
As coisas que também não sente
Porque a gente é passado e ainda não sabe
Teu jeito abusado de me invadir
Sem por favor e sem licença
Se abriga no meu lado que te esconde
do meu lado que não te quer
E eu afogo nós dois no meu soluço
Pra ver se mato o resto dessa dor
Que sobrou em algum lugar
E que a gente não sabe onde fica
Porque cansei de ser bicho enjaulado
Preso no seu jeito de não dizer
As coisas que também não sente
Porque a gente é passado e ainda não sabe
terça-feira, 10 de março de 2009
AQUELE TIPINHO IRRESISTÍVEL
por Maria Rita Angeiras
Às vezes você tem certeza que aquele cara com sorrisinho bobo e jeitinho de “cuida de mim” vai acabar com a sua tranqüilidade e um belo dia vai te deixar aos pedaços no meio da rua, mas você respira fundo e segue em frente. Porque não existe racionalidade que resista a esse tipinho irresistível de homem. Então um filme passa rapidamente na sua cabeça e você já imagina tudo que vai acontecer: o começo intenso, os momentos perfeitos, os olhares passionais, o ciúme avassalador e a hora em que ele simplesmente vira as costas e te abandona naturalmente, dando aquela viradinha malandra e te mandando um beijo lá da esquina. E você fica lá, meio triste, mas também meio conformada, porque sabe que esse tipo de homem passa pela sua vida rapidamente, como uma piscada, porque precisa se alimentar da paixão fulminante de centenas de mulheres ao longo do caminho, num impulso insaciável de bicho que respira últimos suspiros e sobrevive de amar aos pedaços. E são os únicos homens perdoáveis e nós nunca deixamos de amá-los ou de lembrá-los com carinho, porque carregam com si uma certa inocência infantil que temos necessidade de consolar com abraços maternos e olhares compreensivos. E nunca desejamos mal a eles de verdade, porque quando um homem desses morre, pelo menos umas duzentas mulheres morrem junto. É quase uma sociedade secreta onde tudo acontece, mas nada se diz, apenas se aceita, talvez para não quebrar a poesia abafada. E carregamos nossos falsos-amores como troféus pela dor que suportamos toda vez que eles vão embora levando uma parte do nosso choro no ombro da camisa, porque aqueles homens não são e nunca serão de ninguém. E nós ficamos lá, paradas no meio da rua, como frágeis bonecas de porcelana, completamente ocas por dentro, imaginando a próxima que vai ter a sorte de se esconder naquele abraço. E eles seguem em frente, vivendo desse quase-amor distribuído sem culpa, invejado por todos os outros homens que nunca conseguirão ser amados com tanta urgência, por tantas mulheres e em tão pouco tempo.
Às vezes você tem certeza que aquele cara com sorrisinho bobo e jeitinho de “cuida de mim” vai acabar com a sua tranqüilidade e um belo dia vai te deixar aos pedaços no meio da rua, mas você respira fundo e segue em frente. Porque não existe racionalidade que resista a esse tipinho irresistível de homem. Então um filme passa rapidamente na sua cabeça e você já imagina tudo que vai acontecer: o começo intenso, os momentos perfeitos, os olhares passionais, o ciúme avassalador e a hora em que ele simplesmente vira as costas e te abandona naturalmente, dando aquela viradinha malandra e te mandando um beijo lá da esquina. E você fica lá, meio triste, mas também meio conformada, porque sabe que esse tipo de homem passa pela sua vida rapidamente, como uma piscada, porque precisa se alimentar da paixão fulminante de centenas de mulheres ao longo do caminho, num impulso insaciável de bicho que respira últimos suspiros e sobrevive de amar aos pedaços. E são os únicos homens perdoáveis e nós nunca deixamos de amá-los ou de lembrá-los com carinho, porque carregam com si uma certa inocência infantil que temos necessidade de consolar com abraços maternos e olhares compreensivos. E nunca desejamos mal a eles de verdade, porque quando um homem desses morre, pelo menos umas duzentas mulheres morrem junto. É quase uma sociedade secreta onde tudo acontece, mas nada se diz, apenas se aceita, talvez para não quebrar a poesia abafada. E carregamos nossos falsos-amores como troféus pela dor que suportamos toda vez que eles vão embora levando uma parte do nosso choro no ombro da camisa, porque aqueles homens não são e nunca serão de ninguém. E nós ficamos lá, paradas no meio da rua, como frágeis bonecas de porcelana, completamente ocas por dentro, imaginando a próxima que vai ter a sorte de se esconder naquele abraço. E eles seguem em frente, vivendo desse quase-amor distribuído sem culpa, invejado por todos os outros homens que nunca conseguirão ser amados com tanta urgência, por tantas mulheres e em tão pouco tempo.
quarta-feira, 4 de março de 2009
CONFISSÕES AO PÉ DO OUVIDO
por Maria Rita Angeiras
Foi tão bom chegar em casa ontem e sentir aquele cheiro de primavera parisiense disfarçado de aroma de produto de limpeza. Abri a janela, coloquei um incenso e deixei o vento fazer festa na minha casa, pra afastar o calor insuportável da metrópole. Sentei no sofá e aproveitei aqueles momentos de paz, antes de ligar a televisão e ser invadida por centenas de bling-blings indianos. Confesso baixinho para Deus - que é segredo meu e de Clarice - que minha cabeça está uma confusão só. E o meu coração está precisando urgentemente de um inquilino que me ajude a pagar a minha atual dívida com as letrinhas. E o meu corpo não tem cansaço e vive de se alegrar às dez horas da noite. E sua foto me faz lembrar de todos os homens que eu gostei e desgostei no mesmo dia. E eu começo a juntar todos lado a lado e eles não conseguem completar nem um homem inteiro. E como pensamento não se muda, decidi mudar a decoração da casa: afastei o sofá, inverti os pufes, troquei as fotos, fiz os livros de vitrine, puxei o tapete colorido e tirei os quadros. Depois coloquei a cama perto da janela e arrastei a mesinha de cabeceira. Deitei pra estrear aquele canto novo e fiquei levando um ventinho bom na cabeça, só com a luz dos outros prédios iluminando o interior. Eu sempre achei muito mágico o momento em que a cortina fica dançando dentro do quarto com a brisa, num balé de idas e vindas sem fim. Ficou tudo perfeito. Então pulei num banho quente e fiquei convencendo o corpo de que a menina precisa dormir pra trabalhar no outro dia. Mas ele faz pouco caso dos meus apelos e aproveita uma intensa alegria noturna, como se vivesse em constante estado de cafeína. Ouço música, vejo televisão e me apóio de vez em quando na porta da geladeira, tentando decifrar o que me apetece, mas tudo isso com um andar calmo, que é pra o vizinho não fazer um despacho e jogar debaixo da minha porta junto com a correspondência. Ao final da noite, já nem pareço tão confusa e subliminar como antes. E nem penso mais em você, nem em você e muito menos em você. Vou pra cama e, quando o avião passa, peço pra ele levar toda a minha agitação pra bem longe. É hora de dormir naquele pedacinho de mundo que tem cheiro de primavera parisiense e clima de continente africano.
Foi tão bom chegar em casa ontem e sentir aquele cheiro de primavera parisiense disfarçado de aroma de produto de limpeza. Abri a janela, coloquei um incenso e deixei o vento fazer festa na minha casa, pra afastar o calor insuportável da metrópole. Sentei no sofá e aproveitei aqueles momentos de paz, antes de ligar a televisão e ser invadida por centenas de bling-blings indianos. Confesso baixinho para Deus - que é segredo meu e de Clarice - que minha cabeça está uma confusão só. E o meu coração está precisando urgentemente de um inquilino que me ajude a pagar a minha atual dívida com as letrinhas. E o meu corpo não tem cansaço e vive de se alegrar às dez horas da noite. E sua foto me faz lembrar de todos os homens que eu gostei e desgostei no mesmo dia. E eu começo a juntar todos lado a lado e eles não conseguem completar nem um homem inteiro. E como pensamento não se muda, decidi mudar a decoração da casa: afastei o sofá, inverti os pufes, troquei as fotos, fiz os livros de vitrine, puxei o tapete colorido e tirei os quadros. Depois coloquei a cama perto da janela e arrastei a mesinha de cabeceira. Deitei pra estrear aquele canto novo e fiquei levando um ventinho bom na cabeça, só com a luz dos outros prédios iluminando o interior. Eu sempre achei muito mágico o momento em que a cortina fica dançando dentro do quarto com a brisa, num balé de idas e vindas sem fim. Ficou tudo perfeito. Então pulei num banho quente e fiquei convencendo o corpo de que a menina precisa dormir pra trabalhar no outro dia. Mas ele faz pouco caso dos meus apelos e aproveita uma intensa alegria noturna, como se vivesse em constante estado de cafeína. Ouço música, vejo televisão e me apóio de vez em quando na porta da geladeira, tentando decifrar o que me apetece, mas tudo isso com um andar calmo, que é pra o vizinho não fazer um despacho e jogar debaixo da minha porta junto com a correspondência. Ao final da noite, já nem pareço tão confusa e subliminar como antes. E nem penso mais em você, nem em você e muito menos em você. Vou pra cama e, quando o avião passa, peço pra ele levar toda a minha agitação pra bem longe. É hora de dormir naquele pedacinho de mundo que tem cheiro de primavera parisiense e clima de continente africano.
terça-feira, 3 de março de 2009
JEITINHO SLOW DE SER
por Maria Rita Angeiras
A moda que a menina gostou e que ainda não pegou por aqui é viver “slow”. Nada dessa pressa esquizofrênica que a galera da geral costuma achar muito cool e muito hypada. Afinal, sempre parecemos ocupados demais, inteligentes demais, sem tempo demais e requisitados demais. Como se fosse chique viver aos 120km/h levando tapa de vento no rosto e segurando o coração pra ele não sair da boca. Parei. Então deixa eu inclinar a cadeira, colocar os pés no porta-luvas e aproveitar a paisagem. Nada de ficar resmungando “ô vidinha futura”, porque o negócio mesmo é contar com o dia de hoje. Nada de andar atrasada pela casa, enroscando o ferro de passar na perna e derrubando o dito cujo no chão. Nada de chegar correndo, tomar banho e entrar na cama pra não perder um minuto de sono. Nada de ficar apertando cinco mil vezes o botão do elevador, como se isso fosse fazer ele descer mais rápido. Chega. Agora eu dou um bom dia calmo pro porteiro e faço algum comentário bobo como “Que calor, isso aqui parece o Rio de Janeiro, né?’. Agora eu desligo o celular numa sexta-feira, compro sorvete e fico assistindo Anna Karenina, sem me culpar por não estar vivendo enlouquecidamente cada segundo do final de semana. Agora eu sossego a perna e dou um tempo pro meu amor chegar de mansinho, quando ele quiser, porque a porta ainda vai estar aberta. Agora eu ouço jazz na cama, depois de vinte minutos me espreguiçando e fazendo confissões de sonhos pra o travesseiro. Agora eu deixo de ser mimada pra ligar dizendo que perdôo nossa amizade toda errada e “volta logo, vai, esse lugar precisa de um pouco de poesia”. Agora eu fico andando pela sala de pijama pensando “e se eu me atrasar?”. Agora eu fico lendo a mesma crônica duzentas vezes até digerir o que está nas estrelinhas. Agora eu sento no chão e declamo poesia pro tapete colorido mais cult da cidade. Agora eu penso em você, em seguida não penso mais e logo depois volto a pensar novamente. Mas tudo bem, eu não me importo. Esse meu novo jeitinho slow de ser não tem pressa nenhuma de decidir absolutamente nada.
A moda que a menina gostou e que ainda não pegou por aqui é viver “slow”. Nada dessa pressa esquizofrênica que a galera da geral costuma achar muito cool e muito hypada. Afinal, sempre parecemos ocupados demais, inteligentes demais, sem tempo demais e requisitados demais. Como se fosse chique viver aos 120km/h levando tapa de vento no rosto e segurando o coração pra ele não sair da boca. Parei. Então deixa eu inclinar a cadeira, colocar os pés no porta-luvas e aproveitar a paisagem. Nada de ficar resmungando “ô vidinha futura”, porque o negócio mesmo é contar com o dia de hoje. Nada de andar atrasada pela casa, enroscando o ferro de passar na perna e derrubando o dito cujo no chão. Nada de chegar correndo, tomar banho e entrar na cama pra não perder um minuto de sono. Nada de ficar apertando cinco mil vezes o botão do elevador, como se isso fosse fazer ele descer mais rápido. Chega. Agora eu dou um bom dia calmo pro porteiro e faço algum comentário bobo como “Que calor, isso aqui parece o Rio de Janeiro, né?’. Agora eu desligo o celular numa sexta-feira, compro sorvete e fico assistindo Anna Karenina, sem me culpar por não estar vivendo enlouquecidamente cada segundo do final de semana. Agora eu sossego a perna e dou um tempo pro meu amor chegar de mansinho, quando ele quiser, porque a porta ainda vai estar aberta. Agora eu ouço jazz na cama, depois de vinte minutos me espreguiçando e fazendo confissões de sonhos pra o travesseiro. Agora eu deixo de ser mimada pra ligar dizendo que perdôo nossa amizade toda errada e “volta logo, vai, esse lugar precisa de um pouco de poesia”. Agora eu fico andando pela sala de pijama pensando “e se eu me atrasar?”. Agora eu fico lendo a mesma crônica duzentas vezes até digerir o que está nas estrelinhas. Agora eu sento no chão e declamo poesia pro tapete colorido mais cult da cidade. Agora eu penso em você, em seguida não penso mais e logo depois volto a pensar novamente. Mas tudo bem, eu não me importo. Esse meu novo jeitinho slow de ser não tem pressa nenhuma de decidir absolutamente nada.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
ME DEIXA
por Maria Rita Angeiras
Descobri recentemente que dizer “sim” dá muito mais trabalho do que dizer “não”. E passei a dizer “não” com mais freqüência. Para dizer a verdade, eu ando tão sem urgência que agora digo “não” 99% do tempo. Um “não” que não significa necessariamente rejeição. Está mais para “não, agora que meu corpo tranqüilizou não quero voltar a comer chocolate enquanto espero você telefonar” ou “não, minha vida está tão em paz que prefiro aproveitar essa sensação e deixar todo o resto para depois” ou “não, desculpa, para bagunçar a minha cabeça já tenho eu mesma”. Parece fuga? E é. Mas é uma fuga completamente opcional e assumida - o que me faz parecer uma mulher super moderna e coerente. E prefiro fazer isso do que ter que escolher a outra opção, mais radical, que é doar meu coração saudável, mas extremamente cansado, para algum paciente da fila de transplante. Em compensação, tento alimentar os meus dias com pedacinhos de amores-perfeitos encontrados em cantores de jazz, filmes de Woody Allen e poemas de e. e. cummings. E vou acumulando toda essa poesia distraída para um dia gastar com alguém que realmente que vá fazer bom uso dela. Não me preocupo, pelo contrário. Quem sabe da próxima vez que o cara certo passar por mim eu não vou estar ocupada demais com os caras errados. E são tantos. E estão por toda parte, como praga: nos bares, nas festas de amigos, nas baladas, nos restaurantes, no estacionamento, no elevador, enfim, a lista é longa. Cansei desses lugares, das conversas vazias, de pessoas gritando no seu ouvido, de opiniões desinteressantes, dos joguinhos sem graça, das abordagens, das roupas com cheiro de cigarro e das pessoas destilando álcool. Vou com o simples objetivo de rir, dançar e me divertir. Todo o resto é exatamente isso: resto. E agora sempre vou embora um pouco antes, para não correr o risco de me juntar a ele. Pode ser uma fase xiita, eu sei, mas comecei o ano colocando muita fé num conselho que eu adaptei: “amazing things happen when you say NO”.
Descobri recentemente que dizer “sim” dá muito mais trabalho do que dizer “não”. E passei a dizer “não” com mais freqüência. Para dizer a verdade, eu ando tão sem urgência que agora digo “não” 99% do tempo. Um “não” que não significa necessariamente rejeição. Está mais para “não, agora que meu corpo tranqüilizou não quero voltar a comer chocolate enquanto espero você telefonar” ou “não, minha vida está tão em paz que prefiro aproveitar essa sensação e deixar todo o resto para depois” ou “não, desculpa, para bagunçar a minha cabeça já tenho eu mesma”. Parece fuga? E é. Mas é uma fuga completamente opcional e assumida - o que me faz parecer uma mulher super moderna e coerente. E prefiro fazer isso do que ter que escolher a outra opção, mais radical, que é doar meu coração saudável, mas extremamente cansado, para algum paciente da fila de transplante. Em compensação, tento alimentar os meus dias com pedacinhos de amores-perfeitos encontrados em cantores de jazz, filmes de Woody Allen e poemas de e. e. cummings. E vou acumulando toda essa poesia distraída para um dia gastar com alguém que realmente que vá fazer bom uso dela. Não me preocupo, pelo contrário. Quem sabe da próxima vez que o cara certo passar por mim eu não vou estar ocupada demais com os caras errados. E são tantos. E estão por toda parte, como praga: nos bares, nas festas de amigos, nas baladas, nos restaurantes, no estacionamento, no elevador, enfim, a lista é longa. Cansei desses lugares, das conversas vazias, de pessoas gritando no seu ouvido, de opiniões desinteressantes, dos joguinhos sem graça, das abordagens, das roupas com cheiro de cigarro e das pessoas destilando álcool. Vou com o simples objetivo de rir, dançar e me divertir. Todo o resto é exatamente isso: resto. E agora sempre vou embora um pouco antes, para não correr o risco de me juntar a ele. Pode ser uma fase xiita, eu sei, mas comecei o ano colocando muita fé num conselho que eu adaptei: “amazing things happen when you say NO”.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
A BAILARINA DESAPRENDEU A AMAR
por Maria Rita Angeiras
- Você podia ter me acordado com um beijo.
Morri. Morri cem vezes ao escutar essa frase logo de manhã cedo. E só consegui escutar aquilo, porque fiquei perplexa demais. O barulho dos carros parou, as buzinas cessaram, o sol que invadia a janela do carro me cegou e todos os prédios desabaram como areia, como se não houvesse mais esperança. Será que ela tinha acordado ele pressionando suas costas com uma mão enquanto a outra ainda segurava a toalha branca que tinha colocado depois do banho? Ou teria sido com um grito vindo lá cozinha, depois de tomar seu café-da-manhã em pé, já com a cabeça nas dezenas que tinha que fazer naquele dia? Será que ela tinha colocado o despertador bem ao lado do ouvido dele, fazendo ele acordar sobressaltado e nervoso depois de uma noite calma de sono? Será que, em seguida, ela disparou todos os problemas da relação, suas carências afetivas, suas frustrações no trabalho e todos os planos que eles tinham e nunca realizaram? Ainda era quarta-feira. E ele só queria um beijo. Um beijo que ela não tinha mais tempo de dar porque estava sempre preocupada demais em se impor como mulher num mercado difícil, massacrante e machista. Ele só queria um beijo. Um beijo como todos os outros que já tinham dado, mas que poderia ter salvo aquele dia, ou pelo menos aquela manhã. Ele só queria um beijo. Um beijo para ele poder apostar novamente nas coisas boas da vida e acreditar que tudo poderia melhorar naquela semana, só porque ela estava lá. Ele só queria um beijo. E queria que ela velasse novamente seu sono e passasse a noite segurando sua mão, depois de trazer um copo de água gelada, como ele tanto gostava. E queria que ela voltasse a ser a menina bailarina, que deslizava pela casa, e que ele prometia um dia colocar dentro de uma caixa de música de madeira e guardar só para ele. E queria que ela voltasse a falar com aquela voz carinhosa de criança, dentro do apartamento que ele tinha comprado para os dois brincarem de casinha pro resto da vida. Ele só queria um beijo. E ela esqueceu de dar. E eu morri. Morri cem vezes com aquele amor atropelado bem na minha frente logo de manhã.
- Você podia ter me acordado com um beijo.
Morri. Morri cem vezes ao escutar essa frase logo de manhã cedo. E só consegui escutar aquilo, porque fiquei perplexa demais. O barulho dos carros parou, as buzinas cessaram, o sol que invadia a janela do carro me cegou e todos os prédios desabaram como areia, como se não houvesse mais esperança. Será que ela tinha acordado ele pressionando suas costas com uma mão enquanto a outra ainda segurava a toalha branca que tinha colocado depois do banho? Ou teria sido com um grito vindo lá cozinha, depois de tomar seu café-da-manhã em pé, já com a cabeça nas dezenas que tinha que fazer naquele dia? Será que ela tinha colocado o despertador bem ao lado do ouvido dele, fazendo ele acordar sobressaltado e nervoso depois de uma noite calma de sono? Será que, em seguida, ela disparou todos os problemas da relação, suas carências afetivas, suas frustrações no trabalho e todos os planos que eles tinham e nunca realizaram? Ainda era quarta-feira. E ele só queria um beijo. Um beijo que ela não tinha mais tempo de dar porque estava sempre preocupada demais em se impor como mulher num mercado difícil, massacrante e machista. Ele só queria um beijo. Um beijo como todos os outros que já tinham dado, mas que poderia ter salvo aquele dia, ou pelo menos aquela manhã. Ele só queria um beijo. Um beijo para ele poder apostar novamente nas coisas boas da vida e acreditar que tudo poderia melhorar naquela semana, só porque ela estava lá. Ele só queria um beijo. E queria que ela velasse novamente seu sono e passasse a noite segurando sua mão, depois de trazer um copo de água gelada, como ele tanto gostava. E queria que ela voltasse a ser a menina bailarina, que deslizava pela casa, e que ele prometia um dia colocar dentro de uma caixa de música de madeira e guardar só para ele. E queria que ela voltasse a falar com aquela voz carinhosa de criança, dentro do apartamento que ele tinha comprado para os dois brincarem de casinha pro resto da vida. Ele só queria um beijo. E ela esqueceu de dar. E eu morri. Morri cem vezes com aquele amor atropelado bem na minha frente logo de manhã.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
SE,
por Maria Rita Angeiras
Se vier, vem aos poucos, para eu poder me acostumar a ter você por perto. Mas não deixa eu me acostumar muito, para eu não abandonar meus sábados felizes com a cantora de jazz e meus domingos perplexos com o cineasta.
E se vier, não tenta me desvendar. Deixa eu ter alguns segredos só meus, porque quando alguém tenta me descobrir, em algum lugar soa um alarme avisando para eu me proteger.
Vem, mas vem devagarzinho, sem fazer muito barulho. Eu tenho um lado de bicho assustado que corre quando se sente inseguro, em contraste com o meu lado de bicho carente que se enrosca quando quer carinho.
E se vier, não pede demais. Eu aprendi a dizer não e ainda não decidi muito bem para quem dizer sim.
Vem, mas vem inteiro, sem deixar nada seu pelo caminho, porque eu já cansei de amar aos pedaços.
E se vier, deixa eu balançar a perna, mesmo que isso te enlouqueça. Não faço por ansiedade, mas para ter certeza de que estou viva, pulsando, existindo.
Vem, mas não pergunta muito. Minhas respostas parecem complexas demais, mas eu sou tão fácil de agradar que é até sem graça.
E se vier, não confia muito nas minhas palavras burras e indignadas. É meu sorriso que mostra quem eu sou, não esse vocabulariozinho pedante de escritora.
Vem, mas vem sem rotina. Aquário com ascendente em peixes morre lentamente com o dia a dia.
E se vier, vem com um sorrisinho de canto de boca. Eu juro que vou te amar todos os dias só para te ver sorrir de volta para mim.
Vem, mas não vem muito subliminar. Meu lado que questiona é cem vezes mais esperto do que meu lado que entende.
E se vier, vem sem muita pressa. Prefiro aqueles que me roubam aos pouquinhos do que aqueles que me levam inteira, de uma vez.
Então vem, vem logo, deixa ser. Do resto a gente cuida.
Se vier, vem aos poucos, para eu poder me acostumar a ter você por perto. Mas não deixa eu me acostumar muito, para eu não abandonar meus sábados felizes com a cantora de jazz e meus domingos perplexos com o cineasta.
E se vier, não tenta me desvendar. Deixa eu ter alguns segredos só meus, porque quando alguém tenta me descobrir, em algum lugar soa um alarme avisando para eu me proteger.
Vem, mas vem devagarzinho, sem fazer muito barulho. Eu tenho um lado de bicho assustado que corre quando se sente inseguro, em contraste com o meu lado de bicho carente que se enrosca quando quer carinho.
E se vier, não pede demais. Eu aprendi a dizer não e ainda não decidi muito bem para quem dizer sim.
Vem, mas vem inteiro, sem deixar nada seu pelo caminho, porque eu já cansei de amar aos pedaços.
E se vier, deixa eu balançar a perna, mesmo que isso te enlouqueça. Não faço por ansiedade, mas para ter certeza de que estou viva, pulsando, existindo.
Vem, mas não pergunta muito. Minhas respostas parecem complexas demais, mas eu sou tão fácil de agradar que é até sem graça.
E se vier, não confia muito nas minhas palavras burras e indignadas. É meu sorriso que mostra quem eu sou, não esse vocabulariozinho pedante de escritora.
Vem, mas vem sem rotina. Aquário com ascendente em peixes morre lentamente com o dia a dia.
E se vier, vem com um sorrisinho de canto de boca. Eu juro que vou te amar todos os dias só para te ver sorrir de volta para mim.
Vem, mas não vem muito subliminar. Meu lado que questiona é cem vezes mais esperto do que meu lado que entende.
E se vier, vem sem muita pressa. Prefiro aqueles que me roubam aos pouquinhos do que aqueles que me levam inteira, de uma vez.
Então vem, vem logo, deixa ser. Do resto a gente cuida.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
DEIXA A MENINA
por Maria Rita Angeiras
A menina do vestido vermelho não queria sentir borboletas no estômago, sentir a mão gelada de tanto nervoso ou sentir que seus pés saíram do chão por alguns segundos. Ela só queria sentir. Mas você deu um beijou nela e ela não sentiu nada. E ela quis fugir, mas estava tão aos pedaços por se trair que não conseguiu dar as costas e ir embora. Ficou ali e rezou para alguém aparecer e arrastar ela pelo braço até um lugar onde pudesse ouvir a pergunta “o que você está fazendo?”. Depois de oxigenar o cérebro impregnado de cigarro e música alta, ela tentaria responder, olhando fixamente para os carros na calçada. Pensando melhor, não responderia. Porque se trair é dívida tão pessoal que não se compartilha. Ou se compartilha em silêncio, com a simplicidade de quem olha e se entende. Ou se compartilha com atraso, às oito da noite de um domingo, depois da coisa toda ter sido digerida lá dentro. Ignorou tudo e foi viver, porque assim como se trai, também se perdoa. Em seguida decidiu ir embora, sentindo o quente-frio do escuro-claro do dia-noite. Achava que aquela era a melhor hora de todas as vinte e quatro. Porque é quando tudo coexiste com uma paz perturbadora. O frio e o calor; o barulho e o silêncio; as nuvens pretas e os primeiros raios de sol. Concluiu que poderia viver eternamente presa naquele limiar de vida. E lembrou de quando passeava na outra cidade naquele horário. Enquanto todos queriam ir pra casa, ela preferia descer do carro e ficar vendo o rio andar sem pressa, acariciando lentamente as margens da cidade cheia de casinhas coloridas. Mas como os rios daqui não são iguais aos de lá, ela preferiu voltar pra casa e dormir. Afinal, aquele lusco fusco acabaria logo. E era melhor começar a enfrentar o dia na cama a continuar acordada com aquela sensação horrível de ter se traído.
A menina do vestido vermelho não queria sentir borboletas no estômago, sentir a mão gelada de tanto nervoso ou sentir que seus pés saíram do chão por alguns segundos. Ela só queria sentir. Mas você deu um beijou nela e ela não sentiu nada. E ela quis fugir, mas estava tão aos pedaços por se trair que não conseguiu dar as costas e ir embora. Ficou ali e rezou para alguém aparecer e arrastar ela pelo braço até um lugar onde pudesse ouvir a pergunta “o que você está fazendo?”. Depois de oxigenar o cérebro impregnado de cigarro e música alta, ela tentaria responder, olhando fixamente para os carros na calçada. Pensando melhor, não responderia. Porque se trair é dívida tão pessoal que não se compartilha. Ou se compartilha em silêncio, com a simplicidade de quem olha e se entende. Ou se compartilha com atraso, às oito da noite de um domingo, depois da coisa toda ter sido digerida lá dentro. Ignorou tudo e foi viver, porque assim como se trai, também se perdoa. Em seguida decidiu ir embora, sentindo o quente-frio do escuro-claro do dia-noite. Achava que aquela era a melhor hora de todas as vinte e quatro. Porque é quando tudo coexiste com uma paz perturbadora. O frio e o calor; o barulho e o silêncio; as nuvens pretas e os primeiros raios de sol. Concluiu que poderia viver eternamente presa naquele limiar de vida. E lembrou de quando passeava na outra cidade naquele horário. Enquanto todos queriam ir pra casa, ela preferia descer do carro e ficar vendo o rio andar sem pressa, acariciando lentamente as margens da cidade cheia de casinhas coloridas. Mas como os rios daqui não são iguais aos de lá, ela preferiu voltar pra casa e dormir. Afinal, aquele lusco fusco acabaria logo. E era melhor começar a enfrentar o dia na cama a continuar acordada com aquela sensação horrível de ter se traído.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
A RITA DE CHICO
por Maria Rita Angeiras
Você tinha nome de santo e era tão perfeito que eu nunca te amei na hora certa, com medo do meu amor nunca ser tão perfeito quanto o seu, ou de eu nunca conseguir ser tão perfeita quanto você. Amei, confesso, com total falta de sincronia, como um amor de redenção, descolado do tempo, daqueles que vai ficando na pessoa mesmo depois do outro já ter partido. E amo um pouquinho até hoje, porque acho que ninguém nunca vai adorar os meus olhos e o meu queixo tanto quanto você, como no dia em que você deu uma mordida nele e eu senti uma dor que duzentas palavras jamais conseguirão descrever. Mas em contraponto a tanto amor, eu odiava seu jeito meigo de me aceitar livremente e me odiava quando eu traía a sua cabeça confusa de homem, fazendo você esquecer qualquer briga com um simples beijo. Talvez, no fundo, eu quisesse que você quebrasse toda aquela perfeição ficando indignado comigo ou me deixando sozinha no meio da rua, porque você não merecia alguém que não te amasse tanto quanto você me amava. Mas você nunca me deixou no meio da rua. Pelo contrário: continuou me amando até o dia em que eu resolvi que não queria mais aquele amor, não queria mais o homem que amava o meu queixo e não queria mais o homem que todo mundo amava, menos eu. E me libertei dele e de você com uma facilidade que me corrompe a alma até hoje. E acho que se existe justiça divina, ainda estou pagando minha dívida com você, desde aquele dia em que te revi e minhas pernas tremeram e minha barriga ficou oca de tanto vazio que eu senti. E aceito isso, sem birra e sem bico. Mas vou viver com a eterna dúvida se fui eu ou foi a sua perfeição que matou o nosso amor.
Você tinha nome de santo e era tão perfeito que eu nunca te amei na hora certa, com medo do meu amor nunca ser tão perfeito quanto o seu, ou de eu nunca conseguir ser tão perfeita quanto você. Amei, confesso, com total falta de sincronia, como um amor de redenção, descolado do tempo, daqueles que vai ficando na pessoa mesmo depois do outro já ter partido. E amo um pouquinho até hoje, porque acho que ninguém nunca vai adorar os meus olhos e o meu queixo tanto quanto você, como no dia em que você deu uma mordida nele e eu senti uma dor que duzentas palavras jamais conseguirão descrever. Mas em contraponto a tanto amor, eu odiava seu jeito meigo de me aceitar livremente e me odiava quando eu traía a sua cabeça confusa de homem, fazendo você esquecer qualquer briga com um simples beijo. Talvez, no fundo, eu quisesse que você quebrasse toda aquela perfeição ficando indignado comigo ou me deixando sozinha no meio da rua, porque você não merecia alguém que não te amasse tanto quanto você me amava. Mas você nunca me deixou no meio da rua. Pelo contrário: continuou me amando até o dia em que eu resolvi que não queria mais aquele amor, não queria mais o homem que amava o meu queixo e não queria mais o homem que todo mundo amava, menos eu. E me libertei dele e de você com uma facilidade que me corrompe a alma até hoje. E acho que se existe justiça divina, ainda estou pagando minha dívida com você, desde aquele dia em que te revi e minhas pernas tremeram e minha barriga ficou oca de tanto vazio que eu senti. E aceito isso, sem birra e sem bico. Mas vou viver com a eterna dúvida se fui eu ou foi a sua perfeição que matou o nosso amor.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
GEORGE H.
por Maria Rita Angeiras
Quando você dá aquele sorrisinho tímido de canto de boca nos primeiros segundos da música eu olho pro computador, com a cabeça inclinada em estado de graça, e peço baixinho pra um dia encontrar alguém que faça isso de um jeitinho tão apaixonante quanto você. E mesmo não sendo um dos Beatles preferidos da maioria esmagadora, você é o meu, porque desde aquele dia virei refém do exato segundo 00:07 em que você começa a cantar Here Comes The Sun, enquanto mulheres histéricas vão ao delírio com seu tipinho bagunçado e desleixado. E eu morro de ciúmes. E chego a te amar por alguns minutos, sempre, e te daria casa, comida e roupa lavada se todos os dias de manhã eu pudesse virar pro lado só pra você me chamar de “little darling” e dar aquele sorrisinho de canto de boca irresistível. E a minha casa, meu coração, minhas letrinhas, meus livros, minha alegria e minha poesia distraída se alimentariam só dele, porque eu tenho certeza que ninguém precisa de muito mais do que isso pra ser feliz nessa vida. E recentemente decidi que nenhum cara bonito, inteligente, fofo e educado vai me conquistar facilmente, a não ser que tenha um sorriso escondido igualzinho ao seu e me ganhe nos primeiros sete segundos. Mas é tão difícil que eu fico vagando por aí, procurando em lugares fechados, barulhentos e com cheiro de cigarro o seu sorriso que ninguém tem e a sua música que ninguém canta, fora eu, que odeio dias de chuva.
Quando você dá aquele sorrisinho tímido de canto de boca nos primeiros segundos da música eu olho pro computador, com a cabeça inclinada em estado de graça, e peço baixinho pra um dia encontrar alguém que faça isso de um jeitinho tão apaixonante quanto você. E mesmo não sendo um dos Beatles preferidos da maioria esmagadora, você é o meu, porque desde aquele dia virei refém do exato segundo 00:07 em que você começa a cantar Here Comes The Sun, enquanto mulheres histéricas vão ao delírio com seu tipinho bagunçado e desleixado. E eu morro de ciúmes. E chego a te amar por alguns minutos, sempre, e te daria casa, comida e roupa lavada se todos os dias de manhã eu pudesse virar pro lado só pra você me chamar de “little darling” e dar aquele sorrisinho de canto de boca irresistível. E a minha casa, meu coração, minhas letrinhas, meus livros, minha alegria e minha poesia distraída se alimentariam só dele, porque eu tenho certeza que ninguém precisa de muito mais do que isso pra ser feliz nessa vida. E recentemente decidi que nenhum cara bonito, inteligente, fofo e educado vai me conquistar facilmente, a não ser que tenha um sorriso escondido igualzinho ao seu e me ganhe nos primeiros sete segundos. Mas é tão difícil que eu fico vagando por aí, procurando em lugares fechados, barulhentos e com cheiro de cigarro o seu sorriso que ninguém tem e a sua música que ninguém canta, fora eu, que odeio dias de chuva.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
A MENINA-BOMBA
por Maria Rita Angeiras
Já diz a famosa música-clichê que “saber amar é saber deixar alguém te amar”. Eu cheguei à conclusão de que acho que não sei. Ao menor sinal de reciprocidade, dou um jeito de me sabotar, num impulso completamente inconsciente, mesmo que eu esteja gostando muito da outra pessoa e já imagine a gente velhinho junto. Uma reação tão destrutiva que eu brinco que sou praticamente um homem-bomba, que além de se machucar, acaba machucando também quem está em volta. Mas é tão sem querer que quando percebo já fiz a besteira e não tem mais como consertar. E eu nem sei se quero consertar, talvez o problema seja esse, porque amar dá tanto trabalho e minhas crônicas vão ganhando tantos “você” que o meu estilo literário acaba sendo enquadrado na seção “dor de cotovelo” e eu não quero virar auto-ajuda pra ninguém porque nem eu sei como me ajudar. E essa semana passei praticamente uma hora e meia discutindo isso com uma amiga ao telefone, que falava de um jeito muito querido pra eu me deixar levar, não ficar afastando as outras pessoas da minha vida. Porque, no fundo, ela sabe que essa pose de menina que não se importa é só fachada para não levar olé de marmanjo. Então eu saio por aí torcendo para nenhum cara-potencial ser legal demais, educado demais, bacana demais, fofo demais ou inteligente demais porque eu posso acabar me mudando de mala e cuia para o Uzbequistão só para o cupido não me acertar de novo. Ou então ativo o modo “menina-bomba” e acabo inventando que sou sonâmbula e que já fui encontrada fazendo nado sincronizado no meio do lago do Ibirapuera às duas da manhã. É por isso que quando um amigo meu brinca que eu tenho burrice emocional – e não inteligência – eu concordo plenamente. Mas passo pelo menos uns dois dias muito indignada com a sinceridade dele.
Já diz a famosa música-clichê que “saber amar é saber deixar alguém te amar”. Eu cheguei à conclusão de que acho que não sei. Ao menor sinal de reciprocidade, dou um jeito de me sabotar, num impulso completamente inconsciente, mesmo que eu esteja gostando muito da outra pessoa e já imagine a gente velhinho junto. Uma reação tão destrutiva que eu brinco que sou praticamente um homem-bomba, que além de se machucar, acaba machucando também quem está em volta. Mas é tão sem querer que quando percebo já fiz a besteira e não tem mais como consertar. E eu nem sei se quero consertar, talvez o problema seja esse, porque amar dá tanto trabalho e minhas crônicas vão ganhando tantos “você” que o meu estilo literário acaba sendo enquadrado na seção “dor de cotovelo” e eu não quero virar auto-ajuda pra ninguém porque nem eu sei como me ajudar. E essa semana passei praticamente uma hora e meia discutindo isso com uma amiga ao telefone, que falava de um jeito muito querido pra eu me deixar levar, não ficar afastando as outras pessoas da minha vida. Porque, no fundo, ela sabe que essa pose de menina que não se importa é só fachada para não levar olé de marmanjo. Então eu saio por aí torcendo para nenhum cara-potencial ser legal demais, educado demais, bacana demais, fofo demais ou inteligente demais porque eu posso acabar me mudando de mala e cuia para o Uzbequistão só para o cupido não me acertar de novo. Ou então ativo o modo “menina-bomba” e acabo inventando que sou sonâmbula e que já fui encontrada fazendo nado sincronizado no meio do lago do Ibirapuera às duas da manhã. É por isso que quando um amigo meu brinca que eu tenho burrice emocional – e não inteligência – eu concordo plenamente. Mas passo pelo menos uns dois dias muito indignada com a sinceridade dele.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
EU COMIGO
por Maria Rita Angeiras
Faz frio na cidade mais cinza do Brasil. As paredes off-white, nome muito bonito pra bege claro ou branco escuro, ficam me encarando como se minha presença no quarto requeresse um feedback. Não, sinto muito, não estou para conversa. Tento esquecer as paredes e pego na mão da menina que tenta dormir, numa tentativa frustrada de fazer ela sonhar essa noite, de levar ela pra um lugar super fantástico, cheio de coisas que ela não vai poder descrever somente com os adjetivos que conhece. E ela conhece muitos. Mas a menina não sonha dormindo, insiste em sonhar acordada, assim como ela insiste em tomar sorvete mesmo quando está gripada. Não consigo brigar, fazer ela desistir da idéia de só dormir, descansar o corpo. Mas ela me encara com aqueles olhos escuros, inquietos, parece supor uma inquisição ou a história de uma vida inteira com um simples perspassar de olhares. Ela me encara e eu desisto de entender, porque cada vez que ela pisca eu sinto que ela disse tanta coisa que eu chego a ficar confusa, um pouco tonta. Cansada, eu sento no banco e, logo em seguida, ela senta também. Fico tentando adivinhar pra onde ela olha, mas parece tão longe que eu chego a espremer bem forte os meus olhos pra tentar alcançar. Sem sucesso. Ela olha para o lado e sorri, se diverte com a situação, mas sem zombar do meu esforço, como um professor que elogia um aluno aplicado. Às vezes eu realmente acho que ela quer me ensinar alguma coisa. E ela fica lá, sentada ao meu lado, esperando que eu diga alguma coisa, apesar dela ter certeza de que eu perdi as palavras, de que sentar no banco é minha forma de desistir de levar ela pra outro lugar, de que a minha perplexidade é a extensão também da minha resignação. E aqueles olhos curiosos que às vezes ficam estáticos. E aquele sorriso que às vezes fica meio abafado. E aquele jeito de dançar que às vezes faz ela tropeçar. E aquelas palavras que às vezes são só palavras. E eu fico ali, parada, um pouco extasiada e até nostálgica. Mas ela sempre levanta antes, segura bem forte a minha mão e me leva pra onde quer.
Faz frio na cidade mais cinza do Brasil. As paredes off-white, nome muito bonito pra bege claro ou branco escuro, ficam me encarando como se minha presença no quarto requeresse um feedback. Não, sinto muito, não estou para conversa. Tento esquecer as paredes e pego na mão da menina que tenta dormir, numa tentativa frustrada de fazer ela sonhar essa noite, de levar ela pra um lugar super fantástico, cheio de coisas que ela não vai poder descrever somente com os adjetivos que conhece. E ela conhece muitos. Mas a menina não sonha dormindo, insiste em sonhar acordada, assim como ela insiste em tomar sorvete mesmo quando está gripada. Não consigo brigar, fazer ela desistir da idéia de só dormir, descansar o corpo. Mas ela me encara com aqueles olhos escuros, inquietos, parece supor uma inquisição ou a história de uma vida inteira com um simples perspassar de olhares. Ela me encara e eu desisto de entender, porque cada vez que ela pisca eu sinto que ela disse tanta coisa que eu chego a ficar confusa, um pouco tonta. Cansada, eu sento no banco e, logo em seguida, ela senta também. Fico tentando adivinhar pra onde ela olha, mas parece tão longe que eu chego a espremer bem forte os meus olhos pra tentar alcançar. Sem sucesso. Ela olha para o lado e sorri, se diverte com a situação, mas sem zombar do meu esforço, como um professor que elogia um aluno aplicado. Às vezes eu realmente acho que ela quer me ensinar alguma coisa. E ela fica lá, sentada ao meu lado, esperando que eu diga alguma coisa, apesar dela ter certeza de que eu perdi as palavras, de que sentar no banco é minha forma de desistir de levar ela pra outro lugar, de que a minha perplexidade é a extensão também da minha resignação. E aqueles olhos curiosos que às vezes ficam estáticos. E aquele sorriso que às vezes fica meio abafado. E aquele jeito de dançar que às vezes faz ela tropeçar. E aquelas palavras que às vezes são só palavras. E eu fico ali, parada, um pouco extasiada e até nostálgica. Mas ela sempre levanta antes, segura bem forte a minha mão e me leva pra onde quer.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
TE AMO VEZES 100
por Maria Rita Angeiras
Sempre que tenho dias muito sonolentos lembro de você me chamando de “gato de hotel”, daqueles que vive com preguiça e se enrosca em qualquer lugar para tirar uma sonequinha. E logo vem na minha cabeça a imagem de você dirigindo com as três filhas desmaiadas atrás do carro, uma caindo por cima da outra. Logo você, que tem problemas pra dormir, né? E faço dessa conversa um diálogo direto porque ultimamente tudo tem sido tão corrido que a gente só consegue colocar em dia o “oi, tudo bom?”. Pra ser sincera, ultimamente você esteve tão presente nos meus assuntos que resolvi rabiscar umas palavras, apesar da gente trocar mensagens lindas e das suas estarem na categoria “inapagáveis” da minha agenda. Sabe que ontem eu confessei que te idolatrava tanto quando era criança que até daria a minha vida pela sua caso precisasse, mesmo você sendo o meu super-herói do “1, 2, 3”. Eu te achava tão forte e tão desprotegido ao mesmo tempo. E eu cresci te admirando tanto pelo que você é e pelas coisas que conquistou que decidi nunca te decepcionar. Então saí do nosso cantinho, fui morar longe, virei escritora, fiz pós-graduação, passei com distinção e trabalhei muitas horas só para você se orgulhar da sua menina. E toda vez que cometo um erro fico triste só com a possibilidade de você ficar também, porque eu quero que você seja muito feliz sempre. E o pior é que você não me cobra nada disso, nunca cobrou. E eu sei que você preferiria ter a sua princesinha e um genro do Náutico por perto do que uma redatora e pseudo-escritora longe. E eu rio quando você me chama de MR porque parece que eu cresci, mas quando volto pra casa ainda me sinto sua menina e até ando meio desleixada só pra você reclamar desse meu jeitinho despreocupado. E eu, que vivo em eterna poesia distraída, tento ser hermética e matemática ao seu lado, porque não dá pra divagar muito conversando com um engenheiro sem deixar ele entediado e perdido. No máximo tiro sua atenção com um sorrisinho de filha caçula e saio sorrateira, escorregando pela cadeira e escapando por debaixo da mesa das suas perguntas difíceis e do seu português adorável.
Sempre que tenho dias muito sonolentos lembro de você me chamando de “gato de hotel”, daqueles que vive com preguiça e se enrosca em qualquer lugar para tirar uma sonequinha. E logo vem na minha cabeça a imagem de você dirigindo com as três filhas desmaiadas atrás do carro, uma caindo por cima da outra. Logo você, que tem problemas pra dormir, né? E faço dessa conversa um diálogo direto porque ultimamente tudo tem sido tão corrido que a gente só consegue colocar em dia o “oi, tudo bom?”. Pra ser sincera, ultimamente você esteve tão presente nos meus assuntos que resolvi rabiscar umas palavras, apesar da gente trocar mensagens lindas e das suas estarem na categoria “inapagáveis” da minha agenda. Sabe que ontem eu confessei que te idolatrava tanto quando era criança que até daria a minha vida pela sua caso precisasse, mesmo você sendo o meu super-herói do “1, 2, 3”. Eu te achava tão forte e tão desprotegido ao mesmo tempo. E eu cresci te admirando tanto pelo que você é e pelas coisas que conquistou que decidi nunca te decepcionar. Então saí do nosso cantinho, fui morar longe, virei escritora, fiz pós-graduação, passei com distinção e trabalhei muitas horas só para você se orgulhar da sua menina. E toda vez que cometo um erro fico triste só com a possibilidade de você ficar também, porque eu quero que você seja muito feliz sempre. E o pior é que você não me cobra nada disso, nunca cobrou. E eu sei que você preferiria ter a sua princesinha e um genro do Náutico por perto do que uma redatora e pseudo-escritora longe. E eu rio quando você me chama de MR porque parece que eu cresci, mas quando volto pra casa ainda me sinto sua menina e até ando meio desleixada só pra você reclamar desse meu jeitinho despreocupado. E eu, que vivo em eterna poesia distraída, tento ser hermética e matemática ao seu lado, porque não dá pra divagar muito conversando com um engenheiro sem deixar ele entediado e perdido. No máximo tiro sua atenção com um sorrisinho de filha caçula e saio sorrateira, escorregando pela cadeira e escapando por debaixo da mesa das suas perguntas difíceis e do seu português adorável.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
PARA O MEU DOCINHO
por Maria Rita Angeiras
Enquanto todo mundo acha que eu sou a escritora desesperançosa e melancólica, você ri disso comigo ao telefone e sabe que é tudo banca de quem faz terapia com letrinha. E que o verdadeiro problema da minha d.d.c. é amar demais a ponto de não deixar ninguém me amar de volta, como se o meu amor já fosse suficiente para duas pessoas. E você tenta me aconselhar a amar certinho, sem muita pressa, e fala isso de um jeito tão lindo e materno que eu acalmo minha urgência de viver só para você dormir em paz essa noite e todas as outras que você me pedir. E você me liga pra diminuir nossa distância e a gente acaba discutindo Clarice e citando, em conjunto, aquele trecho do “Eis que sinto que em breve nos separaremos”, apesar de eu saber que nunca fui e nem nunca serei “só de ti”. E eu adoro aquele seu jeitinho de sambar errado, meio durinho, e você briga comigo dizendo que é culpa minha porque eu desisti de te ensinar, mas eu não desisti não. E um dia prometo te levar no desfile da Mangueira e te ver sambar bonitinho até chegar na Apoteose. E na Espanha você me obrigou a tirar uma foto na pracinha florida e eu fiz bico, enquanto você sorria. E eu tento me perdoar todas as vezes que eu olho para essa foto e dou um sorriso bem grande só te para compensar pela minha birra de caçula mimada, que você conhece tão bem. E como eu te amo mais do que a mim mesma, resolvi escrever essa crônica, mesmo arriscando cair na terrível limitação das palavras. Uma crônica para te mostrar todo o meu amor. E como ele é muito grande e nunca vai acabar, decidi que essa crônica não tem fim, ela simplesmente continua.
Enquanto todo mundo acha que eu sou a escritora desesperançosa e melancólica, você ri disso comigo ao telefone e sabe que é tudo banca de quem faz terapia com letrinha. E que o verdadeiro problema da minha d.d.c. é amar demais a ponto de não deixar ninguém me amar de volta, como se o meu amor já fosse suficiente para duas pessoas. E você tenta me aconselhar a amar certinho, sem muita pressa, e fala isso de um jeito tão lindo e materno que eu acalmo minha urgência de viver só para você dormir em paz essa noite e todas as outras que você me pedir. E você me liga pra diminuir nossa distância e a gente acaba discutindo Clarice e citando, em conjunto, aquele trecho do “Eis que sinto que em breve nos separaremos”, apesar de eu saber que nunca fui e nem nunca serei “só de ti”. E eu adoro aquele seu jeitinho de sambar errado, meio durinho, e você briga comigo dizendo que é culpa minha porque eu desisti de te ensinar, mas eu não desisti não. E um dia prometo te levar no desfile da Mangueira e te ver sambar bonitinho até chegar na Apoteose. E na Espanha você me obrigou a tirar uma foto na pracinha florida e eu fiz bico, enquanto você sorria. E eu tento me perdoar todas as vezes que eu olho para essa foto e dou um sorriso bem grande só te para compensar pela minha birra de caçula mimada, que você conhece tão bem. E como eu te amo mais do que a mim mesma, resolvi escrever essa crônica, mesmo arriscando cair na terrível limitação das palavras. Uma crônica para te mostrar todo o meu amor. E como ele é muito grande e nunca vai acabar, decidi que essa crônica não tem fim, ela simplesmente continua.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
VOCÊ E OS NÃO-VOCÊ
por Maria Rita Angeiras
Toda vez que a menina saía na rua, os outros homens desejavam ser você. E imaginavam quem teria causado um estrago tão grande a ponto dela sair de casa assim, o olhar perdido, desleixada, de camiseta branca, o cabelo bagunçado preso num coque alto e as mãos escondidas no bolso da calça jeans, como se não soubesse exatamente o que fazer com elas. Os outros homens te detestavam e te idolatravam. Ela não te odiava porque não tinha espaço. Você já tinha ocupado todos os cantinhos com sua voz mansa e suas promessas que ela não compraria se não fosse a sua maldita voz mansa, calma, linda e irresistível. Droga, como ela sentia saudades de te ver. Nas segundas, nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas, nos sábados e, principalmente, nos domingos ocos. E em cada dia parecia caber uma semana inteira, de tanto que demorava a passar. Droga, ela sabia que você não merecia. E saía para conhecer dezenas de pessoas diferentes, mesmo que às vezes se pegasse encarando a porta, esperando você entrar pra salvá-la de todas aquelas tentativas estúpidas de te substituir. Mas quando você entrava, partia seu coração em duzentos mil pedacinhos minúsculos e jogava pra cima como se fosse confete no meio do seu carnaval particular. Droga, como aquilo doía. E odiava a pequena metadezinha que separava para todos os outros homens, que ela chamava carinhosamente de os não-você. E achava tão futura a idéia de de que um dia você iria desocupar tudo aquilo naturalmente. E quando isso aconteceu, o não-você deixou um buraco tão grande que eu até perdi a vontade de comer. E nenhum dos outros homens sequer conseguiu bagunçar o meu cabelo. E eu não tenho a menor vontade de reencontrar nenhum deles. E eu daria tudo pra voltar a te amar, mesmo que você não me amasse de volta, porque só assim os meus dias teriam algum sentido de novo e eu não seria esse grande vazio que nunca mais gostou de ninguém, pensou em ninguém, se interessou por ninguém. E todos os homens da minha rua iriam parar de fazer coisas bobas como ler o jornal ou passear com o cachorro só pra te odiar mais uma vez.
Toda vez que a menina saía na rua, os outros homens desejavam ser você. E imaginavam quem teria causado um estrago tão grande a ponto dela sair de casa assim, o olhar perdido, desleixada, de camiseta branca, o cabelo bagunçado preso num coque alto e as mãos escondidas no bolso da calça jeans, como se não soubesse exatamente o que fazer com elas. Os outros homens te detestavam e te idolatravam. Ela não te odiava porque não tinha espaço. Você já tinha ocupado todos os cantinhos com sua voz mansa e suas promessas que ela não compraria se não fosse a sua maldita voz mansa, calma, linda e irresistível. Droga, como ela sentia saudades de te ver. Nas segundas, nas terças, nas quartas, nas quintas, nas sextas, nos sábados e, principalmente, nos domingos ocos. E em cada dia parecia caber uma semana inteira, de tanto que demorava a passar. Droga, ela sabia que você não merecia. E saía para conhecer dezenas de pessoas diferentes, mesmo que às vezes se pegasse encarando a porta, esperando você entrar pra salvá-la de todas aquelas tentativas estúpidas de te substituir. Mas quando você entrava, partia seu coração em duzentos mil pedacinhos minúsculos e jogava pra cima como se fosse confete no meio do seu carnaval particular. Droga, como aquilo doía. E odiava a pequena metadezinha que separava para todos os outros homens, que ela chamava carinhosamente de os não-você. E achava tão futura a idéia de de que um dia você iria desocupar tudo aquilo naturalmente. E quando isso aconteceu, o não-você deixou um buraco tão grande que eu até perdi a vontade de comer. E nenhum dos outros homens sequer conseguiu bagunçar o meu cabelo. E eu não tenho a menor vontade de reencontrar nenhum deles. E eu daria tudo pra voltar a te amar, mesmo que você não me amasse de volta, porque só assim os meus dias teriam algum sentido de novo e eu não seria esse grande vazio que nunca mais gostou de ninguém, pensou em ninguém, se interessou por ninguém. E todos os homens da minha rua iriam parar de fazer coisas bobas como ler o jornal ou passear com o cachorro só pra te odiar mais uma vez.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
A CULPA É DOS SEUS OLHOS AZUIS
por Maria Rita Angeiras
- Moço, coloca meu nome na lista do karaokê?
- Claro, e qual é o seu nome?
- Rita.
- Rita?
- É, Rita. R-i-t-a.
- Desculpa, mas não vai dar pra colocar.
- Por quê?
- Em solidariedade a Chico.
Chico Buarque não sobreviveu a uma Rita. Roberto Carlos também não. Depois Seu Jorge achou que o sofrimento tinha bossa e inventou de entrar para a lista. Isso sem falar que um dos piores furacões da história, que deixou um rastro de devastação, também recebeu o nome de Rita. Detalhe: categoria 5, ventos de mais de 300km/h e quase 12 bilhões de dólares em danos. Um nome praticamente sinônimo de “corre que isso não vai dar certo”.
Mas essa história começa em 1984, quando eu ia ser Eduarda e acabei virando Rita, pra homenagear minha avó. O Maria era regra, não tinha jeito. Talvez um nome tão santificado pudesse compensar o peso do Rita. A verdade é que eu cresci vendo minha mãe apontar para o céu dizendo que as Três Marias eram, na verdade, eu e minhas duas irmãs. Então eu imaginava que um dia, bem antes da gente nascer, meus pais tinham comprado aquelas três estrelas perfeitamente alinhadas de um andarilho e que tinham prometido ter três filhas, pra cada uma poder ganhar uma estrela. E que, sendo assim, todas teriam Maria no nome: Maria Fernanda, Maria Isabel e Maria Rita.
Aí vem Chico e estraga a poesia, dizendo que a Rita, que podia ser eu e que é uma das poucas pessoas que herdou uma estrela, “causou perdas e danos, levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu coração, e além de tudo me deixou mudo um violão”. E quem ouve o refrão esquece de mim, das três estrelas perfeitamente alinhadas e só lembra da dor de cotovelo do homem dos olhos azuis. E todo mundo começa a achar que pra cada Rita que nasce vai existir pelo menos um homem com o coração partido e um violão mudo.
Seu Jorge, achando pouco, compara sua Dora com a Rita de Chico, cantando: “lhe dediquei uma trova, um soneto, um samba canção, mas é que a danada não tem coração...”. E ainda chama a música de “Samba que nem a Rita à Dora”, como se a Rita tivesse virado parâmetro de maldade.
E quando inventaram a lenda sobre a morte de Paul McCartney, adivinha quem tinha sido a culpada? A Rita, uma inspetora de parquímetro que fez o famoso Beatle se distrair no volante e furar o sinal vermelho, morrendo tragicamente. Daí surgiu a música “Lovely Rita”, amenizada nos versos “where would I be without you, give us a wink and make me think of you”.
Mas a redenção vem quando aparece Maria Rita, que não é só a filha de Elis Regina, cantando “seja do jeito que for, eu te juro meu amor, se quiser voltar, tá perdoado”. Só pra acabar de vez com essa lenda e mostrar pra todo mundo que ultimamente são os homens que andam pisando na bola com as Ritas.
- Moço, coloca meu nome na lista do karaokê?
- Claro, e qual é o seu nome?
- Rita.
- Rita?
- É, Rita. R-i-t-a.
- Desculpa, mas não vai dar pra colocar.
- Por quê?
- Em solidariedade a Chico.
Chico Buarque não sobreviveu a uma Rita. Roberto Carlos também não. Depois Seu Jorge achou que o sofrimento tinha bossa e inventou de entrar para a lista. Isso sem falar que um dos piores furacões da história, que deixou um rastro de devastação, também recebeu o nome de Rita. Detalhe: categoria 5, ventos de mais de 300km/h e quase 12 bilhões de dólares em danos. Um nome praticamente sinônimo de “corre que isso não vai dar certo”.
Mas essa história começa em 1984, quando eu ia ser Eduarda e acabei virando Rita, pra homenagear minha avó. O Maria era regra, não tinha jeito. Talvez um nome tão santificado pudesse compensar o peso do Rita. A verdade é que eu cresci vendo minha mãe apontar para o céu dizendo que as Três Marias eram, na verdade, eu e minhas duas irmãs. Então eu imaginava que um dia, bem antes da gente nascer, meus pais tinham comprado aquelas três estrelas perfeitamente alinhadas de um andarilho e que tinham prometido ter três filhas, pra cada uma poder ganhar uma estrela. E que, sendo assim, todas teriam Maria no nome: Maria Fernanda, Maria Isabel e Maria Rita.
Aí vem Chico e estraga a poesia, dizendo que a Rita, que podia ser eu e que é uma das poucas pessoas que herdou uma estrela, “causou perdas e danos, levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu coração, e além de tudo me deixou mudo um violão”. E quem ouve o refrão esquece de mim, das três estrelas perfeitamente alinhadas e só lembra da dor de cotovelo do homem dos olhos azuis. E todo mundo começa a achar que pra cada Rita que nasce vai existir pelo menos um homem com o coração partido e um violão mudo.
Seu Jorge, achando pouco, compara sua Dora com a Rita de Chico, cantando: “lhe dediquei uma trova, um soneto, um samba canção, mas é que a danada não tem coração...”. E ainda chama a música de “Samba que nem a Rita à Dora”, como se a Rita tivesse virado parâmetro de maldade.
E quando inventaram a lenda sobre a morte de Paul McCartney, adivinha quem tinha sido a culpada? A Rita, uma inspetora de parquímetro que fez o famoso Beatle se distrair no volante e furar o sinal vermelho, morrendo tragicamente. Daí surgiu a música “Lovely Rita”, amenizada nos versos “where would I be without you, give us a wink and make me think of you”.
Mas a redenção vem quando aparece Maria Rita, que não é só a filha de Elis Regina, cantando “seja do jeito que for, eu te juro meu amor, se quiser voltar, tá perdoado”. Só pra acabar de vez com essa lenda e mostrar pra todo mundo que ultimamente são os homens que andam pisando na bola com as Ritas.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
TERCEIRA PESSOA DE SI MESMA
por Maria Rita Angeiras
A menina acordou naquele final de semana frio com uma preguiça tão grande. Não queria largar o edredom roxo que abraçava. Ou ele não queria largar ela. Nem sabia dizer, de tão próximos que estavam. Só levantaria se fosse pra tomar o leite com chocolate. Alguns riam dessa fase esquisita da sua alimentação. De uma hora pra outra passou a ter vontade de comer apenas coisas de criança, como danoninho, papinha, leite e suquinho. Era tão esquisito quanto aquela mania de escrever sobre si na terceira pessoa. Parecia uma necessidade de se descolar, talvez numa tentativa de ter algum distanciamento, de ser imparcial. Totalmente em vão. O ano tinha começado tão lento. Seu corpo estava cansado. Tinha acumulado algumas enxaquecas, bronquites e tendinites no final de 2008, que tentou fazer o mar levar no último dia do ano. Leva mar, leva. Estava com saudades de casa. Entupiu o DVD com temporadas de seriados viajados demais e filmes longos demais para entreter a cabeça. Tinha mania de dormir balançando a perna, que ela tentava justificar dizendo que era coisa de criança, do berço, para se ninar. Dormir nunca foi problema, mas tinha que balançar a perna. Ultimamente andava sonhando muito. E quando acordava sentia um peso como se tivesse vivido intensamente as últimas 8 horas de sono. E dormia o dia todo para viver no sonho já que a cidade estava tão vazia. Olhava para os livros na estante e sentia falta de ler. Mas também não tinha vontade de comer, coisa tão mais essencial, então se perdoava. Os chocolates se amontoavam nas malas, na cozinha, mas tinham perdido a graça. Do que ia começar a gostar se não gostava mais de chocolate? Pela primeira vez na vida se obrigava a comer algo para não ficar doente. Comer tinha ficado chato. E o vizinho reclamava que ela dava passos com muito força. Ai, que chato. Ultimamente andava dentro da sua própria casa na ponta do pés ou de chinelinho. Pensou em ir no supermercado comprar uma vida pro vizinho. Mas a menina tinha uma felicidade tão calma que poderia dividir, colocar debaixo da porta dele e ver se ele parava de reclamar. Ouvia a mesma música incessantemente. Era estranho 2009 começar sem insolação, malas gigantes e cansaço homérico. Cansaço tinha, mas era de pensar e de viver no sonho. Lembrou do sorriso honesto da sobrinha, que desmontava qualquer pessoa e enchia os dias de puríssima e levíssima alegria, como as músicas de Cole Porter. Achou um guardanapo na bolsa, onde tinha escrito alguns pensamentos bobos. Tentou escrever mais, até que se lembrou da sua mãe:
- Pára de se alimentar de letra, menina. Vai comer.
A menina acordou naquele final de semana frio com uma preguiça tão grande. Não queria largar o edredom roxo que abraçava. Ou ele não queria largar ela. Nem sabia dizer, de tão próximos que estavam. Só levantaria se fosse pra tomar o leite com chocolate. Alguns riam dessa fase esquisita da sua alimentação. De uma hora pra outra passou a ter vontade de comer apenas coisas de criança, como danoninho, papinha, leite e suquinho. Era tão esquisito quanto aquela mania de escrever sobre si na terceira pessoa. Parecia uma necessidade de se descolar, talvez numa tentativa de ter algum distanciamento, de ser imparcial. Totalmente em vão. O ano tinha começado tão lento. Seu corpo estava cansado. Tinha acumulado algumas enxaquecas, bronquites e tendinites no final de 2008, que tentou fazer o mar levar no último dia do ano. Leva mar, leva. Estava com saudades de casa. Entupiu o DVD com temporadas de seriados viajados demais e filmes longos demais para entreter a cabeça. Tinha mania de dormir balançando a perna, que ela tentava justificar dizendo que era coisa de criança, do berço, para se ninar. Dormir nunca foi problema, mas tinha que balançar a perna. Ultimamente andava sonhando muito. E quando acordava sentia um peso como se tivesse vivido intensamente as últimas 8 horas de sono. E dormia o dia todo para viver no sonho já que a cidade estava tão vazia. Olhava para os livros na estante e sentia falta de ler. Mas também não tinha vontade de comer, coisa tão mais essencial, então se perdoava. Os chocolates se amontoavam nas malas, na cozinha, mas tinham perdido a graça. Do que ia começar a gostar se não gostava mais de chocolate? Pela primeira vez na vida se obrigava a comer algo para não ficar doente. Comer tinha ficado chato. E o vizinho reclamava que ela dava passos com muito força. Ai, que chato. Ultimamente andava dentro da sua própria casa na ponta do pés ou de chinelinho. Pensou em ir no supermercado comprar uma vida pro vizinho. Mas a menina tinha uma felicidade tão calma que poderia dividir, colocar debaixo da porta dele e ver se ele parava de reclamar. Ouvia a mesma música incessantemente. Era estranho 2009 começar sem insolação, malas gigantes e cansaço homérico. Cansaço tinha, mas era de pensar e de viver no sonho. Lembrou do sorriso honesto da sobrinha, que desmontava qualquer pessoa e enchia os dias de puríssima e levíssima alegria, como as músicas de Cole Porter. Achou um guardanapo na bolsa, onde tinha escrito alguns pensamentos bobos. Tentou escrever mais, até que se lembrou da sua mãe:
- Pára de se alimentar de letra, menina. Vai comer.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
SEGURE A MINHA MÃO
por Maria Rita Angeiras
Ontem você disse que eu acabei a crônica antes do final. E eu concluí dolorosamente que sempre faço isso. Sou um grande ponto final que interrompe as coisas pelo medo de ir até o fim. Aí pensei em acrescentar algumas frases à crônica, mas escrever é tão difícil. Cada texto é uma confissão tirada do meu corpo para que eu não adoeça de tantos pensamentos dentro de mim, percorrendo cada canto numa velocidade astronômica. E cada frase aparentemente imperfeita tem uma perfeição que só faz sentido porque me define com uma precisão que não é literária. Uma definição crua e bruta exposta sem medo do olhar do outro, mas do meu próprio olhar. Eu me traio porque me julgo. E fico encarando a menina cheia de defeitos, tiques manias e pontos finais. Sou uma interrogação e um ponto final. Juntos. E não sei em que ordem. Porque tudo parece tão complexo que dá preguiça de analisar. Então eu pego todas as coisas que me fazem parecer uma pessoa superficial e saio de casa para fazer coisas superficiais, falar de assuntos superficiais e ser uma grande coisa superficial ambulante. Mas só durante cinco minutos, que é o tempo que eu agüento de verdade. Eu não sei sorrir sem querer sorrir. Eu não sem brincar sem querer brincar. Eu não sei ser legal sem querer ser legal. Mas quando eu sou, eu sou de forma tão completa que não existe uma parte do meu corpo que não transborde tudo isso. E meu único padrão é balançar a perna compulsivamente até fazer uma cratera no chão. E rir compulsivamente até doer a barriga. Minha confusão particular é o que me aproxima do surreal, do sonho, da loucura, do meu lado criança, do meu lado mulher, do meu lado gente, de todos os meus lados – alcançáveis ou não. Escrever é minha forma de me entender. Ponto final.
Ontem você disse que eu acabei a crônica antes do final. E eu concluí dolorosamente que sempre faço isso. Sou um grande ponto final que interrompe as coisas pelo medo de ir até o fim. Aí pensei em acrescentar algumas frases à crônica, mas escrever é tão difícil. Cada texto é uma confissão tirada do meu corpo para que eu não adoeça de tantos pensamentos dentro de mim, percorrendo cada canto numa velocidade astronômica. E cada frase aparentemente imperfeita tem uma perfeição que só faz sentido porque me define com uma precisão que não é literária. Uma definição crua e bruta exposta sem medo do olhar do outro, mas do meu próprio olhar. Eu me traio porque me julgo. E fico encarando a menina cheia de defeitos, tiques manias e pontos finais. Sou uma interrogação e um ponto final. Juntos. E não sei em que ordem. Porque tudo parece tão complexo que dá preguiça de analisar. Então eu pego todas as coisas que me fazem parecer uma pessoa superficial e saio de casa para fazer coisas superficiais, falar de assuntos superficiais e ser uma grande coisa superficial ambulante. Mas só durante cinco minutos, que é o tempo que eu agüento de verdade. Eu não sei sorrir sem querer sorrir. Eu não sem brincar sem querer brincar. Eu não sei ser legal sem querer ser legal. Mas quando eu sou, eu sou de forma tão completa que não existe uma parte do meu corpo que não transborde tudo isso. E meu único padrão é balançar a perna compulsivamente até fazer uma cratera no chão. E rir compulsivamente até doer a barriga. Minha confusão particular é o que me aproxima do surreal, do sonho, da loucura, do meu lado criança, do meu lado mulher, do meu lado gente, de todos os meus lados – alcançáveis ou não. Escrever é minha forma de me entender. Ponto final.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
O FALSO PODER
por Maria Rita Angeiras
Filhas caçulas são uma dádiva e também um perigo. São criaturas acostumadas a viver nos castelos que seus pais construíram para proteger seus sonhos e para afastar seus pesadelos com um fosso cheio de crocodilos bravos e perigosos. Filhas caçulas são uma contradição quase poética. São as últimas a nascer, mas desde o começo querem ser as primeiras em tudo: as primeiras a tomar o chocolate quente, as primeiras a entrar no carro, as primeiras a ganhar o presente, enfim, uma lista infinita de primeiros lugares conquistados com muitas brigas e chorinhos chantagistas. Porque enquanto as irmãs mais velhas batalham e aprendem a enfrentar os pais para conquistar o mundo, as filhas caçulas conseguem tudo o que querem apenas fazendo bico e cara abusada. Até que um dia elas descobrem que para viver elas precisam sair do castelo, atravessar o fosso cheio de crocodilos perigosos e engolir o choro quando a coisa apertar. E filhas caçulas são tão mimadas e teimosas que criam coragem para sair do castelo e para atravessar o fosso cheio de crocodilos perigosos, mesmo que isso lhes custe tantas lágrimas que seria possível encher o fosso de mais cem castelos com água. Mas filhas caçulas receberam e ainda recebem tanto amor que se redimem da vida espalhando ele por aí, de graça, mesmo que isso lhes custe alguns pedaços ao longo do caminho.
Filhas caçulas são uma dádiva e também um perigo. São criaturas acostumadas a viver nos castelos que seus pais construíram para proteger seus sonhos e para afastar seus pesadelos com um fosso cheio de crocodilos bravos e perigosos. Filhas caçulas são uma contradição quase poética. São as últimas a nascer, mas desde o começo querem ser as primeiras em tudo: as primeiras a tomar o chocolate quente, as primeiras a entrar no carro, as primeiras a ganhar o presente, enfim, uma lista infinita de primeiros lugares conquistados com muitas brigas e chorinhos chantagistas. Porque enquanto as irmãs mais velhas batalham e aprendem a enfrentar os pais para conquistar o mundo, as filhas caçulas conseguem tudo o que querem apenas fazendo bico e cara abusada. Até que um dia elas descobrem que para viver elas precisam sair do castelo, atravessar o fosso cheio de crocodilos perigosos e engolir o choro quando a coisa apertar. E filhas caçulas são tão mimadas e teimosas que criam coragem para sair do castelo e para atravessar o fosso cheio de crocodilos perigosos, mesmo que isso lhes custe tantas lágrimas que seria possível encher o fosso de mais cem castelos com água. Mas filhas caçulas receberam e ainda recebem tanto amor que se redimem da vida espalhando ele por aí, de graça, mesmo que isso lhes custe alguns pedaços ao longo do caminho.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
A FELICIDADE É UMA GOTA DE CHUVA
por Maria Rita Angeiras
Não tenho resoluções para 2009 porque em 2009 eu não vou ficar esperando. Não vou ficar esperando a vida ser linda, justa e perfeita. Prefiro a felicidade torta, a felicidade no detalhe, aquela que vira a esquina e te encontra de surpresa no meio da rua, deixando um sorrisinho bobo no rosto enquanto passa discreta e desapercebida no meio da maioria, que está alvoroçada demais com o sinal vermelho ou com o tic-tac do relógio. Por isso, na muvuca da meia-noite, vou dar uma folga para o meu santo e não vou encher ele de pedidos, enquanto as sete ondas batem no joelho. Mudei minha filosofia. Estou descobrindo o que eu não quero da vida. E sabendo o que eu não quero da vida, me abro pra todas as outras coisas que ela quiser me trazer. Assim, em vez de pedir um uma blusa rosa com um desenho na frente, vou deixar bem claro para os astros que em 2009 não quero nada básico. É menos frustrante. Então que tal esse ano você não pedir aquele emprego perfeito, bem localizado e que te pague o dobro do que você ganha hoje? Experimente uma conversa franca com seu orixá. Algo como “então, colega, é o seguinte: em 2009 tu vai continuar aí na boa, de vestidinho branco, turbante e comendo acarajé na rede, mas dá uma forcinha pra rolar uma graninha extra pra mim, ok?”. Quem sabe, no lugar do emprego perfeito, ele não vai te dar uma forcinha pra você acertar seis dezenas e levar 22 milhões pra casa? Resumindo: seja menos específico, podem aparecer coisas melhores, novas, surpreendentes. Assim, quando a onda bater no seu joelho, você vai estar preparado pra tudo: seja uma conchinha ou um sargaço. É tudo uma questão de postura, não seja exigente demais com a vida. Felicidade é quem nem gota de chuva: cai magicamente do céu durante 1.200 metros até voltar pro chão. O lado bom é que amanhã ela pode virar nuvem de novo.
Não tenho resoluções para 2009 porque em 2009 eu não vou ficar esperando. Não vou ficar esperando a vida ser linda, justa e perfeita. Prefiro a felicidade torta, a felicidade no detalhe, aquela que vira a esquina e te encontra de surpresa no meio da rua, deixando um sorrisinho bobo no rosto enquanto passa discreta e desapercebida no meio da maioria, que está alvoroçada demais com o sinal vermelho ou com o tic-tac do relógio. Por isso, na muvuca da meia-noite, vou dar uma folga para o meu santo e não vou encher ele de pedidos, enquanto as sete ondas batem no joelho. Mudei minha filosofia. Estou descobrindo o que eu não quero da vida. E sabendo o que eu não quero da vida, me abro pra todas as outras coisas que ela quiser me trazer. Assim, em vez de pedir um uma blusa rosa com um desenho na frente, vou deixar bem claro para os astros que em 2009 não quero nada básico. É menos frustrante. Então que tal esse ano você não pedir aquele emprego perfeito, bem localizado e que te pague o dobro do que você ganha hoje? Experimente uma conversa franca com seu orixá. Algo como “então, colega, é o seguinte: em 2009 tu vai continuar aí na boa, de vestidinho branco, turbante e comendo acarajé na rede, mas dá uma forcinha pra rolar uma graninha extra pra mim, ok?”. Quem sabe, no lugar do emprego perfeito, ele não vai te dar uma forcinha pra você acertar seis dezenas e levar 22 milhões pra casa? Resumindo: seja menos específico, podem aparecer coisas melhores, novas, surpreendentes. Assim, quando a onda bater no seu joelho, você vai estar preparado pra tudo: seja uma conchinha ou um sargaço. É tudo uma questão de postura, não seja exigente demais com a vida. Felicidade é quem nem gota de chuva: cai magicamente do céu durante 1.200 metros até voltar pro chão. O lado bom é que amanhã ela pode virar nuvem de novo.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
O GATO FILÓSOFO
por Maria Rita Angeiras
Brigou com o lençol a noite inteira. Fazia frio. Fazia calor. Fazia frio. Fazia calor. Fazia frio. Fazia calor. Independentemente disso, a menina adorava edredon. Era a melhor coisa de dormir, assim como chocolate batido era a melhor coisa de acordar. Dizia que era como um abraço no meio da sonolência matinal. Uau, o mundo estava girando. Pediu pro mundo parar logo de girar porque ela precisava descer da cama e tocar a vida. Estirou o corpo no sofá e se espreguiçou até sentir que seus 1.65m tinham se transformado em 1.70m. Não sabia se comia alguma coisa depois do leite com chocolate. E por pensar em comida, lembrou que nos últimos tempos tinha enjoado de certas coisas. Pegou pavor de pipoca, de brinco grande, de esmalte colorido, de chocolate em barra, de arroz molhado, de macarrão, de cabelo grande. De tão cansada, o braço deslizou pelo sofá e foi até o chão, como se procurasse alisar os pêlos macios do seu pseudo-gato-imaginário, o Ulisses. Imaginou que ele fosse cinza, meio sem graça, sem jeito, mas com dois olhos vivos. Assim ela poderia olhar pra ele com cumplicidade quando sentisse medo do escuro ou quando tivesse dúvida entre pegar um filme ou passar a tarde de domingo cochilando. Ulisses entenderia só com um olhar, ela tinha certeza. Por outro lado, sabia que Ulisses só apareceria em sua vida como fruto de um acaso e não de uma decisão pensada. Um dia ele simplesmente surgiria na sua frente, andando na calçada, pedindo pra ser levado pra uma cama quentinha ou implorando um afago matinal. Ela também esperava por ele. Acreditava que até bicho é encontro de vida. Vai ser o Ulisses - não um Rex ou um Totó qualquer. Sentiu falta de Ulisses mesmo sem conhecê-lo. E chegou a sentir uma tristeza profunda por não saber quando ele viria. O peito ficou apertado. Não queria ir trabalhar. Queria mesmo era sentar ali no chão gelado e esperar por ele. Ulisses tinha páginas e páginas de histórias mesmo sem sequer ser. Tudo isso porque Clarice conhecia Lóri, que certa vez conheceu Ulisses, e que um dia ia conhecer a menina com a bunda sentada no chão.
Brigou com o lençol a noite inteira. Fazia frio. Fazia calor. Fazia frio. Fazia calor. Fazia frio. Fazia calor. Independentemente disso, a menina adorava edredon. Era a melhor coisa de dormir, assim como chocolate batido era a melhor coisa de acordar. Dizia que era como um abraço no meio da sonolência matinal. Uau, o mundo estava girando. Pediu pro mundo parar logo de girar porque ela precisava descer da cama e tocar a vida. Estirou o corpo no sofá e se espreguiçou até sentir que seus 1.65m tinham se transformado em 1.70m. Não sabia se comia alguma coisa depois do leite com chocolate. E por pensar em comida, lembrou que nos últimos tempos tinha enjoado de certas coisas. Pegou pavor de pipoca, de brinco grande, de esmalte colorido, de chocolate em barra, de arroz molhado, de macarrão, de cabelo grande. De tão cansada, o braço deslizou pelo sofá e foi até o chão, como se procurasse alisar os pêlos macios do seu pseudo-gato-imaginário, o Ulisses. Imaginou que ele fosse cinza, meio sem graça, sem jeito, mas com dois olhos vivos. Assim ela poderia olhar pra ele com cumplicidade quando sentisse medo do escuro ou quando tivesse dúvida entre pegar um filme ou passar a tarde de domingo cochilando. Ulisses entenderia só com um olhar, ela tinha certeza. Por outro lado, sabia que Ulisses só apareceria em sua vida como fruto de um acaso e não de uma decisão pensada. Um dia ele simplesmente surgiria na sua frente, andando na calçada, pedindo pra ser levado pra uma cama quentinha ou implorando um afago matinal. Ela também esperava por ele. Acreditava que até bicho é encontro de vida. Vai ser o Ulisses - não um Rex ou um Totó qualquer. Sentiu falta de Ulisses mesmo sem conhecê-lo. E chegou a sentir uma tristeza profunda por não saber quando ele viria. O peito ficou apertado. Não queria ir trabalhar. Queria mesmo era sentar ali no chão gelado e esperar por ele. Ulisses tinha páginas e páginas de histórias mesmo sem sequer ser. Tudo isso porque Clarice conhecia Lóri, que certa vez conheceu Ulisses, e que um dia ia conhecer a menina com a bunda sentada no chão.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
RONNIE VON YANKEE
por Maria Rita Angeiras
Um sorrisinho discreto e particular no meio da tarde. Mexendo no programa de música dos outros, acabo encontrando um clássico teen da minha época. Nada dessa babaquice emocional e pseudo-educativa do High School Musical dos tempos de hoje. Bed of Roses, do Bon Jovi. Pode rir, é realmente cafona. Mas naquela idade ele era o cara bonitinho, loiro e sujo brincando de ser rockstar. Que menina não sofreu por amor embalada por uma canção de Bon Jovi? Porque enquanto a Disney iludia a gente com essa história de príncipe encantado e amor pra vida inteira, Bon Jovi passava a real e esperneava “you said you cried a thousand rivers and now you’re swimming to the shore... and left me drowning in my tears, and you won’t save me anymore”. Bon Jovi educou uma geração inteira de mulheres a sofrer por dor de cotovelo. Nos tornamos reféns do amor não-correspondido, da traição e das paixões avassaladoras. Não tinha a menor graça amar e ser amada. Cai fora, Cinderela. Bom mesmo era ouvir Bon Jovi e se identificar com toda aquela desgraça emocional sem fim. E isso sem falar nos clipes meio rock-pop-faroeste, com direito a muita poeira, guitarras bregas e cabelos esvoançantes. Mas eu apaixonei de verdade por Jon Bon Jovi quando tinha uns 13 anos e ouvi “Always” no CD da minha irmã. Devo ter escutado umas quinhentas vezes. Ô musiquinha sofrida... ganha de música sertaneja com uma facilidade absurda. Aliás, as semelhanças entre Xororó e Bon Jovi já começam nas calças de couro mega apertadas e nos cintos com fivelas homéricas. Pois é, o lado bom é que essa fase de música trash da adolescência passou. Já essa história de sofrer por amor... bem, isso a Disney nunca vai tirar da gente.
Um sorrisinho discreto e particular no meio da tarde. Mexendo no programa de música dos outros, acabo encontrando um clássico teen da minha época. Nada dessa babaquice emocional e pseudo-educativa do High School Musical dos tempos de hoje. Bed of Roses, do Bon Jovi. Pode rir, é realmente cafona. Mas naquela idade ele era o cara bonitinho, loiro e sujo brincando de ser rockstar. Que menina não sofreu por amor embalada por uma canção de Bon Jovi? Porque enquanto a Disney iludia a gente com essa história de príncipe encantado e amor pra vida inteira, Bon Jovi passava a real e esperneava “you said you cried a thousand rivers and now you’re swimming to the shore... and left me drowning in my tears, and you won’t save me anymore”. Bon Jovi educou uma geração inteira de mulheres a sofrer por dor de cotovelo. Nos tornamos reféns do amor não-correspondido, da traição e das paixões avassaladoras. Não tinha a menor graça amar e ser amada. Cai fora, Cinderela. Bom mesmo era ouvir Bon Jovi e se identificar com toda aquela desgraça emocional sem fim. E isso sem falar nos clipes meio rock-pop-faroeste, com direito a muita poeira, guitarras bregas e cabelos esvoançantes. Mas eu apaixonei de verdade por Jon Bon Jovi quando tinha uns 13 anos e ouvi “Always” no CD da minha irmã. Devo ter escutado umas quinhentas vezes. Ô musiquinha sofrida... ganha de música sertaneja com uma facilidade absurda. Aliás, as semelhanças entre Xororó e Bon Jovi já começam nas calças de couro mega apertadas e nos cintos com fivelas homéricas. Pois é, o lado bom é que essa fase de música trash da adolescência passou. Já essa história de sofrer por amor... bem, isso a Disney nunca vai tirar da gente.
domingo, 2 de novembro de 2008
NÃO TENTE ME ENTENDER
por Maria Rita Angeiras
Uma dorzinha. Que não sei se é física ou mais uma angústia no peito, talvez um aperto. Um aperto bem forte, que me tira o sono, que não me deixa em paz. Desconfio ser um desconforto. Um desconforto de ter muitas perguntas e de não conhecer muita gente que possa respondê-las. Sinto. E sinto mais do que muita gente. Meu pensamento, que tem a mesma simplicidade da teoria do caos, deixa meu coração pequeno, mesmo que eu tenha um coração que tenha espaço para muita gente, muita saudade e muitos sentimentos que nem têm nome. Tenho uma imensa vontade de dormir, talvez para não pensar. Pensar dá preguiça porque minha cabeça é complexa demais para se ater com coisas bobas como a previsão do tempo ou a nova tendência da moda em Tóquio. Minha cabeça atinge um ponto mágico, o limiar entre a lucidez e a loucura doida e redundante das coisas que pouca gente tem coragem de descrever. Uma loucura imensamente lúcida, mascaradamente pacífica, delimitada apenas pelas minhas mãos, meus braços, meu pescoço, minha barriga, meu corpo, meus pés e meu cabelo. Tudo me percorre e faz parte de mim como um órgão vivo, latejante, presente. E o tudo me preocupa porque o tudo não tem fim. E eu nem sei onde começa esse tudo, o que desperta essa minha vontade de descobrir, de falar sem fazer o menor sentido e sem necessidade alguma de ser entendida. Eu não quero ser isto ou aquilo. Prefiro ser centenas de coisas diferentes. Feliz, doce, ácida, carinhosa, vibrante, calma, profunda, rasa, simples, complexa. Não trabalho com padrões. Jamais seria uma sopa. Sopa de tomate. Sopa de tomate enlatada. Sopa de tomate enlatada para microondas. Eu não sou uma sopa porque não sou classificável, decifrável, nem tenho rótulo. Sou, antes, dois olhos pretos, grandes, vivos, inquietos, piscantes, abertos para o mundo, para as pessoas.
Uma dorzinha. Que não sei se é física ou mais uma angústia no peito, talvez um aperto. Um aperto bem forte, que me tira o sono, que não me deixa em paz. Desconfio ser um desconforto. Um desconforto de ter muitas perguntas e de não conhecer muita gente que possa respondê-las. Sinto. E sinto mais do que muita gente. Meu pensamento, que tem a mesma simplicidade da teoria do caos, deixa meu coração pequeno, mesmo que eu tenha um coração que tenha espaço para muita gente, muita saudade e muitos sentimentos que nem têm nome. Tenho uma imensa vontade de dormir, talvez para não pensar. Pensar dá preguiça porque minha cabeça é complexa demais para se ater com coisas bobas como a previsão do tempo ou a nova tendência da moda em Tóquio. Minha cabeça atinge um ponto mágico, o limiar entre a lucidez e a loucura doida e redundante das coisas que pouca gente tem coragem de descrever. Uma loucura imensamente lúcida, mascaradamente pacífica, delimitada apenas pelas minhas mãos, meus braços, meu pescoço, minha barriga, meu corpo, meus pés e meu cabelo. Tudo me percorre e faz parte de mim como um órgão vivo, latejante, presente. E o tudo me preocupa porque o tudo não tem fim. E eu nem sei onde começa esse tudo, o que desperta essa minha vontade de descobrir, de falar sem fazer o menor sentido e sem necessidade alguma de ser entendida. Eu não quero ser isto ou aquilo. Prefiro ser centenas de coisas diferentes. Feliz, doce, ácida, carinhosa, vibrante, calma, profunda, rasa, simples, complexa. Não trabalho com padrões. Jamais seria uma sopa. Sopa de tomate. Sopa de tomate enlatada. Sopa de tomate enlatada para microondas. Eu não sou uma sopa porque não sou classificável, decifrável, nem tenho rótulo. Sou, antes, dois olhos pretos, grandes, vivos, inquietos, piscantes, abertos para o mundo, para as pessoas.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
1... 2... 3.
por Maria Rita Angeiras
Quando eu era pequena, você tinha uma técnica incrível para me fazer sorrir quando eu estava chateada, principalmente se era com alguma coisa que você tinha feito. Você olhava para mim e dizia: “vou contar até três para você dar um sorriso... um... dois... três”. Eu achava que você era mágico. E não importava se eu estivesse com a maior cara emburrada do mundo, você sempre conseguia me fazer sorrir - e antes mesmo de chegar no três.
Eu queria tanto que hoje, especialmente hoje, você me fizesse sorrir antes do três, e fizesse esse sorriso durar muito, mas muito tempo, nem que você tivesse que contar até três quinhentas vezes por dia sem se cansar. Hoje eu queria superar os três mil quilômetros que nos separam só para você me fazer sentir a menina mais protegida do mundo, nem que você tivesse que me colocar numa bolha e depois me guardar num cofre – logo eu que, que andei três mil quilômetros para conhecer o mundo fora dessa bolha e desse cofre.
Hoje também queria ter a plena certeza de que contar até três faria qualquer problema sumir. Então eu te ligaria e pediria para você me lembrar como eu sou sortuda por ter alguém que consegue arrancar um sorrisinho de canto de boca com uma brincadeira tão boba. Hoje também queria que o seu poder de contar até três se estendesse para muitas coisas. Por exemplo: se você contasse até três e eu aparecesse por aí. Se você contasse até três e tudo que é ruim desaparecesse. Se você contasse até três e o sol invadisse a minha janela, afastando todas as nuvens pretas que insistem em ficar no céu há 20 dias.
E se você era o meu super-herói, então contar até três era o seu super-poder. E por causa desse seu super-poder, eu te prometo que daqui pra frente só vou me apaixonar por alguém que me faça sorrir tão facilmente quanto você.
Quando eu era pequena, você tinha uma técnica incrível para me fazer sorrir quando eu estava chateada, principalmente se era com alguma coisa que você tinha feito. Você olhava para mim e dizia: “vou contar até três para você dar um sorriso... um... dois... três”. Eu achava que você era mágico. E não importava se eu estivesse com a maior cara emburrada do mundo, você sempre conseguia me fazer sorrir - e antes mesmo de chegar no três.
Eu queria tanto que hoje, especialmente hoje, você me fizesse sorrir antes do três, e fizesse esse sorriso durar muito, mas muito tempo, nem que você tivesse que contar até três quinhentas vezes por dia sem se cansar. Hoje eu queria superar os três mil quilômetros que nos separam só para você me fazer sentir a menina mais protegida do mundo, nem que você tivesse que me colocar numa bolha e depois me guardar num cofre – logo eu que, que andei três mil quilômetros para conhecer o mundo fora dessa bolha e desse cofre.
Hoje também queria ter a plena certeza de que contar até três faria qualquer problema sumir. Então eu te ligaria e pediria para você me lembrar como eu sou sortuda por ter alguém que consegue arrancar um sorrisinho de canto de boca com uma brincadeira tão boba. Hoje também queria que o seu poder de contar até três se estendesse para muitas coisas. Por exemplo: se você contasse até três e eu aparecesse por aí. Se você contasse até três e tudo que é ruim desaparecesse. Se você contasse até três e o sol invadisse a minha janela, afastando todas as nuvens pretas que insistem em ficar no céu há 20 dias.
E se você era o meu super-herói, então contar até três era o seu super-poder. E por causa desse seu super-poder, eu te prometo que daqui pra frente só vou me apaixonar por alguém que me faça sorrir tão facilmente quanto você.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
DOMINGO NÃO É DIA DE TELEVISÃO
por Maria Rita Angeiras
Os domingos são como aqueles dias em que você não consegue esquentar os pés nem dormir da dor que o frio faz na coluna. Também são a inquietação dos pombos, a isenção das estátuas e a melancolia das músicas francesas. Domingo é quase clichê, lugar-comum e palavra fácil de achar em bula de antidepressivo. É como água fria na barriga, chuva na praia, livro rasgado, café frio, nome esquecido, chiclete sem gosto, beijo mal dado, história sem final, meia sem par e pior que TPM. Domingo é dia de saudade que incomoda como relógio parado, música arranhada e sinal quebrado. É por isso que as pessoas rezam aos domingos. Elas rezam do domingo mortal, do aperto no coração e do medo constante do recomeço. Domingo é dia de lembrança que não sai da cabeça e dos piores programas de televisão. Eu acordo, almoço, saio, brinco e a barriga dói de tanto rir, mas eu sempre lembro.
Eu sinto saudades. Eu sinto falta de beijo de mãe e pai. Eu sinto falta do calor anestesiante. Eu sinto falta de almoço de família - mais da família que do almoço, pra falar a verdade. Eu sinto falta de nada às vezes ser estranho ou novo. Eu sinto falta de não me preocupar. Eu sinto falta de irmãs, cunhados, primos e outros parentescos que ainda nem têm nome no dicionário. Eu sinto falta de comida quente. Eu sinto falta de não usar a chave de casa. Eu sinto falta de não sentir falta de nada. Mas eu sou feliz como quem visita Paris pela primeira vez e se sente parte de uma coisa absurdamente recorrente, grande e poética; feliz como quem lê os livros de Clarice Lispector com um lápis na mão e fica levemente triste por não ter escrito aquilo antes, mas imensamente feliz por ela ter escrito magnificamente; feliz como quem visita uma praia paradisíaca e vê a vista mil vezes sem deixar de achar sempre linda; feliz como quem dorme na areia da praia e acorda com uma maresia extasiante, uma insolação quase febril de inconsciência do resto do mundo; feliz como quem dança a noite inteira e sente um cansaço físico bom; feliz como quem divide um guarda-chuva com um estranho ou apenas como quem é feliz assim, de graça, só porque se deve ser mesmo.
Eu não rezo aos domingos, mas tenho medo do que, às vezes, o domingo faz com as pessoas – e comigo. E peço não-sei-pra-quem pra ele acabar logo, por favor. Porque é preciso ser feliz, muito feliz.
Os domingos são como aqueles dias em que você não consegue esquentar os pés nem dormir da dor que o frio faz na coluna. Também são a inquietação dos pombos, a isenção das estátuas e a melancolia das músicas francesas. Domingo é quase clichê, lugar-comum e palavra fácil de achar em bula de antidepressivo. É como água fria na barriga, chuva na praia, livro rasgado, café frio, nome esquecido, chiclete sem gosto, beijo mal dado, história sem final, meia sem par e pior que TPM. Domingo é dia de saudade que incomoda como relógio parado, música arranhada e sinal quebrado. É por isso que as pessoas rezam aos domingos. Elas rezam do domingo mortal, do aperto no coração e do medo constante do recomeço. Domingo é dia de lembrança que não sai da cabeça e dos piores programas de televisão. Eu acordo, almoço, saio, brinco e a barriga dói de tanto rir, mas eu sempre lembro.
Eu sinto saudades. Eu sinto falta de beijo de mãe e pai. Eu sinto falta do calor anestesiante. Eu sinto falta de almoço de família - mais da família que do almoço, pra falar a verdade. Eu sinto falta de nada às vezes ser estranho ou novo. Eu sinto falta de não me preocupar. Eu sinto falta de irmãs, cunhados, primos e outros parentescos que ainda nem têm nome no dicionário. Eu sinto falta de comida quente. Eu sinto falta de não usar a chave de casa. Eu sinto falta de não sentir falta de nada. Mas eu sou feliz como quem visita Paris pela primeira vez e se sente parte de uma coisa absurdamente recorrente, grande e poética; feliz como quem lê os livros de Clarice Lispector com um lápis na mão e fica levemente triste por não ter escrito aquilo antes, mas imensamente feliz por ela ter escrito magnificamente; feliz como quem visita uma praia paradisíaca e vê a vista mil vezes sem deixar de achar sempre linda; feliz como quem dorme na areia da praia e acorda com uma maresia extasiante, uma insolação quase febril de inconsciência do resto do mundo; feliz como quem dança a noite inteira e sente um cansaço físico bom; feliz como quem divide um guarda-chuva com um estranho ou apenas como quem é feliz assim, de graça, só porque se deve ser mesmo.
Eu não rezo aos domingos, mas tenho medo do que, às vezes, o domingo faz com as pessoas – e comigo. E peço não-sei-pra-quem pra ele acabar logo, por favor. Porque é preciso ser feliz, muito feliz.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
VOCÊ NÃO MERECE COLE PORTER
por Maria Rita Angeiras
- Você não merece Cole Porter.
O Cole Porter que invade minha sala com levíssima e puríssima alegria quando canta You’re The Top. Pra falar a verdade, você não merece sequer a Beyoncé tentando disfarçar a falta de cultura musical enquanto rebola aquela bunda homérica nas nossas televisões. Você merece - e disso eu tenho certeza - Latino cantando Festa no Apê no programa do Faustão. Então eu decidi que não vou investir em mais ninguém que não mereça Cole Porter, Henry Gray, The Beach Boys, a cantora francesa, a cantora de jazz ou a trilha de My Blueberry Nights. Você não merece Cole Porter. Woody Allen estava certíssimo. Pra quê ficar gastando tempo com gente que simplesmente não merece certas coisas? Então eu não vou lembrar de você, ou de vocês, enquanto escuto nenhum deles. Também não vou lembrar de você quando for rever, pela enésima vez, os filmes que eu gosto. Tampouco vou lembrar de você quando assistir Cenas de um Casamento, de Bergman. Porque apesar do casamento deles acabar logo no começo do filme, o amor que eles tinham um pelo outro era realmente bonito. É isso. Cole Porter simplesmente não merece que eu pense em você enquanto ele canta embalado pelo jazz. Mas se o Latino aparecer na televisão disparando Festa no Apê ou se a Toni Braxton cantar Unbreak my Heart no rádio, eu vou lembrar de você, meu bem. Eu prometo.
- Você não merece Cole Porter.
O Cole Porter que invade minha sala com levíssima e puríssima alegria quando canta You’re The Top. Pra falar a verdade, você não merece sequer a Beyoncé tentando disfarçar a falta de cultura musical enquanto rebola aquela bunda homérica nas nossas televisões. Você merece - e disso eu tenho certeza - Latino cantando Festa no Apê no programa do Faustão. Então eu decidi que não vou investir em mais ninguém que não mereça Cole Porter, Henry Gray, The Beach Boys, a cantora francesa, a cantora de jazz ou a trilha de My Blueberry Nights. Você não merece Cole Porter. Woody Allen estava certíssimo. Pra quê ficar gastando tempo com gente que simplesmente não merece certas coisas? Então eu não vou lembrar de você, ou de vocês, enquanto escuto nenhum deles. Também não vou lembrar de você quando for rever, pela enésima vez, os filmes que eu gosto. Tampouco vou lembrar de você quando assistir Cenas de um Casamento, de Bergman. Porque apesar do casamento deles acabar logo no começo do filme, o amor que eles tinham um pelo outro era realmente bonito. É isso. Cole Porter simplesmente não merece que eu pense em você enquanto ele canta embalado pelo jazz. Mas se o Latino aparecer na televisão disparando Festa no Apê ou se a Toni Braxton cantar Unbreak my Heart no rádio, eu vou lembrar de você, meu bem. Eu prometo.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
EU PREFIRO QUE MINHA DOR VIRE UM FILME DE BERGMAN
por Maria Rita Angeiras
Domingo eu fui no restaurante e vi um casal sentado ao lado. Eles não conversavam, simplesmente encaravam os garçons com olhos perdidos, desejando desesperadamente que o prato chegasse logo para que eles pudessem encher a boca de comida e evitar aquele silêncio. Lembrei de quantos casais assim eu já vi. Tem gente que diz que a maior prova de intimidade que existe é você ficar calado ao lado de uma pessoa sem se sentir constrangido. Eu concordo, mas acho que não se aplica. O que eu acho é que, hoje em dia, todo mundo acaba topando qualquer um que aparece pelo frente, no desespero de não ter que ficar sozinho ou de agüentar a própria falta de conteúdo num domingo solitário. Então o fulano acaba encarando a fulana chata e desinteressante que usa a calça tão apertada que mal pode respirar, enquanto ele prefere calça folgada e sandália havaiana. Ou a beltrana que exibe heroicamente para as amigas o beltrano conquistado na balada, apesar de achar ele frio e machista. “Mas ele é advogado, tem futuro e minha mãe vai gostar”, diz ela. Aí essas pessoas com total falta de afinidade ficam sentadas nas mesas, brincando com o celular ou balançando o copo, tentando disfarçar o tédio. Eu sou contra. Prefiro que a história da minha vida vire um blues triste a topar qualquer um por aí. Prefiro que meus erros sirvam de base para um novo ditado popular chinês. Prefiro que minha procura eterna vire um seriado com aquelas risadas gravadas. Prefiro virar motivo de tristeza de bêbado. Prefiro virar poema pichado no muro. Prefiro que minha dor vire um filme de Bergman. Se puder, em duas fitas e em preto e branco.
Domingo eu fui no restaurante e vi um casal sentado ao lado. Eles não conversavam, simplesmente encaravam os garçons com olhos perdidos, desejando desesperadamente que o prato chegasse logo para que eles pudessem encher a boca de comida e evitar aquele silêncio. Lembrei de quantos casais assim eu já vi. Tem gente que diz que a maior prova de intimidade que existe é você ficar calado ao lado de uma pessoa sem se sentir constrangido. Eu concordo, mas acho que não se aplica. O que eu acho é que, hoje em dia, todo mundo acaba topando qualquer um que aparece pelo frente, no desespero de não ter que ficar sozinho ou de agüentar a própria falta de conteúdo num domingo solitário. Então o fulano acaba encarando a fulana chata e desinteressante que usa a calça tão apertada que mal pode respirar, enquanto ele prefere calça folgada e sandália havaiana. Ou a beltrana que exibe heroicamente para as amigas o beltrano conquistado na balada, apesar de achar ele frio e machista. “Mas ele é advogado, tem futuro e minha mãe vai gostar”, diz ela. Aí essas pessoas com total falta de afinidade ficam sentadas nas mesas, brincando com o celular ou balançando o copo, tentando disfarçar o tédio. Eu sou contra. Prefiro que a história da minha vida vire um blues triste a topar qualquer um por aí. Prefiro que meus erros sirvam de base para um novo ditado popular chinês. Prefiro que minha procura eterna vire um seriado com aquelas risadas gravadas. Prefiro virar motivo de tristeza de bêbado. Prefiro virar poema pichado no muro. Prefiro que minha dor vire um filme de Bergman. Se puder, em duas fitas e em preto e branco.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
MOMENT AVEC DOISNEAU
por Maria Rita Angeiras
Minha casa agora tem uma vista para Paris. Do sofá consigo ver um museu antigo, que desconheço a origem, um velhinho sentado na praça com um cachorrinho simpático e a boa e velha Torre Eiffel. Às vezes me transporto lá pra dentro e finjo agüentar o frio e me seguro pra não escorregar na neve. Nessa hora Robert segura o meu braço e tenho certeza de que ele devia ser um cara bem mais interessante do que todos que tenho conhecido. Alguém com aquele olhar e aquela percepção não olharia para a primeira bunda que passasse ao lado. E se olhasse, eu nem me incomodaria, pois a tal bunda deveria ser fenomenal mesmo para merecer a atenção dele. Passeando pelas ruas, naquele frio estarrecedor, começo a rezar para aparecer alguma cafeteria. “Um macchiato e... Robert, o que você vai querer?”. Sentamos numa mesinha aconchegante bem próxima à janela. O vidro está gelado, então evito encostar para não esfriar o resto do corpo em poucos segundos. O tom amarelado das lâmpadas e o clima intimista começam a sobrepor o tom preto e branco das cenas anteriores. Robert pede um Marlboro Red, com seu francês preguiçoso, e vai até a porta. Do canto posso ver a fumaça do frio misturada à fumaça dos cigarros. A cena daria uma boa fotografia, imagino. Meus dedos começam a congelar, então encosto-os junto à xícara, que tem um charme antigo, e começo a imaginar quantos outros dedos já se esquentaram ali. Robert entra e começa a me contar histórias interessantes, todas devidamente visualizadas em preto e branco. Enquanto ele fala, eu observo as pessoas em volta, como se fossem personagens vivos, acompanhados de um cheiro incrível de croissant quentinho. Algumas horas depois, deixamos o café, e voltamos a nos arriscar na neve. Eu me despeço de Robert, subo para o meu apartamento pequeno e charmoso e deito no sofá. Mas Paris continua ali, ao alcance da minha parede.
Minha casa agora tem uma vista para Paris. Do sofá consigo ver um museu antigo, que desconheço a origem, um velhinho sentado na praça com um cachorrinho simpático e a boa e velha Torre Eiffel. Às vezes me transporto lá pra dentro e finjo agüentar o frio e me seguro pra não escorregar na neve. Nessa hora Robert segura o meu braço e tenho certeza de que ele devia ser um cara bem mais interessante do que todos que tenho conhecido. Alguém com aquele olhar e aquela percepção não olharia para a primeira bunda que passasse ao lado. E se olhasse, eu nem me incomodaria, pois a tal bunda deveria ser fenomenal mesmo para merecer a atenção dele. Passeando pelas ruas, naquele frio estarrecedor, começo a rezar para aparecer alguma cafeteria. “Um macchiato e... Robert, o que você vai querer?”. Sentamos numa mesinha aconchegante bem próxima à janela. O vidro está gelado, então evito encostar para não esfriar o resto do corpo em poucos segundos. O tom amarelado das lâmpadas e o clima intimista começam a sobrepor o tom preto e branco das cenas anteriores. Robert pede um Marlboro Red, com seu francês preguiçoso, e vai até a porta. Do canto posso ver a fumaça do frio misturada à fumaça dos cigarros. A cena daria uma boa fotografia, imagino. Meus dedos começam a congelar, então encosto-os junto à xícara, que tem um charme antigo, e começo a imaginar quantos outros dedos já se esquentaram ali. Robert entra e começa a me contar histórias interessantes, todas devidamente visualizadas em preto e branco. Enquanto ele fala, eu observo as pessoas em volta, como se fossem personagens vivos, acompanhados de um cheiro incrível de croissant quentinho. Algumas horas depois, deixamos o café, e voltamos a nos arriscar na neve. Eu me despeço de Robert, subo para o meu apartamento pequeno e charmoso e deito no sofá. Mas Paris continua ali, ao alcance da minha parede.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
SORRIA, MEU BEM, SORRIA
por Maria Rita Angeiras
Depois de me examinar, ao longo de muitos anos, cheguei à seguinte nomenclatura médica, ou diagnóstico: Síndrome de Preguiça das Pessoas. Não, eu não sou chata, simplesmente tenho preguiça de pessoas desinteressantes ou, nos dias em que a SPP ataca pra valer, de pessoas novas.
É isso: tenho preguiça de fingir me interessar por pessoas aparentemente comuns ou de fingir que estou muito a fim de abrir minha vida, minhas confissões e meus assuntos para um total desconhecido. É mais forte do que eu. Tenho preguiça do social. Então fico sentada, de braços cruzados, com um sorriso pronto de canto de boca, para o caso de alguém fazer um comentário na minha direção. É como ter um daqueles amigos que falam super rápido ou super baixo e você só fala “aham” ou “pois é”, a cada 10 segundos. Ou, ainda, “é foda”, se a expressão da pessoa estiver triste.
Tenho preguiça de pessoas “centro do universo”, tenho preguiça de pessoas “vitima da sociedade”, tenho preguiça de pessoas “i’m the best, fuck the rest”, tenho preguiça de pessoas “olha como eu sou legal” ou “olha como eu sou feliz”, ou “olha pra mim, olha pra mim”. Tenho preguiça de pessoas que demoram uma eternidade pra falar, tenho preguiça de pessoas materialistas, tenho preguiça dos falsos cults, tenho preguiça dos “eu não vivo sem meu grupinho”, enfim, a lista é longa e dá preguiça de relembrar.
A verdade é que o mundo está cheio de gente igual, chata, desinteressante e sem assunto. Mas, por outro lado, aposto que existem por aí milhares de pessoas muito mais bacanas e muito mais legais do que eu, e que eu acabo deixando de fazer vários amigos por causa desse problema. Fazer o quê? Como a Síndrome acabou de ser identificada, ainda não tem tratamento.
Depois de me examinar, ao longo de muitos anos, cheguei à seguinte nomenclatura médica, ou diagnóstico: Síndrome de Preguiça das Pessoas. Não, eu não sou chata, simplesmente tenho preguiça de pessoas desinteressantes ou, nos dias em que a SPP ataca pra valer, de pessoas novas.
É isso: tenho preguiça de fingir me interessar por pessoas aparentemente comuns ou de fingir que estou muito a fim de abrir minha vida, minhas confissões e meus assuntos para um total desconhecido. É mais forte do que eu. Tenho preguiça do social. Então fico sentada, de braços cruzados, com um sorriso pronto de canto de boca, para o caso de alguém fazer um comentário na minha direção. É como ter um daqueles amigos que falam super rápido ou super baixo e você só fala “aham” ou “pois é”, a cada 10 segundos. Ou, ainda, “é foda”, se a expressão da pessoa estiver triste.
Tenho preguiça de pessoas “centro do universo”, tenho preguiça de pessoas “vitima da sociedade”, tenho preguiça de pessoas “i’m the best, fuck the rest”, tenho preguiça de pessoas “olha como eu sou legal” ou “olha como eu sou feliz”, ou “olha pra mim, olha pra mim”. Tenho preguiça de pessoas que demoram uma eternidade pra falar, tenho preguiça de pessoas materialistas, tenho preguiça dos falsos cults, tenho preguiça dos “eu não vivo sem meu grupinho”, enfim, a lista é longa e dá preguiça de relembrar.
A verdade é que o mundo está cheio de gente igual, chata, desinteressante e sem assunto. Mas, por outro lado, aposto que existem por aí milhares de pessoas muito mais bacanas e muito mais legais do que eu, e que eu acabo deixando de fazer vários amigos por causa desse problema. Fazer o quê? Como a Síndrome acabou de ser identificada, ainda não tem tratamento.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
WELCOME TO BOLLYWOOD
por Maria Rita Angeiras
Depois de dormir 3 horas depois de quase 19 de trabalho, a menina acordou, ainda meio atordoada pelo sono e entrou no banho correndo, tinha que estar de volta para uma reunião. Seguiu para a cozinha, pegou um iogurte na geladeira e jogou na bolsa. Fez o mesmo com a meia-calça, não tinha tempo naquele momento. Para contrapor o cansaço e as olheiras, colocou seu vestidinho junino-indie e entrou no elevador. Ao dar de cara com o espelho, disparou para o nada “meu cabelo não amadurece, definitivamente”. Tudo isso alheia ao porteiro, que provavelmente acompanhava toda a movimentação da louca que fala sozinha no elevador às 7h30 da manhã. Entrou no táxi e relaxou, o sol estava maravilhoso. O dia foi realmente excelente. Campanha aprovada, sorriso no rosto do cliente e, opa, vamos voltar para a agência. O dia, que a princípio ia ser curto, ficou longo demais para tanto cansaço. Só de reunião foram umas 5 horas no total. Mas tudo bem, tudo por ótimas causas. Às 18h o sono já estava absurdo e não conseguia nem mexer o braço para trocar as músicas ruins que tocavam no computador. Chegou naquele ponto periclitante: a preguiça de voltar para casa. Criou coragem, respirou fundo e pegou o primeiro ônibus. Tudo bem, gostava de se jogar na cadeira e ficar pensando em tudo que tinha acontecido durante o dia. Era quase um momento meio terapêutico, de reflexão, quase sempre interrompido por alguém que falava alto e usava perfume barato. O que ela odiava era pegar o segundo ônibus, achava que aquilo quebrava os milhares de pensamentos e ainda fazia ela andar uns 100 metros para pegar o outro. Droga, droga, droga. Ela subiu no segundo ônibus, ouviu gente falar alto, sentiu cheiro de perfume barato e desceu – não exatamente nessa ordem e muito menos nessa rapidez. O trânsito na cidade é absurdo nesse horário. Desceu a duas ruas de casa, desviou dos carros e entrou no prédio. Ficou se encarando no mesmo elevador. A bagunça matinal do cabelo tinha assumido uma bagunça mais digna, aquela de quem trabalha o dia inteiro e de quem é muito ocupada para pensar em algo estúpido como cabelo. Abriu o apartamento, fez um queijo quente, tomou um banho e desmaiou no sofá. Tentou assistir 15 minutos de televisão, mas acabou indo pra cama. No dia seguinte, descobriu que alguém fraudou um cheque que tinha passado para um taxista – R$ 15 tinham virado R$ 800, devidamente descontados da sua conta. Depois de tentar resolver a confusão, sentou no deck do trabalho e ficou olhando as camadas de poluição. Pensou para onde teriam desviado o glamour, a fama e a fortuna. Lembrou de Bollywood (Bombai + Hollywood) – a indústria cinematográfica da Índia que faz uma releitura local das produções hollywoodianas. Uma mistura de roteiro mexicano com muito lápis de olho. Ela sorriu e pensou “this is Bollywood, definitivamente”.
Depois de dormir 3 horas depois de quase 19 de trabalho, a menina acordou, ainda meio atordoada pelo sono e entrou no banho correndo, tinha que estar de volta para uma reunião. Seguiu para a cozinha, pegou um iogurte na geladeira e jogou na bolsa. Fez o mesmo com a meia-calça, não tinha tempo naquele momento. Para contrapor o cansaço e as olheiras, colocou seu vestidinho junino-indie e entrou no elevador. Ao dar de cara com o espelho, disparou para o nada “meu cabelo não amadurece, definitivamente”. Tudo isso alheia ao porteiro, que provavelmente acompanhava toda a movimentação da louca que fala sozinha no elevador às 7h30 da manhã. Entrou no táxi e relaxou, o sol estava maravilhoso. O dia foi realmente excelente. Campanha aprovada, sorriso no rosto do cliente e, opa, vamos voltar para a agência. O dia, que a princípio ia ser curto, ficou longo demais para tanto cansaço. Só de reunião foram umas 5 horas no total. Mas tudo bem, tudo por ótimas causas. Às 18h o sono já estava absurdo e não conseguia nem mexer o braço para trocar as músicas ruins que tocavam no computador. Chegou naquele ponto periclitante: a preguiça de voltar para casa. Criou coragem, respirou fundo e pegou o primeiro ônibus. Tudo bem, gostava de se jogar na cadeira e ficar pensando em tudo que tinha acontecido durante o dia. Era quase um momento meio terapêutico, de reflexão, quase sempre interrompido por alguém que falava alto e usava perfume barato. O que ela odiava era pegar o segundo ônibus, achava que aquilo quebrava os milhares de pensamentos e ainda fazia ela andar uns 100 metros para pegar o outro. Droga, droga, droga. Ela subiu no segundo ônibus, ouviu gente falar alto, sentiu cheiro de perfume barato e desceu – não exatamente nessa ordem e muito menos nessa rapidez. O trânsito na cidade é absurdo nesse horário. Desceu a duas ruas de casa, desviou dos carros e entrou no prédio. Ficou se encarando no mesmo elevador. A bagunça matinal do cabelo tinha assumido uma bagunça mais digna, aquela de quem trabalha o dia inteiro e de quem é muito ocupada para pensar em algo estúpido como cabelo. Abriu o apartamento, fez um queijo quente, tomou um banho e desmaiou no sofá. Tentou assistir 15 minutos de televisão, mas acabou indo pra cama. No dia seguinte, descobriu que alguém fraudou um cheque que tinha passado para um taxista – R$ 15 tinham virado R$ 800, devidamente descontados da sua conta. Depois de tentar resolver a confusão, sentou no deck do trabalho e ficou olhando as camadas de poluição. Pensou para onde teriam desviado o glamour, a fama e a fortuna. Lembrou de Bollywood (Bombai + Hollywood) – a indústria cinematográfica da Índia que faz uma releitura local das produções hollywoodianas. Uma mistura de roteiro mexicano com muito lápis de olho. Ela sorriu e pensou “this is Bollywood, definitivamente”.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
10:02
por Maria Rita Angeiras
Não era do tipo que saía e acordava muito tarde como a maioria das pessoas. Ficava na cama tentando enganar o relógio biológico – chegava até a ir beber água ou tomar café de olhos fechados pra não perder o sono. Ao fazer isso às vezes batia com a cintura na cadeira, mas nem assim desistia da vontade de continuar dormindo. Em vão. Minutos depois a inquietação vencia e ela levantava novamente da cama. Então abria a porta da geladeira e ficava encarando as prateleiras por alguns minutos eternos, sempre com o braço apoiado na porta. Nessa hora se lembrava da mãe, que costumava reclamar do resultado que esse hábito causava nas contas de energia. Ao fechar a porta, sempre dava um sorriso saudoso ao ver as fotos da família. Adorava a cozinha laranja. E adorava a cozinha laranja que, alguns passos depois, dava na sala verde. E também adorava a sala verde que, alguns passos depois, dava no quarto roxo. Era tudo tão seu que fazia um sentido maior do que qualquer um podia imaginar. E as cores, que pareciam não combinar numa possível descrição, combinavam perfeitamente. Nisso todo mundo concordava. E depois de passear de camiseta com os pés no chão gelado, ligava a televisão e sentava no sofá com tecido laranja e algumas almofadas – que costumava arrumar incessantemente quando recebia visitas. Ligava a televisão por um motivo muito simples: queria se sentir normal. Gente normal acorda no sábado no meio daquela confusão da família e assiste coisas normais. Gente normal não passa o dia dançando e ouvindo a cantora de jazz até o sol se pôr e a vidinha noturna arrastar você para lugares conturbados. Então ouvia tudo sobre o futebol nacional e se cansava. Aí decidia assistir videoclipes, mas ficava chateada com aquelas mulheres estilinho hip-hop com suas bundas homéricas invadindo a tela. Desligou a televisão e substituiu a cantora de jazz pela cantora francesa, que ia ocupando aos poucos cada cômodo, dando um ar meio intimista ao lugar. Parou na frente do espelho, se olhou por um tempo, e bagunçou o cabelo, que já alcançava as costas. Riu da própria imagem ao ver os fios de cabelo se entrelaçarem, cobrindo os olhos, o nariz e parte da boca. Sempre fazia isso quando tudo parecia perfeito demais.
Não era do tipo que saía e acordava muito tarde como a maioria das pessoas. Ficava na cama tentando enganar o relógio biológico – chegava até a ir beber água ou tomar café de olhos fechados pra não perder o sono. Ao fazer isso às vezes batia com a cintura na cadeira, mas nem assim desistia da vontade de continuar dormindo. Em vão. Minutos depois a inquietação vencia e ela levantava novamente da cama. Então abria a porta da geladeira e ficava encarando as prateleiras por alguns minutos eternos, sempre com o braço apoiado na porta. Nessa hora se lembrava da mãe, que costumava reclamar do resultado que esse hábito causava nas contas de energia. Ao fechar a porta, sempre dava um sorriso saudoso ao ver as fotos da família. Adorava a cozinha laranja. E adorava a cozinha laranja que, alguns passos depois, dava na sala verde. E também adorava a sala verde que, alguns passos depois, dava no quarto roxo. Era tudo tão seu que fazia um sentido maior do que qualquer um podia imaginar. E as cores, que pareciam não combinar numa possível descrição, combinavam perfeitamente. Nisso todo mundo concordava. E depois de passear de camiseta com os pés no chão gelado, ligava a televisão e sentava no sofá com tecido laranja e algumas almofadas – que costumava arrumar incessantemente quando recebia visitas. Ligava a televisão por um motivo muito simples: queria se sentir normal. Gente normal acorda no sábado no meio daquela confusão da família e assiste coisas normais. Gente normal não passa o dia dançando e ouvindo a cantora de jazz até o sol se pôr e a vidinha noturna arrastar você para lugares conturbados. Então ouvia tudo sobre o futebol nacional e se cansava. Aí decidia assistir videoclipes, mas ficava chateada com aquelas mulheres estilinho hip-hop com suas bundas homéricas invadindo a tela. Desligou a televisão e substituiu a cantora de jazz pela cantora francesa, que ia ocupando aos poucos cada cômodo, dando um ar meio intimista ao lugar. Parou na frente do espelho, se olhou por um tempo, e bagunçou o cabelo, que já alcançava as costas. Riu da própria imagem ao ver os fios de cabelo se entrelaçarem, cobrindo os olhos, o nariz e parte da boca. Sempre fazia isso quando tudo parecia perfeito demais.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
EU SOU URGENTE
por Maria Rita Angeiras
Mal posso esperar para você entrar na minha vida atual, que depois de você ter entrado nela eu chamaria de vidinha, para me tirar das noites com lembranças de cigarro. Mal posso esperar para você me arrancar dos bares cheios de álcool e das baladas onde todo mundo balança a cabeça até o cérebro virar um liquidificador e fazer um bolo de massa cerebral. Mal posso esperar para você me resgatar das conversas bobas nos finais de noite e dos caras sem futuro. Mal posso esperar para você dizer que Sartre, Nietzsche e Schopenhauer não fazem de mim uma pessoa inteligente e que, sendo assim, isso não assusta minimamente você. Mal posso esperar para você me arrastar para a sua vida e me dizer que eu não preciso ter medo de me perder da pessoa que eu adoro ser. Mal posso esperar para você me surpreender nas horas em que eu não quero, ou não espero, porque talvez assim eu deixe de ser tão teimosa e de querer fazer tudo só quando me dá vontade. Mal posso esperar para você me dizer “não” e eu aprender a não ser sempre a caçula mimada. Mal posso esperar para você mudar meus sábados descalça e imensamente feliz ao som da cantora de jazz, porque essa é uma felicidade que eu já conheço e para viver eu preciso muito de coisas que eu ainda não conheço. Mal posso esperar para você descobrir que comigo “não” é “não” e “sim” é “sim”, porque eu odeio esses joguinhos que todo mundo inventou para supostamente se divertir. Mal posso esperar para você me dar algo para eu cuidar, logo eu, que não sei cuidar direito nem de mim. Mal posso esperar para você chegar e acalmar minha perna que vive balançando embaixo da mesa, acalmar meu olhar impaciente e acalmar essa minha urgência de viver. E você, antes mesmo de chegar, já está me ensinando a fazer uma coisa quase impossível para quem me conhece: esperar.
Mal posso esperar para você entrar na minha vida atual, que depois de você ter entrado nela eu chamaria de vidinha, para me tirar das noites com lembranças de cigarro. Mal posso esperar para você me arrancar dos bares cheios de álcool e das baladas onde todo mundo balança a cabeça até o cérebro virar um liquidificador e fazer um bolo de massa cerebral. Mal posso esperar para você me resgatar das conversas bobas nos finais de noite e dos caras sem futuro. Mal posso esperar para você dizer que Sartre, Nietzsche e Schopenhauer não fazem de mim uma pessoa inteligente e que, sendo assim, isso não assusta minimamente você. Mal posso esperar para você me arrastar para a sua vida e me dizer que eu não preciso ter medo de me perder da pessoa que eu adoro ser. Mal posso esperar para você me surpreender nas horas em que eu não quero, ou não espero, porque talvez assim eu deixe de ser tão teimosa e de querer fazer tudo só quando me dá vontade. Mal posso esperar para você me dizer “não” e eu aprender a não ser sempre a caçula mimada. Mal posso esperar para você mudar meus sábados descalça e imensamente feliz ao som da cantora de jazz, porque essa é uma felicidade que eu já conheço e para viver eu preciso muito de coisas que eu ainda não conheço. Mal posso esperar para você descobrir que comigo “não” é “não” e “sim” é “sim”, porque eu odeio esses joguinhos que todo mundo inventou para supostamente se divertir. Mal posso esperar para você me dar algo para eu cuidar, logo eu, que não sei cuidar direito nem de mim. Mal posso esperar para você chegar e acalmar minha perna que vive balançando embaixo da mesa, acalmar meu olhar impaciente e acalmar essa minha urgência de viver. E você, antes mesmo de chegar, já está me ensinando a fazer uma coisa quase impossível para quem me conhece: esperar.
terça-feira, 1 de julho de 2008
UM DIA EMBRULHADO PARA PRESENTE
por Maria Rita Angeiras
Como amanhã é seu aniversário eu fiz uma crônica para você, como um presente sem pacote e sem laço, mas também sem preço. Mentira minha. Acabei escrevendo porque fiz uma outra crônica que tinha um título que lembrava a nossa amizade. Nossa amizade que era linda, que era perfeita e que foi tão intensa que depois parecia não ter sobrado mais nada. Lembro que uma vez a gente sentou num desses bares safados e ficou conversando besteira. O dia tava feio, o céu tava caindo e nós estávamos imensamente cansados. De repente uma figura pitoresca e desconhecida sentou na nossa mesa. Parecia uma daquelas ciganas velhas que coloca cartas e lê a sua mão. E ela, que já estava muito bêbada, pediu para a gente comprar um conhaque, já que o dono da padaria tinha se negado a dar. Então eu, você e a desconhecida ficamos conversando por horas. De vez em quando ela chorava e falava da filha. De vez em quando ela me pedia para falar ao telefone com um músico amigo dela. E aquela mulher tinha uma fragilidade tão desconcertante que nem eu nem você tivemos coragem de levantar e deixá-la ali, sozinha. Lembro que a certa altura ela falou muito triste do quanto estava chovendo. E você, que costumava ser tímido e fechado, consolou aquela estranha na sua frente dizendo que a chuva era apenas o céu chorando – talvez porque ela também estivesse chorando naquele momento. E enquanto ela tentava adivinhar a nossa vida, nós começamos a inventar uma. Lembro também que aquela figura meio mágica apontava para os prédios à nossa volta e reclamava de como eram apertados, solitários, cheios de concreto e de janelinhas minúsculas, onde nós, com nossas vidinhas medíocres, passávamos os nossos dias intermináveis aprisionados. Casas de pombos. Isso, casas de pombos. Ela parecia perdida e desesperaçosa, mas foi lindo e foi inesquecível de um jeito que ninguém nunca vai entender. Naquele dia eu me apaixonei pela nossa amizade. Mas alguns dias também já odiei aquele dia por me aprisionar na nossa amizade. E no final dessa crônica, descubro que na verdade não fiz ela para você, mas para a Rose-Marie, uma estranha que me fez gostar ainda mais da pessoa que você não é para os outros. Só para mim.
Como amanhã é seu aniversário eu fiz uma crônica para você, como um presente sem pacote e sem laço, mas também sem preço. Mentira minha. Acabei escrevendo porque fiz uma outra crônica que tinha um título que lembrava a nossa amizade. Nossa amizade que era linda, que era perfeita e que foi tão intensa que depois parecia não ter sobrado mais nada. Lembro que uma vez a gente sentou num desses bares safados e ficou conversando besteira. O dia tava feio, o céu tava caindo e nós estávamos imensamente cansados. De repente uma figura pitoresca e desconhecida sentou na nossa mesa. Parecia uma daquelas ciganas velhas que coloca cartas e lê a sua mão. E ela, que já estava muito bêbada, pediu para a gente comprar um conhaque, já que o dono da padaria tinha se negado a dar. Então eu, você e a desconhecida ficamos conversando por horas. De vez em quando ela chorava e falava da filha. De vez em quando ela me pedia para falar ao telefone com um músico amigo dela. E aquela mulher tinha uma fragilidade tão desconcertante que nem eu nem você tivemos coragem de levantar e deixá-la ali, sozinha. Lembro que a certa altura ela falou muito triste do quanto estava chovendo. E você, que costumava ser tímido e fechado, consolou aquela estranha na sua frente dizendo que a chuva era apenas o céu chorando – talvez porque ela também estivesse chorando naquele momento. E enquanto ela tentava adivinhar a nossa vida, nós começamos a inventar uma. Lembro também que aquela figura meio mágica apontava para os prédios à nossa volta e reclamava de como eram apertados, solitários, cheios de concreto e de janelinhas minúsculas, onde nós, com nossas vidinhas medíocres, passávamos os nossos dias intermináveis aprisionados. Casas de pombos. Isso, casas de pombos. Ela parecia perdida e desesperaçosa, mas foi lindo e foi inesquecível de um jeito que ninguém nunca vai entender. Naquele dia eu me apaixonei pela nossa amizade. Mas alguns dias também já odiei aquele dia por me aprisionar na nossa amizade. E no final dessa crônica, descubro que na verdade não fiz ela para você, mas para a Rose-Marie, uma estranha que me fez gostar ainda mais da pessoa que você não é para os outros. Só para mim.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
MARLBORO LIGHT
por Maria Rita Angeiras
O corpo doía do cansaço de ter ficado em pé a noite inteira e o espelho do banheiro denunciava a maquiagem preta que tinha tido preguiça de tirar antes de dormir. O cabelo tinha um bagunçado engraçado, quase poético, coisa que alguém definiria como beleza matinal – ou natural, embora denunciasse os lugares fechados e os amigos fumantes da noite anterior. E como não podia deixar de ser, o pijama descombinado também denunciava a pressa em dormir. Caminhou pela casa com um copo de água procurando algum remédio que curasse a dor de cabeça. O café da manhã ia ser dipirona. Não era o tipo de pessoa que tinha uma gaveta organizada. Achava mais interessante ter coisas perdidas por aí em vez de ter a dura certeza de que não tinha o que procurava naquele momento. “Organização acaba com as esperanças”, dizia. A verdade é que não achava certo um espírito livre viver no meio da perfeição. Costumava discutir Clarice antes de dormir no telefone mas se negava a fazer contas porque achava quadrado demais. Achou o remédio e ficou aliviada por não ter que ir até a farmácia naquela hora da manhã, mesmo sendo quase duas horas da tarde. Comeu algo estranho para começar o dia - uma colher de sorvete. Jogou as roupas impregnadas de Malboro Light na máquina de lavar. Saiu da cozinha, ligou o som e ficou ouvindo a cantora de jazz deitada no sofá, ainda de olhos fechados. Riu de algumas besteiras da noite anterior, lembrou dos amigos, das risadas altas e das conversas profundas demais para as madrugadas. Pensou no que ia fazer mais tarde. Percebeu que era cedo demais para pensar nisso. Lembrou-se que não pensava nem sentia falta dele há alguns dias – e não era pelo final de semana cheio. Deu um sorrisinho de canto de boca. Preferia as manhãs de sábado sem as conturbações das noites de sexta.
O corpo doía do cansaço de ter ficado em pé a noite inteira e o espelho do banheiro denunciava a maquiagem preta que tinha tido preguiça de tirar antes de dormir. O cabelo tinha um bagunçado engraçado, quase poético, coisa que alguém definiria como beleza matinal – ou natural, embora denunciasse os lugares fechados e os amigos fumantes da noite anterior. E como não podia deixar de ser, o pijama descombinado também denunciava a pressa em dormir. Caminhou pela casa com um copo de água procurando algum remédio que curasse a dor de cabeça. O café da manhã ia ser dipirona. Não era o tipo de pessoa que tinha uma gaveta organizada. Achava mais interessante ter coisas perdidas por aí em vez de ter a dura certeza de que não tinha o que procurava naquele momento. “Organização acaba com as esperanças”, dizia. A verdade é que não achava certo um espírito livre viver no meio da perfeição. Costumava discutir Clarice antes de dormir no telefone mas se negava a fazer contas porque achava quadrado demais. Achou o remédio e ficou aliviada por não ter que ir até a farmácia naquela hora da manhã, mesmo sendo quase duas horas da tarde. Comeu algo estranho para começar o dia - uma colher de sorvete. Jogou as roupas impregnadas de Malboro Light na máquina de lavar. Saiu da cozinha, ligou o som e ficou ouvindo a cantora de jazz deitada no sofá, ainda de olhos fechados. Riu de algumas besteiras da noite anterior, lembrou dos amigos, das risadas altas e das conversas profundas demais para as madrugadas. Pensou no que ia fazer mais tarde. Percebeu que era cedo demais para pensar nisso. Lembrou-se que não pensava nem sentia falta dele há alguns dias – e não era pelo final de semana cheio. Deu um sorrisinho de canto de boca. Preferia as manhãs de sábado sem as conturbações das noites de sexta.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
NÃO VENHA ME FALAR A VERDADE.
por Maria Rita Angeiras
Tenho um certo pé atrás com quem usa a expressão “na verdade”.
- Na verdade até agora eu estava mentindo descaradamente para você, mas de agora em diante prometo ser sincera para a nossa conversa pode ir adiante.
Na prática, o “na verdade” é apenas uma forma socialmente aceita de alguém admitir que estava mentindo. Quando alguém usa um “na verdade” numa reunião ou na hora de defender alguma coisa, aí é que a coisa já era. Porque tecnicamente você acaba de dizer que tem alguma coisa errada com tudo que você estava falando até então. Mas provavelmente eu sou a única pessoa que se incomoda com isso – ou que repara nisso. Todo o resto nem percebe mais que na expressão “na verdade” está sempre implícita uma mentira. Imagine se isso toma uma proporção muito grande e as pessoas começam a usar o “na verdade” para admitir mentiras que vão passar totalmente desapercebidas. Em vez de:
- Eu estava te traindo com a nossa vizinha de porta.
Vai ser:
- Na verdade eu estava te traindo com a nossa vizinha de porta.
Aí a nega traída nem vai perceber porque o lado sórdido do “na verdade” é soar como se você estivesse compartilhando com a tal pessoa um segredo, uma confidência, quando na verdade ela tem todo o direito de saber. Aí vira uma grande fraternidade. Porque quem ouve o “na verdade” acaba sentindo que a confiança da outra pessoa em dizer a verdade é mais significativa emocionalmente do que o resto da mentira em si.
E as pessoas falam o “na verdade” com uma seriedade digna de admiração, sem aquele sorriso amarelo no rosto de quando a gente está mentindo pra alguém. Pior ainda é quem nem sabe usar o “na verdade”.
Gerente de marketing: O trabalho está ficando bom?
Atendimento: Na verdade está ficando ótimo.
Considerando que o “na verdade” é apenas uma contração de “pra falar a verdade”, o contrário dessa frase seria:
- Pra falar uma mentira, está ficando horrível.
Inacreditável. As pessoas estão ficando loucas. É uma total insanidade social e gramatical. Por isso, não me venha falar a verdade. Existe 99% de chance de eu ficar muito puta da vida com você.
Tenho um certo pé atrás com quem usa a expressão “na verdade”.
- Na verdade até agora eu estava mentindo descaradamente para você, mas de agora em diante prometo ser sincera para a nossa conversa pode ir adiante.
Na prática, o “na verdade” é apenas uma forma socialmente aceita de alguém admitir que estava mentindo. Quando alguém usa um “na verdade” numa reunião ou na hora de defender alguma coisa, aí é que a coisa já era. Porque tecnicamente você acaba de dizer que tem alguma coisa errada com tudo que você estava falando até então. Mas provavelmente eu sou a única pessoa que se incomoda com isso – ou que repara nisso. Todo o resto nem percebe mais que na expressão “na verdade” está sempre implícita uma mentira. Imagine se isso toma uma proporção muito grande e as pessoas começam a usar o “na verdade” para admitir mentiras que vão passar totalmente desapercebidas. Em vez de:
- Eu estava te traindo com a nossa vizinha de porta.
Vai ser:
- Na verdade eu estava te traindo com a nossa vizinha de porta.
Aí a nega traída nem vai perceber porque o lado sórdido do “na verdade” é soar como se você estivesse compartilhando com a tal pessoa um segredo, uma confidência, quando na verdade ela tem todo o direito de saber. Aí vira uma grande fraternidade. Porque quem ouve o “na verdade” acaba sentindo que a confiança da outra pessoa em dizer a verdade é mais significativa emocionalmente do que o resto da mentira em si.
E as pessoas falam o “na verdade” com uma seriedade digna de admiração, sem aquele sorriso amarelo no rosto de quando a gente está mentindo pra alguém. Pior ainda é quem nem sabe usar o “na verdade”.
Gerente de marketing: O trabalho está ficando bom?
Atendimento: Na verdade está ficando ótimo.
Considerando que o “na verdade” é apenas uma contração de “pra falar a verdade”, o contrário dessa frase seria:
- Pra falar uma mentira, está ficando horrível.
Inacreditável. As pessoas estão ficando loucas. É uma total insanidade social e gramatical. Por isso, não me venha falar a verdade. Existe 99% de chance de eu ficar muito puta da vida com você.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
PRA QUEM TEM CORAGEM DE ADMITIR: SIM, OS SOLTEIROS SÃO MAIS INTERESSANTES.
por Maria Rita Angeiras
Felizes os corações partidos, arrasados e devastados por amores que não deram certo, pelos que acabaram por falta de correspondência, pelo desgaste afetivo, pela dura racionalidade unilateral e por tantos outros motivos que se encaixariam perfeitamente na teoria do eterno retorno. Que vão e vem com o mesmo intervalo dos suspiros, dos beijos e dos "eu te amo". Eu agradeço todas as lamentações que motivaram milhares de escritores a se debruçarem sobre cartas, escritos, máquinas de escrever e computadores para desabafarem as casualidades, os pensamentos atormentados, a angústia, a felicidade, a alegria, o medo ou os simples fatos da vida que lhes acometiam nesses dias de dor de cotovelo. Todos eles. Poetas, romancistas, filósofos, cronistas, compositores, enfim, inúmeros nomes de todas as áreas que dedicaram sua tristeza e seu tempo livre a escrever. Sim, escrever. Filas e filas de pequenas almas melancólicas, apaixonadas e passionais que, numa folha em branco, encontravam uma distração para a imprevisibilidade do amor. Palavra lugar-comum, clichê, banalizada. Desejada. Solteiros discutem coisas mais importantes. Odeiam ser solteiros. Se engajam em projetos diferentes. Odeiam ser solteiros. Estudam mais. Odeiam ser solteiros. Fazem programas diferentes. Odeiam ser solteiros. E, por final, encontram um grande amor. E odeiam os solteiros.
* Sugestões do dia: balada, bar ou karaokê. Mas tem quem diga que karaokê pode cair no deprê japas-cantando-a-música-evidências-para-suas-amadas. Em qualquer caso, nada de colchão, ok?
Felizes os corações partidos, arrasados e devastados por amores que não deram certo, pelos que acabaram por falta de correspondência, pelo desgaste afetivo, pela dura racionalidade unilateral e por tantos outros motivos que se encaixariam perfeitamente na teoria do eterno retorno. Que vão e vem com o mesmo intervalo dos suspiros, dos beijos e dos "eu te amo". Eu agradeço todas as lamentações que motivaram milhares de escritores a se debruçarem sobre cartas, escritos, máquinas de escrever e computadores para desabafarem as casualidades, os pensamentos atormentados, a angústia, a felicidade, a alegria, o medo ou os simples fatos da vida que lhes acometiam nesses dias de dor de cotovelo. Todos eles. Poetas, romancistas, filósofos, cronistas, compositores, enfim, inúmeros nomes de todas as áreas que dedicaram sua tristeza e seu tempo livre a escrever. Sim, escrever. Filas e filas de pequenas almas melancólicas, apaixonadas e passionais que, numa folha em branco, encontravam uma distração para a imprevisibilidade do amor. Palavra lugar-comum, clichê, banalizada. Desejada. Solteiros discutem coisas mais importantes. Odeiam ser solteiros. Se engajam em projetos diferentes. Odeiam ser solteiros. Estudam mais. Odeiam ser solteiros. Fazem programas diferentes. Odeiam ser solteiros. E, por final, encontram um grande amor. E odeiam os solteiros.
* Sugestões do dia: balada, bar ou karaokê. Mas tem quem diga que karaokê pode cair no deprê japas-cantando-a-música-evidências-para-suas-amadas. Em qualquer caso, nada de colchão, ok?
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A BOSSA DE MOEMA
por Maria Rita Angeiras
Moema não tem a beleza perfeita e cheia de botox dos Jardins, com suas ruas bonitas, suas lojas bonitas, sua gente bonita, seus sorrisos bonitos. Moema tem, ao contrário, aquela beleza comum das mulheres não-maquiadas ou das que acabam de acordar. Suas calçadas e ruas são lindas, mas estão sempre enfeitadas pelos dejetos dos poodles bem cuidados da classe média. E quando me deparo com eles passeando pela manhã, acabo ajeitando meu cabelo, me sentindo sempre menos arrumada do que aquelas bolas de pêlo perfumadas de Chanel nº 5 for dogs. Moema e suas lojinhas de bairro, sempre charmosas, modernas e internacionais, repletas de “50% off” ou “sale”. Yes, Moema speaks english como o Iguatemi, my dear. Moema e suas padarias. Que misturam o charme dos lugares apertados com o cheirinho gostoso de pão e com o jeito sem classe da classe média quando tá com fome. Moema e suas putas. Escondidas em kitnetes com piso de taco amarelo sob o título de “casa de massagem” ou espalhadas nas ruas, misturadas aos carrinhos de flores e às crianças puras que vão à igreja do bairro. Moema e seus ônibus. Que fazem as pessoas acordarem ao som de carburadores e não ao som de Pintassilgos, Macucos e Rouxinóis. Moema e seus aviões. O jeito mais fácil e econômico que o povo descolado e culto do bairro encontrou de estar sempre entre o glamour de conexões, escalas, malas e freeshops. Mas Moema tem um despeito: não ter um aeroporto tão internacional quanto Guarulhos. Se fosse internacional, a gente ouvia ainda com mais prazer aqueles ruídos adentrarem nossas janelas 12 horas por dia. Moema e seus taxistas. Sempre com um jeitinho impessoal, encostados em pontos feitos de madeira, preocupados em tratar bem as velhinhas que vão ao terço toda quarta-feira. Moema e seus seguranças. Protegidos sob enormes guarda-sóis e encostados nos portões dos prédios que guardam os tesouros que não estão no Morumbi ou na Vila Nova Conceição. Moema e o Parque Ibirapuera. Refúgio dos endinheirados esportistas, que balançam seus iPods e seus músculos enquanto desviam seus tênis de molas dos cocôs deixados para trás. Moema e seus velhinhos. E são tantos. Ainda bem o bairro não tem banco ou só ia ter caixa com fila preferencial. Moema e suas crianças. Que se lambuzam de refrigerante no colo dos pais enquanto eles comem pizza e tomam vinho com os amigos em restaurantes de luz baixa. E é por tudo isso que eu adoro Moema. Um lugar onde pássaros e índios são testemunhas desse jeitinho démodé, mas super simpático e original da classe média.
Moema não tem a beleza perfeita e cheia de botox dos Jardins, com suas ruas bonitas, suas lojas bonitas, sua gente bonita, seus sorrisos bonitos. Moema tem, ao contrário, aquela beleza comum das mulheres não-maquiadas ou das que acabam de acordar. Suas calçadas e ruas são lindas, mas estão sempre enfeitadas pelos dejetos dos poodles bem cuidados da classe média. E quando me deparo com eles passeando pela manhã, acabo ajeitando meu cabelo, me sentindo sempre menos arrumada do que aquelas bolas de pêlo perfumadas de Chanel nº 5 for dogs. Moema e suas lojinhas de bairro, sempre charmosas, modernas e internacionais, repletas de “50% off” ou “sale”. Yes, Moema speaks english como o Iguatemi, my dear. Moema e suas padarias. Que misturam o charme dos lugares apertados com o cheirinho gostoso de pão e com o jeito sem classe da classe média quando tá com fome. Moema e suas putas. Escondidas em kitnetes com piso de taco amarelo sob o título de “casa de massagem” ou espalhadas nas ruas, misturadas aos carrinhos de flores e às crianças puras que vão à igreja do bairro. Moema e seus ônibus. Que fazem as pessoas acordarem ao som de carburadores e não ao som de Pintassilgos, Macucos e Rouxinóis. Moema e seus aviões. O jeito mais fácil e econômico que o povo descolado e culto do bairro encontrou de estar sempre entre o glamour de conexões, escalas, malas e freeshops. Mas Moema tem um despeito: não ter um aeroporto tão internacional quanto Guarulhos. Se fosse internacional, a gente ouvia ainda com mais prazer aqueles ruídos adentrarem nossas janelas 12 horas por dia. Moema e seus taxistas. Sempre com um jeitinho impessoal, encostados em pontos feitos de madeira, preocupados em tratar bem as velhinhas que vão ao terço toda quarta-feira. Moema e seus seguranças. Protegidos sob enormes guarda-sóis e encostados nos portões dos prédios que guardam os tesouros que não estão no Morumbi ou na Vila Nova Conceição. Moema e o Parque Ibirapuera. Refúgio dos endinheirados esportistas, que balançam seus iPods e seus músculos enquanto desviam seus tênis de molas dos cocôs deixados para trás. Moema e seus velhinhos. E são tantos. Ainda bem o bairro não tem banco ou só ia ter caixa com fila preferencial. Moema e suas crianças. Que se lambuzam de refrigerante no colo dos pais enquanto eles comem pizza e tomam vinho com os amigos em restaurantes de luz baixa. E é por tudo isso que eu adoro Moema. Um lugar onde pássaros e índios são testemunhas desse jeitinho démodé, mas super simpático e original da classe média.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
COMPRO 3 DIAS
Nem mais, nem menos. Pode ser a qualquer pessoa, de qualquer idade, em qualquer lugar, mas tem que ser agora. Compro antes que não exista mais urgência. Compro antes que a cabeça se desinteresse por coisas importantes. Compro antes que o corpo não atenda mais nenhum verbo. Compro antes que a vontade de comer doce passe. Compro antes que o inverno chegue. Compro antes que seja segunda-feira. Compro antes que o despertador toque. Compro antes que eu comece a fazer algum sentido. Compro antes que eu comece a dizer muitos “sim” por preguiça de argumentar. Compro antes que o telefone toque sem parar. Compro antes que a comida esfrie. Compro antes que a Coca Zero perca o gás. Compro antes que o amor vire verbo intransitivo. Compro antes que ele chegue na minha vida. Compro antes que a vela apague. Compro antes que eu tenha que pedir para Deus. Compro antes que a palavra “rotina” vire rotina. Compro antes que o dólar aumente. Compro antes que exista um “mas”. Compro antes que alguém coloque um defeito. Compro antes que seja preciso preencher duas vias assinadas e devidamente autenticadas. Compro antes que eu vire as chaves. Compro antes que a próxima hora se aproxime. Compro antes que eu possa bocejar. Compro antes que você pare de me entender. Compro antes que seja tarde demais. Compro antes que alguém compre antes de mim.
por Maria Rita Angeiras
por Maria Rita Angeiras
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
CASA-TRABALHO-CASA
por Maria Rita An geiras
Ontem foi quinta-feira e cheguei em casa à meia-noite, logo depois do trabalho. Mal adentrei o prédio e o simpático porteiro me deu a excelente notícia de que os dois elevadores tinham quebrado. Dei umas boas risadas e pedi pra ele cortar a pegadinha, já era meio tarde pra isso. A síndica fez que sim com a cabeça e, resignada, tirei as sandálias de 10cm dos pés. Para quem não sabe: 14 andares. Logo eu, que mantenho minha forma física com batata-frita do Fifties, sempre acompanhada de maionese verde e ketchup. Abaixei a cabeça e encarei as escadas, cabisbaixa. E é quando esse tipo de coisa sacana acontece que você pára pra pensar sobre a vida em geral – até porque são os únicos momentos em que a gente tem tempo de pensar com calma em alguma coisa mesmo. Só pensava na quantidade de trabalho, nas três ou quatro horas a mais que eu fico na agência e deixo de assistir um bom filme, ver o jornal, sair com amigos, ouvir músicas novas, malhar – desculpem, essa parte de malhar foi mentira mesmo. Enfim, publicitários. Três turnos por dia. Finais de semana. Feriados. Dias santos. Egos homéricos. Bunda na cadeira o dia inteiro. Prêmios. Prêmios. Prêmios. Anuários. Junk food. Pressão.
- Desculpa, não vai dar pra viajar porque vou trabalhar no sábado.
- Ah, e no domingo também.
- Não, nem vai dar pra chegar a tempo da missa e rezar pra esse bendito prêmio chegar logo na minha prateleira e eu poder respirar por alguns segundos.
Tem um título da Fallon pra Citibank que fala algo assim: “Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça: a vida está nas pausas”. É isso: a vida acontece quando você está num bar com os amigos ou numa praia tomando sol ou num sambinha com a galera. Tudo isso é verdade. Mas se todo mundo tem que passar 8 horas ou mais no trabalho por dia (o que estatisticamente significa a maior parte da sua existência), que seja num trabalho que você ame, que te dê um tesão enorme, que valha a pena cada horinha gasta, que te faça levantar com um sorriso no rosto toda manhã. E não é bullshitagem de auto-ajuda. A não ser que sua opção seja vender bijou na praia vestido numa roupinha hippie-olodum e com o cabelo sujo. No 13o andar eu chego à conclusão: foda-se, vale muito a pena. E agora, supondo que nós dois temos algum intimidade, eu te pergunto: você realmente ama o que faz ou é apenas um batedor de cartão?
Ontem foi quinta-feira e cheguei em casa à meia-noite, logo depois do trabalho. Mal adentrei o prédio e o simpático porteiro me deu a excelente notícia de que os dois elevadores tinham quebrado. Dei umas boas risadas e pedi pra ele cortar a pegadinha, já era meio tarde pra isso. A síndica fez que sim com a cabeça e, resignada, tirei as sandálias de 10cm dos pés. Para quem não sabe: 14 andares. Logo eu, que mantenho minha forma física com batata-frita do Fifties, sempre acompanhada de maionese verde e ketchup. Abaixei a cabeça e encarei as escadas, cabisbaixa. E é quando esse tipo de coisa sacana acontece que você pára pra pensar sobre a vida em geral – até porque são os únicos momentos em que a gente tem tempo de pensar com calma em alguma coisa mesmo. Só pensava na quantidade de trabalho, nas três ou quatro horas a mais que eu fico na agência e deixo de assistir um bom filme, ver o jornal, sair com amigos, ouvir músicas novas, malhar – desculpem, essa parte de malhar foi mentira mesmo. Enfim, publicitários. Três turnos por dia. Finais de semana. Feriados. Dias santos. Egos homéricos. Bunda na cadeira o dia inteiro. Prêmios. Prêmios. Prêmios. Anuários. Junk food. Pressão.
- Desculpa, não vai dar pra viajar porque vou trabalhar no sábado.
- Ah, e no domingo também.
- Não, nem vai dar pra chegar a tempo da missa e rezar pra esse bendito prêmio chegar logo na minha prateleira e eu poder respirar por alguns segundos.
Tem um título da Fallon pra Citibank que fala algo assim: “Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça: a vida está nas pausas”. É isso: a vida acontece quando você está num bar com os amigos ou numa praia tomando sol ou num sambinha com a galera. Tudo isso é verdade. Mas se todo mundo tem que passar 8 horas ou mais no trabalho por dia (o que estatisticamente significa a maior parte da sua existência), que seja num trabalho que você ame, que te dê um tesão enorme, que valha a pena cada horinha gasta, que te faça levantar com um sorriso no rosto toda manhã. E não é bullshitagem de auto-ajuda. A não ser que sua opção seja vender bijou na praia vestido numa roupinha hippie-olodum e com o cabelo sujo. No 13o andar eu chego à conclusão: foda-se, vale muito a pena. E agora, supondo que nós dois temos algum intimidade, eu te pergunto: você realmente ama o que faz ou é apenas um batedor de cartão?
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
INFERNO ASTRAL
por Maria Rita Angeiras
Se já é meio difícil acreditar em diabinhos habitando um local quente e desagradável que responde pelo nome de inferno, imagine misturar o conceito desse lugar com uma certa desorganização energética promovida pelos astros mundo afora. É uma espécie de chacota ou teste das crenças das pessoas. Pois é, me sinto altamente ridicularizada nesse momento em que acredito que durante o período de um mês que antecede meu aniversário, as coisas ficam meio feias lá em cima e aqui embaixo.
Aniversário em si já é uma coisa meio crítica. Como as pessoas não acreditam que eu não curto a vergonha que acompanha velinhas, bolo, parabéns e tias, acabo tendo que dizer que neste ano resolvi parar de comemorar porque quanto mais cedo eu deixar de fazer isso, mais cedo as pessoas vão esquecer quantos anos eu tenho e mais cedo eu vou ficar uma pessoa menos velha.
Aliás, nesse momento em que vivemos, parece muito justo comemorar cada dia de vida, cada dia em que chegamos sãos e salvos às nossas casas. Mas também me parece nostálgico, terreno e triste demais. Talvez minha visão mega negativista possa ser fruto do meu inferno astral fictício, e tal crença me deixa extremamente envergonhada diante de todas as outras coisas mais sérias em que desacredito.
Pesquiso. Descubro que nós, aquarianos, somos bastante ansiosos e nervosos, que levamos muito a sério nosso trabalho, que nossas atividades são mais intelectuais do que físicas e que estamos ligados a profissões de vanguarda. Fora os elogios, percebo que somos excêntricos, utópicos, desleixados, rebeldes, imprevisíveis, intempestivos e inconstantes. Nossa palavra chave é “eu vejo”, mas no meu caso seria mais “eu acho”. Aliás, ao fazer essa crônica, percebo que eu acho demais. Mas deixo claro que eu acho sempre só para mim, dentro dos meus próprios achismos exagerados e superficiais.
Voltando e fugindo, ao mesmo tempo, do inferno astral, procuro pensar que esse período é o Natal dos esotéricos. Um momento capitalista, criado para se lucrar com numerologia, astrologia, i-ching, quiromancia, dentre tantos outros recursos que permitem entregar as rédeas da vida ao destino, ao acaso. Como eu sou racionalista, acho muito absurdo (e cedo) viver anualmente uma amostra grátis do inferno e resolvo desdenhar. Rio da minha crônica individualista, pessoal, egoísta, aquariana, achista e debocho silenciosamente da paciência de você que leu até o fim. E acho que, provavelmente, você é do signo de Peixes.
Se já é meio difícil acreditar em diabinhos habitando um local quente e desagradável que responde pelo nome de inferno, imagine misturar o conceito desse lugar com uma certa desorganização energética promovida pelos astros mundo afora. É uma espécie de chacota ou teste das crenças das pessoas. Pois é, me sinto altamente ridicularizada nesse momento em que acredito que durante o período de um mês que antecede meu aniversário, as coisas ficam meio feias lá em cima e aqui embaixo.
Aniversário em si já é uma coisa meio crítica. Como as pessoas não acreditam que eu não curto a vergonha que acompanha velinhas, bolo, parabéns e tias, acabo tendo que dizer que neste ano resolvi parar de comemorar porque quanto mais cedo eu deixar de fazer isso, mais cedo as pessoas vão esquecer quantos anos eu tenho e mais cedo eu vou ficar uma pessoa menos velha.
Aliás, nesse momento em que vivemos, parece muito justo comemorar cada dia de vida, cada dia em que chegamos sãos e salvos às nossas casas. Mas também me parece nostálgico, terreno e triste demais. Talvez minha visão mega negativista possa ser fruto do meu inferno astral fictício, e tal crença me deixa extremamente envergonhada diante de todas as outras coisas mais sérias em que desacredito.
Pesquiso. Descubro que nós, aquarianos, somos bastante ansiosos e nervosos, que levamos muito a sério nosso trabalho, que nossas atividades são mais intelectuais do que físicas e que estamos ligados a profissões de vanguarda. Fora os elogios, percebo que somos excêntricos, utópicos, desleixados, rebeldes, imprevisíveis, intempestivos e inconstantes. Nossa palavra chave é “eu vejo”, mas no meu caso seria mais “eu acho”. Aliás, ao fazer essa crônica, percebo que eu acho demais. Mas deixo claro que eu acho sempre só para mim, dentro dos meus próprios achismos exagerados e superficiais.
Voltando e fugindo, ao mesmo tempo, do inferno astral, procuro pensar que esse período é o Natal dos esotéricos. Um momento capitalista, criado para se lucrar com numerologia, astrologia, i-ching, quiromancia, dentre tantos outros recursos que permitem entregar as rédeas da vida ao destino, ao acaso. Como eu sou racionalista, acho muito absurdo (e cedo) viver anualmente uma amostra grátis do inferno e resolvo desdenhar. Rio da minha crônica individualista, pessoal, egoísta, aquariana, achista e debocho silenciosamente da paciência de você que leu até o fim. E acho que, provavelmente, você é do signo de Peixes.
domingo, 27 de janeiro de 2008
BIG BEN
por Maria Rita Angeiras
"E o meu relógio ocupa a noite toda."
Fernando Pessoa, em Poesia Completa de Alberto Caeiro.
E o meu relógio ocupa a noite toda. Viro para um lado, viro para o outro, mas é inevitável ouvir aquele tic-tac ensurdecedor às 2h da manhã. Ele ocupa a noite, o meu quarto, as minhas conversas, os meus sonhos, os meus planos, os meus minutos. Conhece meus segredos, meus medos, minhas risadas altas, minhas fotos, minhas músicas preferidas, meu buda, meus livros, meus incensos, minha cama, meus post-it, meu cubo branco, as paredes e até já me viu dançando. Ele é alvo de toda a minha admiração - tem a insistência mais admirável que eu já vi - mesmo quando eu xingo, ele permanece lá, ignorando todo o meu português e o meu bico. Comprei ele de uma chinesa na Av. Paulista para um vídeo sobre subversões sonoras, no qual ele e uma goteira estrelavam a proposta de "o som como um caminho na imagem visual". Esteticamente, ele é tão bonito quanto um ralador enferrujado, mas tem a fragilidade inerente ao produtos do mercado chinês de falsificações e contrabando. É quadrado, cinza, sem graça e leve demais. Desde então, e por todos esses motivos, virou meu protegido e ganhou meu quarto, minha confiança e meu espírito materno enrustido. Algumas manhãs, berra como uma criança chata e eu acabo desligando - ah, se as mães também pudessem fazer isso com os filhos. Às vezes deixo ele dormir ao meu lado. Numa dessas ocasiões, achei que estava perdido e, dois dias atrás, encontrei ele embaixo de uma colcha. Aí ele voltou a tomar conta da minha vida, das minhas horas, dos meus minutos, dos meus segundos e de cada fração de pensamento, sempre acompanhado pela percussão de seus ponteiros. Quase como um namorado ciumento, uma mãe superprotetora ou um tutor exigente. Mas ele sempre vai estar aqui, nos dias bons e ruins, por um motivo muito simples: é a única coisa constante na minha vida. E o meu relógio ocupa a noite toda.
"Só o relógio prossegue seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens
que está em cima da minha mesa
abafa toda a existência da terra e do céu.
Quase que me perco a pensar o que
isto significa.
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite
com os cantos da boca,
porque a única coisa que o meu relógio
simboliza ou significa
Enchendo com sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme,
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez."
Fernando Pessoa
"E o meu relógio ocupa a noite toda."
Fernando Pessoa, em Poesia Completa de Alberto Caeiro.
E o meu relógio ocupa a noite toda. Viro para um lado, viro para o outro, mas é inevitável ouvir aquele tic-tac ensurdecedor às 2h da manhã. Ele ocupa a noite, o meu quarto, as minhas conversas, os meus sonhos, os meus planos, os meus minutos. Conhece meus segredos, meus medos, minhas risadas altas, minhas fotos, minhas músicas preferidas, meu buda, meus livros, meus incensos, minha cama, meus post-it, meu cubo branco, as paredes e até já me viu dançando. Ele é alvo de toda a minha admiração - tem a insistência mais admirável que eu já vi - mesmo quando eu xingo, ele permanece lá, ignorando todo o meu português e o meu bico. Comprei ele de uma chinesa na Av. Paulista para um vídeo sobre subversões sonoras, no qual ele e uma goteira estrelavam a proposta de "o som como um caminho na imagem visual". Esteticamente, ele é tão bonito quanto um ralador enferrujado, mas tem a fragilidade inerente ao produtos do mercado chinês de falsificações e contrabando. É quadrado, cinza, sem graça e leve demais. Desde então, e por todos esses motivos, virou meu protegido e ganhou meu quarto, minha confiança e meu espírito materno enrustido. Algumas manhãs, berra como uma criança chata e eu acabo desligando - ah, se as mães também pudessem fazer isso com os filhos. Às vezes deixo ele dormir ao meu lado. Numa dessas ocasiões, achei que estava perdido e, dois dias atrás, encontrei ele embaixo de uma colcha. Aí ele voltou a tomar conta da minha vida, das minhas horas, dos meus minutos, dos meus segundos e de cada fração de pensamento, sempre acompanhado pela percussão de seus ponteiros. Quase como um namorado ciumento, uma mãe superprotetora ou um tutor exigente. Mas ele sempre vai estar aqui, nos dias bons e ruins, por um motivo muito simples: é a única coisa constante na minha vida. E o meu relógio ocupa a noite toda.
"Só o relógio prossegue seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens
que está em cima da minha mesa
abafa toda a existência da terra e do céu.
Quase que me perco a pensar o que
isto significa.
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite
com os cantos da boca,
porque a única coisa que o meu relógio
simboliza ou significa
Enchendo com sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme,
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez."
Fernando Pessoa
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
O FURDUNÇO
por Maria Rita Angeiras
Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche, Fernando Pessoa, João Ubaldo Ribeiro, Goethe, Clarice Lispector, Schopenhauer e Franz Kafka saíram um a um. Nietzsche, como sempre, estava um pouco pessimista quanto à situação. Não estava muito acostumado a mudanças, mesmo sendo um homem de cabeça aberta, bem à frente do seu tempo. Ele simplesmente recostou-se e colocou as mãos na cabeça, mas não de uma forma resignada, afinal não queria parecer fraco frente aos outros. Clarice tinha muita afinidade com Sartre, mas já estava um pouco cansada das conversas com os mesmos pontos de vista. Então sentou-se ao lado de Nietzsche com um cigarro na mão, colocou as mãos sobre o ombro direito do amigo e pediu para que tivesse fé, ao que ele imediatamente respondeu “fé? mas deus está morto”. Ela não deu muita importância à resposta e acabou se distraindo com uma barata que passeava naquele momentos pelos pés do filósofo. Kafka foi o terceiro a sair. Estava um pouco desnorteado, fazia horas que tentava conseguir explicações mas ninguém lhe dizia o real motivo de ele ter que se retirar dali. Schopenhauer saiu praguejando e xingando a própria mãe. Citou alguns aforismos aleatórios sobre justiça e perguntou quem concordava com ele. Imediatamente todos direcionaram os olhares para Nietzsche, que levantou a mão e começou a caminhar em direção ao seu conterrâneo. Fernando Pessoa saiu ao mesmo tempo que João Ubaldo Ribeiro, mas logo se aborreceu com as piadas de português que o colega declamava em alto e bom som. Esbarrou em Clarice, que pediu desculpas, ao que ele disse “ainda bem, alguém interessante neste lugar que fala português”. O último a sair foi Goethe, que tinha um olhar triste e perdido. Ele olhou para um lado, olhou para o outro e acabou se jogando de lá de cima. Schopenhauer suspirou algo no ouvido de Nietzsche sobre os homens fracos e este balançou a cabeça em concordância. Todos se reuniram, chocados pela terrível cena. E antes que pudessem assimilar tudo aquilo, a menina entrou novamente no quarto, reuniu todos numa pilha organizada e colocou dentro de uma caixa vazia, que estava logo abaixo da prateleira. Fechou o papelão marrom com um adesivo grosso e riscou com uma caneta vermelha a palavra “livros”. Todos ficaram em silêncio.
Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche, Fernando Pessoa, João Ubaldo Ribeiro, Goethe, Clarice Lispector, Schopenhauer e Franz Kafka saíram um a um. Nietzsche, como sempre, estava um pouco pessimista quanto à situação. Não estava muito acostumado a mudanças, mesmo sendo um homem de cabeça aberta, bem à frente do seu tempo. Ele simplesmente recostou-se e colocou as mãos na cabeça, mas não de uma forma resignada, afinal não queria parecer fraco frente aos outros. Clarice tinha muita afinidade com Sartre, mas já estava um pouco cansada das conversas com os mesmos pontos de vista. Então sentou-se ao lado de Nietzsche com um cigarro na mão, colocou as mãos sobre o ombro direito do amigo e pediu para que tivesse fé, ao que ele imediatamente respondeu “fé? mas deus está morto”. Ela não deu muita importância à resposta e acabou se distraindo com uma barata que passeava naquele momentos pelos pés do filósofo. Kafka foi o terceiro a sair. Estava um pouco desnorteado, fazia horas que tentava conseguir explicações mas ninguém lhe dizia o real motivo de ele ter que se retirar dali. Schopenhauer saiu praguejando e xingando a própria mãe. Citou alguns aforismos aleatórios sobre justiça e perguntou quem concordava com ele. Imediatamente todos direcionaram os olhares para Nietzsche, que levantou a mão e começou a caminhar em direção ao seu conterrâneo. Fernando Pessoa saiu ao mesmo tempo que João Ubaldo Ribeiro, mas logo se aborreceu com as piadas de português que o colega declamava em alto e bom som. Esbarrou em Clarice, que pediu desculpas, ao que ele disse “ainda bem, alguém interessante neste lugar que fala português”. O último a sair foi Goethe, que tinha um olhar triste e perdido. Ele olhou para um lado, olhou para o outro e acabou se jogando de lá de cima. Schopenhauer suspirou algo no ouvido de Nietzsche sobre os homens fracos e este balançou a cabeça em concordância. Todos se reuniram, chocados pela terrível cena. E antes que pudessem assimilar tudo aquilo, a menina entrou novamente no quarto, reuniu todos numa pilha organizada e colocou dentro de uma caixa vazia, que estava logo abaixo da prateleira. Fechou o papelão marrom com um adesivo grosso e riscou com uma caneta vermelha a palavra “livros”. Todos ficaram em silêncio.
sábado, 8 de dezembro de 2007
TODOS QUEREM SER 007
por Maria Rita Angeiras
“Não se fazem mais Audrey Hepburns.”
A frase acima saiu de um longa bem água-com-açúcar que acabei deixando rolar na televisão por pura distração. E se a minha memória não estiver me traindo, saiu da boca do Owen Wilson, decepcionado com uma mulher que tinha trocado ele pela torcida do Red Sox – inteira, diga-se de passagem. Mas foi a melhor coisa que eu ouvi de alguém no sábado.
Eu, como mulher, assino embaixo. Porque assim como os babaquinhas de pulgueiros, bem recorrentes nas minhas crônicas, também existem as putinhas de pulgueiros. Que dupla, hein? Bem o tipo que acaba se separando depois de três meses de relacionamento. Três meses não, três dias. Tudo bem, pode me chamar de careta, mas eu assumo numa boa meu lado old school. Ter uma atitude “casual” dá muito mais trabalho que ser romântica. Até porque até hoje não conheci nenhuma mulher totally-casual-kind. Não verdadeiramente. Todo mundo acaba só fazendo aquele tipinho de one-night-stand-super-bem-resolvida-da-estrela. É realmente patético.
Por isso, assim como o Owen Wilson, eu digo: não se fazem mais mulheres como antigamente. E ainda acrescento: também não se fazem mais homens como antigamente. Na falta de Hepburns – no lado feminino - eu reclamo do excesso de Pierce Brosnans, no lado masculino. Todos querem ser 007 – com o seu life style de playboy comedor, com licença para atirar para todos os lados, procurando uma Bond Girl por noite e tomando algo mais decadente do que um vodka-martini numa balada nada glamourosa na Barra Funda. Toda esquina tem um James Bond na versão “decadance”, é deprimente, na boa. E, como não podia deixar de ser, as Bond Girls são loiras, com exceção da Halle Barry e mais umas duas ou três. Nada contra as loiras, só estou endossando o estereótipo mesmo.
Voltando: onde estão os caras bacanas dos filmes da década de 40? Onde está o romantismo? Onde está a poesia? Onde está o amor verdadeiro? Onde está o comprometimento? Vou alugar um filme preto e branco e lamentar o fato de que esses homens não existem mais – ou já estão comprometidos com alguma Audrey Hepburn remanescente.
É isso: estou declaradamente de saco cheio dos Brosnans e dessa grande seita criada em cima do legado do 007. Afinal, é o sonho de qualquer um: muita aventura, helicópteros, iates, explosões, viagens e milhares de mulheres. Mas eles não querem saber de salvar o mundo, eles querem foder o mundo. E sabe qual é a pior parte disso tudo? Nenhum deles é tão bonito, tão charmoso, tão gostoso e tão irresistível como o Pierce Brosnan.
“Não se fazem mais Audrey Hepburns.”
A frase acima saiu de um longa bem água-com-açúcar que acabei deixando rolar na televisão por pura distração. E se a minha memória não estiver me traindo, saiu da boca do Owen Wilson, decepcionado com uma mulher que tinha trocado ele pela torcida do Red Sox – inteira, diga-se de passagem. Mas foi a melhor coisa que eu ouvi de alguém no sábado.
Eu, como mulher, assino embaixo. Porque assim como os babaquinhas de pulgueiros, bem recorrentes nas minhas crônicas, também existem as putinhas de pulgueiros. Que dupla, hein? Bem o tipo que acaba se separando depois de três meses de relacionamento. Três meses não, três dias. Tudo bem, pode me chamar de careta, mas eu assumo numa boa meu lado old school. Ter uma atitude “casual” dá muito mais trabalho que ser romântica. Até porque até hoje não conheci nenhuma mulher totally-casual-kind. Não verdadeiramente. Todo mundo acaba só fazendo aquele tipinho de one-night-stand-super-bem-resolvida-da-estrela. É realmente patético.
Por isso, assim como o Owen Wilson, eu digo: não se fazem mais mulheres como antigamente. E ainda acrescento: também não se fazem mais homens como antigamente. Na falta de Hepburns – no lado feminino - eu reclamo do excesso de Pierce Brosnans, no lado masculino. Todos querem ser 007 – com o seu life style de playboy comedor, com licença para atirar para todos os lados, procurando uma Bond Girl por noite e tomando algo mais decadente do que um vodka-martini numa balada nada glamourosa na Barra Funda. Toda esquina tem um James Bond na versão “decadance”, é deprimente, na boa. E, como não podia deixar de ser, as Bond Girls são loiras, com exceção da Halle Barry e mais umas duas ou três. Nada contra as loiras, só estou endossando o estereótipo mesmo.
Voltando: onde estão os caras bacanas dos filmes da década de 40? Onde está o romantismo? Onde está a poesia? Onde está o amor verdadeiro? Onde está o comprometimento? Vou alugar um filme preto e branco e lamentar o fato de que esses homens não existem mais – ou já estão comprometidos com alguma Audrey Hepburn remanescente.
É isso: estou declaradamente de saco cheio dos Brosnans e dessa grande seita criada em cima do legado do 007. Afinal, é o sonho de qualquer um: muita aventura, helicópteros, iates, explosões, viagens e milhares de mulheres. Mas eles não querem saber de salvar o mundo, eles querem foder o mundo. E sabe qual é a pior parte disso tudo? Nenhum deles é tão bonito, tão charmoso, tão gostoso e tão irresistível como o Pierce Brosnan.
domingo, 2 de dezembro de 2007
TRISTEZA, AQUELE ABRAÇO.
por Maria Rita Angeiras
Tá, preciso dividir isso. Isso que me sufoca de manhã, de tarde e de noite. Que ocupa meus segundos, meus minutos, minhas horas, meus dias, meus meses e a minha vida. Que sai remexendo tudo aqui dentro como uma criança que desfaz com as duas mãos um castelinho de areia pra começar do zero. Felicidade. Isso mesmo. Esse sentimento que a gente acha estranho ou atípico quando aparece. Isso porque a gente lê desde pequeno nos contos de fadas que felicidade é algo que só se consegue ter no final da história. E aí a gente acaba tendo uma vida de quase-felicidade ou de felicidade-potencial, esperando a felicidade completa chegar depois da gente de ter amadurecido e apanhado bastante.
E eu sou contra. Sou contra achar que é perigoso rir muito num dia porque, como dizem as pessoas, você pode chorar demais no outro. Sou contra ter medo de ser feliz pelo medo de um dia simplesmente deixar de ser. Sou contra pensar que a gente deve sofrer pra aprender a valorizar mais os momentos felizes. Sou contra ser feliz só nos dias de sol, só quando se está apaixonado, só quando se tem dinheiro ou só quando não se tem problemas. Sou contra achar criar expectativas positivas numa coisa faz essa coisa não acontecer. Sou contra acreditar que é melhor ter uma felicidade meio low-profile porque combina melhor com a cara blasé e o estúpido casaquinho off-white. Sou contra aquele comentário “como você está feliz hoje”, que geralmente vem depois de um bom dia ou de um boa tarde. Sou contra quem diz que é bem mais fácil ser triste do que feliz. E você pode ficar aí pensando que é só pra ser do contra mesmo. Quer saber? Não me importo.
Decidi que não vou deixar nenhum babaca neo-escritor de livro de auto-ajuda me convencer de que só os idiotas são felizes ou de que eu sou uma versão moderninha da Poliana.
Sendo assim, não vou abrir mão dessa felicidade que preenche todos os meus espaços e que fica me acompanhando pelas ruas quando eu saio de casa.
E quando Clarice Lispector diz, em um de seus livros, que “a felicidade dói” eu concordo plenamente. Felicidade dói porque não cabe no corpo.
Tá, preciso dividir isso. Isso que me sufoca de manhã, de tarde e de noite. Que ocupa meus segundos, meus minutos, minhas horas, meus dias, meus meses e a minha vida. Que sai remexendo tudo aqui dentro como uma criança que desfaz com as duas mãos um castelinho de areia pra começar do zero. Felicidade. Isso mesmo. Esse sentimento que a gente acha estranho ou atípico quando aparece. Isso porque a gente lê desde pequeno nos contos de fadas que felicidade é algo que só se consegue ter no final da história. E aí a gente acaba tendo uma vida de quase-felicidade ou de felicidade-potencial, esperando a felicidade completa chegar depois da gente de ter amadurecido e apanhado bastante.
E eu sou contra. Sou contra achar que é perigoso rir muito num dia porque, como dizem as pessoas, você pode chorar demais no outro. Sou contra ter medo de ser feliz pelo medo de um dia simplesmente deixar de ser. Sou contra pensar que a gente deve sofrer pra aprender a valorizar mais os momentos felizes. Sou contra ser feliz só nos dias de sol, só quando se está apaixonado, só quando se tem dinheiro ou só quando não se tem problemas. Sou contra achar criar expectativas positivas numa coisa faz essa coisa não acontecer. Sou contra acreditar que é melhor ter uma felicidade meio low-profile porque combina melhor com a cara blasé e o estúpido casaquinho off-white. Sou contra aquele comentário “como você está feliz hoje”, que geralmente vem depois de um bom dia ou de um boa tarde. Sou contra quem diz que é bem mais fácil ser triste do que feliz. E você pode ficar aí pensando que é só pra ser do contra mesmo. Quer saber? Não me importo.
Decidi que não vou deixar nenhum babaca neo-escritor de livro de auto-ajuda me convencer de que só os idiotas são felizes ou de que eu sou uma versão moderninha da Poliana.
Sendo assim, não vou abrir mão dessa felicidade que preenche todos os meus espaços e que fica me acompanhando pelas ruas quando eu saio de casa.
E quando Clarice Lispector diz, em um de seus livros, que “a felicidade dói” eu concordo plenamente. Felicidade dói porque não cabe no corpo.
domingo, 25 de novembro de 2007
BABAQUICE EMOCIONAL: DAQUI PRA FRENTE TUDO VAI SER DIFERENTE.
por Maria Rita Angeiras
Pois é, você chegou tarde demais. Decidi que não vou mais escrever crônicas bacanas e dar de presente para caras não tão bacanas, mesmo que você talvez seja um desses que merece receber uma. Também decidi que não vou mandar mensagens sinceras e que vou ser mais blasé ao invés de mostrar o entusiasmo normal. Decidi que não vou ligar naqueles minutos de solidão antes de dormir nem vou perder meu sono com babacaquinhas de pulgueiros. Decidi que não vou mais me contentar com metadezinhas de amor achando que isso faz de mim uma daquelas mulheres desprendidas que aproveitam loucamente a vida sem a chatice do martírio. Decidi que vou fazer como todas as outras que você encontrou pelo caminho: não vou dizer que senti saudades, não vou gravar seu número no meu celular, não vou te dizer o que realmente penso, não vou te fazer nenhuma surpresa e nem vou pensar que você pode ser o homem da minha vida. Decidi que você vai olhar o telefone a cada cinco minutos e vai se perguntar porque eu ainda não dei notícias ou liguei pra saber se você voltou bem pra casa. Decidi que vou deixar você se achando só mais um na minha vida porque no final é isso que você quer mesmo. Decidi que meu coração não vai disparar quando eu te vir, que meu estômago não vai sentir borboletas quando você chegar perto e que minha mão só vai ficar gelada quando fizer 5 graus em São Paulo. Decidi que vou deixar você ser o cara que não liga, o cara que não tá nem aí, o cara que já pegou todas as minhas amigas e o cara que vai me abandonar depois que eu falar que adoro Nietzsche, Schopenhauer e Sartre. Decidi que vou deixar você casar com uma daquelas cocotinhas de balada, que escondem por trás do make-up o quão fúteis e estúpidas são sua existências pós-modernas e cheias de glitter. Decidi que vou sofrer, mas por no máximo cinco minutinhos, que é o tempo que você provavelmente vai merecer. Decidi que não vou te olhar nos olhos para não permitir que você descubra que no fundo eu sou uma garota meiga, inofensiva e romântica. Decidi que você vai brincar sozinho no joguinho que inventou para a gente supostamente se divertir. Decidi que a minha vida é legal demais pra eu deixar qualquer um entrar nela tão facilmente. Decidi admitir que talvez eu nem queira alguém pra bagunçar meu dia-a-dia, meus horários, meu trabalho, meus amigos, minhas festinhas, minhas opiniões e o meu cabelo. E a partir de agora vai ser assim. Só porque você chegou tarde demais.
Pois é, você chegou tarde demais. Decidi que não vou mais escrever crônicas bacanas e dar de presente para caras não tão bacanas, mesmo que você talvez seja um desses que merece receber uma. Também decidi que não vou mandar mensagens sinceras e que vou ser mais blasé ao invés de mostrar o entusiasmo normal. Decidi que não vou ligar naqueles minutos de solidão antes de dormir nem vou perder meu sono com babacaquinhas de pulgueiros. Decidi que não vou mais me contentar com metadezinhas de amor achando que isso faz de mim uma daquelas mulheres desprendidas que aproveitam loucamente a vida sem a chatice do martírio. Decidi que vou fazer como todas as outras que você encontrou pelo caminho: não vou dizer que senti saudades, não vou gravar seu número no meu celular, não vou te dizer o que realmente penso, não vou te fazer nenhuma surpresa e nem vou pensar que você pode ser o homem da minha vida. Decidi que você vai olhar o telefone a cada cinco minutos e vai se perguntar porque eu ainda não dei notícias ou liguei pra saber se você voltou bem pra casa. Decidi que vou deixar você se achando só mais um na minha vida porque no final é isso que você quer mesmo. Decidi que meu coração não vai disparar quando eu te vir, que meu estômago não vai sentir borboletas quando você chegar perto e que minha mão só vai ficar gelada quando fizer 5 graus em São Paulo. Decidi que vou deixar você ser o cara que não liga, o cara que não tá nem aí, o cara que já pegou todas as minhas amigas e o cara que vai me abandonar depois que eu falar que adoro Nietzsche, Schopenhauer e Sartre. Decidi que vou deixar você casar com uma daquelas cocotinhas de balada, que escondem por trás do make-up o quão fúteis e estúpidas são sua existências pós-modernas e cheias de glitter. Decidi que vou sofrer, mas por no máximo cinco minutinhos, que é o tempo que você provavelmente vai merecer. Decidi que não vou te olhar nos olhos para não permitir que você descubra que no fundo eu sou uma garota meiga, inofensiva e romântica. Decidi que você vai brincar sozinho no joguinho que inventou para a gente supostamente se divertir. Decidi que a minha vida é legal demais pra eu deixar qualquer um entrar nela tão facilmente. Decidi admitir que talvez eu nem queira alguém pra bagunçar meu dia-a-dia, meus horários, meu trabalho, meus amigos, minhas festinhas, minhas opiniões e o meu cabelo. E a partir de agora vai ser assim. Só porque você chegou tarde demais.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
O VÁCUO CEREBRAL
por Maria Rita Angeiras
Este ano conheci uma pessoa que também já viveu fisicamente as experiências extra-corporais proporcionadas pelo Dramin. Isso, o bom e velho Dramin que você toma quando está enjoado - o que, aliás, é um desperdício. Médicos conhecidos recomendam: pra dormir, troque seu ansiolítico por um desses comprimidos brancos e baratos que seu sobrinho usa para não enjoar no carro. A melhor parte: nada de tarja preta ou desculpas esfarrapadas para um psicólogo de que "- droga, eu não tenho conseguido dormir, doutor". Infelizmente, ele vem com uma contra-indicação contra-indicada por mim mesma e, agora, pelo cara que eu conheci. Durante o período de morte cerebral causada pelo intenso sono, você vai conhecer a experiência do vácuo corporal e mental, o exato momento em que seu corpo se debate com a sua alma dentro de você mesmo. Nesse instante você está fisicamente alerta, ouve tudo à sua volta, raciocina perfeitamente, mas seu corpo não responde a nenhum estímulo, ou seja, "droga, eu não consigo me mexer". É a sensação mais estranha que eu já tive na minha vida - fora a Crisma, logicamente. O limbo humano. O estar sem estar. Um buraco negro entre a decisão de acordar ou continuar dormindo. O efeito da química e as reações físicas conspirando, independentemente da sua vontade, sobre qual caminho deve ser tomado. O vácuo. O vazio. O oco. O escuro. A consciência mental da falta de controle do corpo. Não, isso não é um barato. É, aliás, a pior sensação que alguém pode ter na vida: a dúvida sobre estar ou não vivo, uma experiência de pós-morte e pré-vida acontecendo no mesmo lugar: a sua cama. Uma salada química. O tal cara ainda não sabia o que fazer nesses momentos. Eu aconselho: tente um movimento muito brusco e, em poucos segundos, você retoma a vida fora da placenta, do invólucro celestial, da bolha aurática. Não tente dormir de novo, espertinho, o efeito sempre volta. Para mim, o remédio é parte de uma sociedade ultra secreta, moeda barata para experiências psíquicas não-intencionais. Um dia o morro vai conhecer o Dramin - e alguém vai ouvir a seguinte frase:
- E aí, mano, passa o Dramin ou eu meto bala.
Este ano conheci uma pessoa que também já viveu fisicamente as experiências extra-corporais proporcionadas pelo Dramin. Isso, o bom e velho Dramin que você toma quando está enjoado - o que, aliás, é um desperdício. Médicos conhecidos recomendam: pra dormir, troque seu ansiolítico por um desses comprimidos brancos e baratos que seu sobrinho usa para não enjoar no carro. A melhor parte: nada de tarja preta ou desculpas esfarrapadas para um psicólogo de que "- droga, eu não tenho conseguido dormir, doutor". Infelizmente, ele vem com uma contra-indicação contra-indicada por mim mesma e, agora, pelo cara que eu conheci. Durante o período de morte cerebral causada pelo intenso sono, você vai conhecer a experiência do vácuo corporal e mental, o exato momento em que seu corpo se debate com a sua alma dentro de você mesmo. Nesse instante você está fisicamente alerta, ouve tudo à sua volta, raciocina perfeitamente, mas seu corpo não responde a nenhum estímulo, ou seja, "droga, eu não consigo me mexer". É a sensação mais estranha que eu já tive na minha vida - fora a Crisma, logicamente. O limbo humano. O estar sem estar. Um buraco negro entre a decisão de acordar ou continuar dormindo. O efeito da química e as reações físicas conspirando, independentemente da sua vontade, sobre qual caminho deve ser tomado. O vácuo. O vazio. O oco. O escuro. A consciência mental da falta de controle do corpo. Não, isso não é um barato. É, aliás, a pior sensação que alguém pode ter na vida: a dúvida sobre estar ou não vivo, uma experiência de pós-morte e pré-vida acontecendo no mesmo lugar: a sua cama. Uma salada química. O tal cara ainda não sabia o que fazer nesses momentos. Eu aconselho: tente um movimento muito brusco e, em poucos segundos, você retoma a vida fora da placenta, do invólucro celestial, da bolha aurática. Não tente dormir de novo, espertinho, o efeito sempre volta. Para mim, o remédio é parte de uma sociedade ultra secreta, moeda barata para experiências psíquicas não-intencionais. Um dia o morro vai conhecer o Dramin - e alguém vai ouvir a seguinte frase:
- E aí, mano, passa o Dramin ou eu meto bala.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
PARA VOCE, COM CARINHO.
por Maria Rita Angeiras
Enquanto você sorri, eu fico olhando, percebendo que fazer você sorrir é simplesmente fácil demais pra mim. E quando você fica triste, estampa no rosto a mesma cara de quando está de bem com a vida. E na hora de falar, nunca diz o que realmente passa pela cabeça – fica viajando sozinho nas entrelinhas, esperando que eu subitamente compreenda o seu pseudo-português com a minha pseudo-psicologia. Mas eu ignoro as suas meias-palavras e todas as outras metadezinhas que você vai deixando ao longo do caminho, na esperança de que alguém se satisfaça com tanta falta de. E quando você quer ficar sozinho, cava um buraco, constrói um pocinho e se esconde. E se perde. E depois pede atenção porque está normalmente acostumado a tê-la. Uma atenção que eu não posso dar e nem quero dar. Afinal, é impossível resgatar alguém de si mesmo, por mais que se tente. Sim, e você também se esquece de fazer escolhas, elas te acontecem por acaso, fazem da sua vida o que bem querem, enquanto você só assiste, com sua cara de feliz-triste, igualzinho a Monalisa. Mas o pior de tudo isso é que, sem querer, ou até querendo, você nunca me deixa desistir dos seus problemas, da sua falta de palavras, do seu silêncio abafado, do seu andar desconfiado, da sua interrogatividade e do seu pocinho. Felizmente eu já me despedi do seu pocinho, só falta você me deixar ir.
Enquanto você sorri, eu fico olhando, percebendo que fazer você sorrir é simplesmente fácil demais pra mim. E quando você fica triste, estampa no rosto a mesma cara de quando está de bem com a vida. E na hora de falar, nunca diz o que realmente passa pela cabeça – fica viajando sozinho nas entrelinhas, esperando que eu subitamente compreenda o seu pseudo-português com a minha pseudo-psicologia. Mas eu ignoro as suas meias-palavras e todas as outras metadezinhas que você vai deixando ao longo do caminho, na esperança de que alguém se satisfaça com tanta falta de. E quando você quer ficar sozinho, cava um buraco, constrói um pocinho e se esconde. E se perde. E depois pede atenção porque está normalmente acostumado a tê-la. Uma atenção que eu não posso dar e nem quero dar. Afinal, é impossível resgatar alguém de si mesmo, por mais que se tente. Sim, e você também se esquece de fazer escolhas, elas te acontecem por acaso, fazem da sua vida o que bem querem, enquanto você só assiste, com sua cara de feliz-triste, igualzinho a Monalisa. Mas o pior de tudo isso é que, sem querer, ou até querendo, você nunca me deixa desistir dos seus problemas, da sua falta de palavras, do seu silêncio abafado, do seu andar desconfiado, da sua interrogatividade e do seu pocinho. Felizmente eu já me despedi do seu pocinho, só falta você me deixar ir.
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
NAO SER - E COM TRILHA SONORA DE PRIMEIRA
por Maria Rita Angeiras
The Beach Boys cantam “California Girls” e relembram a surf music da década de 60, o cappuccino fica pronto depois de exatos 1’70’’ no microondas e um alarme sinaliza o ponto exato entre degustar e queimar a língua. O sol adentra invasivamente a janela interrompendo a friaca gostosa dos últimos dias e a televisão não pede licença para exibir tanta porcaria junta de uma só vez, mesmo quando você tem 60 canais à disposição.
É quando se está só que se percebe todas essas pequenas coisas. Agora, The Beach Boys cantam “Wouldn’t it be nice” e eu penso em várias coisas que poderiam ser bem melhores do que estar em casa sozinha, do que compartilhar o meu eu interior, exterior e todos os fenômenos que acompanham o auto-conhecimento pregado por Schopenhauer. Para o filósofo, a solidão é um elemento benéfico para que as pessoas possam se desprender das futilidades da vida, que, na visão dele, são simples elementos de fuga para o vazio que ocasionalmente sentimos por dentro. Soa um pouco eremita? E é. Ainda não entendeu? Seria algo como “enquanto os outros compram roupas eu leio um livro” ou “enquanto os outros bebem no bar da esquina eu medito” ou “enquanto os outros compartilham os amigos eu abuso de um enorme sentimento insular” ou, ainda, “enquanto os outros conversam eu faço perguntas para mim mesma e – pior – espero alguma resposta plausível”. Para Schopenhauer, praticar a solidão é uma excelente oportunidade pra praticar o auto-conhecimento e uma forma de exercitar a auto-suficiência do indivíduo perante as tentações de fuga psicológica que a vida oferece.
Agora The Doors cantam “Love me two times”, mesmo que na minha cabeça só venha o quase-jingle “hello, i love you, won’t you tell me your name” de outra música deles. Mas, enfim, auto-conhecimento. Tudo que não puder ser enquadrado dentro desse grupo, é porcaria para o cérebro, junk food para pássaros e ecstasy para bichos-preguiça. Nesse momento eu peço um minuto para o tocador de mp3, que insiste em começar a música Psyche, do grupo francês Nouvelle Vague, no momento em que eu releio essas frases burras e perdidas.
Pause. Reli. Certo, a crônica está cheia de redundâncias como “eu interior” ou “eu exterior”, mas o importante é frisar ao máximo a loucura a que se pode chegar num estado eremita. Não vou colocar a culpa dos meus 220 volts no café ou negar o fato de que, comigo, conversas muito simples podem ser difíceis de traduzir assim como é muito difícil entender como Madonna consegue ter aquele corpo depois dos 40.
Estou sozinha, de bobeira numa cidade onde o tempo é que decide o que você fazer num sábado à tarde. E, por mais que Schopenhauer pudesse me criticar por vários e longos aforismos filosóficos, a coisa que eu mais quero neste instante é tirar férias de mim mesma e curtir a delícia que é ser alienada, muito alienada.
The Beach Boys cantam “California Girls” e relembram a surf music da década de 60, o cappuccino fica pronto depois de exatos 1’70’’ no microondas e um alarme sinaliza o ponto exato entre degustar e queimar a língua. O sol adentra invasivamente a janela interrompendo a friaca gostosa dos últimos dias e a televisão não pede licença para exibir tanta porcaria junta de uma só vez, mesmo quando você tem 60 canais à disposição.
É quando se está só que se percebe todas essas pequenas coisas. Agora, The Beach Boys cantam “Wouldn’t it be nice” e eu penso em várias coisas que poderiam ser bem melhores do que estar em casa sozinha, do que compartilhar o meu eu interior, exterior e todos os fenômenos que acompanham o auto-conhecimento pregado por Schopenhauer. Para o filósofo, a solidão é um elemento benéfico para que as pessoas possam se desprender das futilidades da vida, que, na visão dele, são simples elementos de fuga para o vazio que ocasionalmente sentimos por dentro. Soa um pouco eremita? E é. Ainda não entendeu? Seria algo como “enquanto os outros compram roupas eu leio um livro” ou “enquanto os outros bebem no bar da esquina eu medito” ou “enquanto os outros compartilham os amigos eu abuso de um enorme sentimento insular” ou, ainda, “enquanto os outros conversam eu faço perguntas para mim mesma e – pior – espero alguma resposta plausível”. Para Schopenhauer, praticar a solidão é uma excelente oportunidade pra praticar o auto-conhecimento e uma forma de exercitar a auto-suficiência do indivíduo perante as tentações de fuga psicológica que a vida oferece.
Agora The Doors cantam “Love me two times”, mesmo que na minha cabeça só venha o quase-jingle “hello, i love you, won’t you tell me your name” de outra música deles. Mas, enfim, auto-conhecimento. Tudo que não puder ser enquadrado dentro desse grupo, é porcaria para o cérebro, junk food para pássaros e ecstasy para bichos-preguiça. Nesse momento eu peço um minuto para o tocador de mp3, que insiste em começar a música Psyche, do grupo francês Nouvelle Vague, no momento em que eu releio essas frases burras e perdidas.
Pause. Reli. Certo, a crônica está cheia de redundâncias como “eu interior” ou “eu exterior”, mas o importante é frisar ao máximo a loucura a que se pode chegar num estado eremita. Não vou colocar a culpa dos meus 220 volts no café ou negar o fato de que, comigo, conversas muito simples podem ser difíceis de traduzir assim como é muito difícil entender como Madonna consegue ter aquele corpo depois dos 40.
Estou sozinha, de bobeira numa cidade onde o tempo é que decide o que você fazer num sábado à tarde. E, por mais que Schopenhauer pudesse me criticar por vários e longos aforismos filosóficos, a coisa que eu mais quero neste instante é tirar férias de mim mesma e curtir a delícia que é ser alienada, muito alienada.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
O QUE FOI FEITO DOS NOSSOS SONHOS?
por Maria Rita Angeiras
Um dia a menina acordou e decidiu que queria ser atriz. De preferência uma daquelas que antes já tinha sido modelo. Queria ter a melhor bunda do mundo, o melhor peito do mundo, a barriga mais sarada do mundo e o melhor salário do mundo. Queria passar 45 minutos desfilando na Sapucaí como rainha da bateria da Mangueira exibindo as 6 horas diárias de academia e sendo aclamada por milhares de pessoas extasiadas. Queria que o sofrimento máximo da vida dela fosse o pós-operatório do implante de silicone. Ou a cirurgia a laser pra tirar a declaração de amor que fez no pé pra um jogador de futebol. Queria poder dizer com orgulho que seu livro preferido era O Pequeno Príncipe e defender que existe um fundo filosófico pertinente nele – mesmo que não soubesse muito bem o sentido da palavra “pertinente”. Queria dar aquele tchauzinho de miss e no final do programa chorar pela paz mundial ou, já que é moda, pelo aquecimento global. Queria ser referência pra milhares de adolescentes que iriam brigar nas lojas pelo seu modelito novela-das-oito. Queria dar autógrafo com um beijinho desenhado no pingo do “i”. Queria ver seu corpinho photoshopado em capa de revista de fofoca com o titulo “a nova namoradinha do Brasil fala de amor e abre o coração”. Queria espalhar que recebeu 500 mil pra posar pra Playboy. Queria, como a Britney, mostrar sua calcinha rosa ao sair da limousine. Queria que no seu casamento tivesse mais cadeiras para os fotógrafos que para os seus parentes. Queria ser a nova Bond Girl mesmo sem saber falar um tico de inglês. Afinal, as loiras podem tudo, não é? Queria ir passar a semana na Riviera Francesa e o final de semana em Miami, de preferência fazendo compras, muitas compras. Queria ter mais cartões de crédito que namorados. Queria ser a mulher mais sexy do Brasil. Pensando bem, do universo. Queria poder trabalhar quando quisesse. Queria poder ter tudo o que quisesse. Queria poder viajar o quanto quisesse. Ela e sua bunda gostosa, ela e o seu peito siliconado, ela e o seu abdômen sarado, ela e o seu namorado milionário. Todos extasiados e alimentados pelo confete da mídia.
E quer saber a verdade? O que não ia faltar era otário pra aplaudir.
*
Um dia a menina acordou e decidiu que queria ser atriz. De preferência uma daquelas que antes já tinha sido modelo. Queria ter a melhor bunda do mundo, o melhor peito do mundo, a barriga mais sarada do mundo e o melhor salário do mundo. Queria passar 45 minutos desfilando na Sapucaí como rainha da bateria da Mangueira exibindo as 6 horas diárias de academia e sendo aclamada por milhares de pessoas extasiadas. Queria que o sofrimento máximo da vida dela fosse o pós-operatório do implante de silicone. Ou a cirurgia a laser pra tirar a declaração de amor que fez no pé pra um jogador de futebol. Queria poder dizer com orgulho que seu livro preferido era O Pequeno Príncipe e defender que existe um fundo filosófico pertinente nele – mesmo que não soubesse muito bem o sentido da palavra “pertinente”. Queria dar aquele tchauzinho de miss e no final do programa chorar pela paz mundial ou, já que é moda, pelo aquecimento global. Queria ser referência pra milhares de adolescentes que iriam brigar nas lojas pelo seu modelito novela-das-oito. Queria dar autógrafo com um beijinho desenhado no pingo do “i”. Queria ver seu corpinho photoshopado em capa de revista de fofoca com o titulo “a nova namoradinha do Brasil fala de amor e abre o coração”. Queria espalhar que recebeu 500 mil pra posar pra Playboy. Queria, como a Britney, mostrar sua calcinha rosa ao sair da limousine. Queria que no seu casamento tivesse mais cadeiras para os fotógrafos que para os seus parentes. Queria ser a nova Bond Girl mesmo sem saber falar um tico de inglês. Afinal, as loiras podem tudo, não é? Queria ir passar a semana na Riviera Francesa e o final de semana em Miami, de preferência fazendo compras, muitas compras. Queria ter mais cartões de crédito que namorados. Queria ser a mulher mais sexy do Brasil. Pensando bem, do universo. Queria poder trabalhar quando quisesse. Queria poder ter tudo o que quisesse. Queria poder viajar o quanto quisesse. Ela e sua bunda gostosa, ela e o seu peito siliconado, ela e o seu abdômen sarado, ela e o seu namorado milionário. Todos extasiados e alimentados pelo confete da mídia.
E quer saber a verdade? O que não ia faltar era otário pra aplaudir.
*
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
DIS-MOI OUI
por Maria Rita Angeiras
E nós, tão sozinhos de nós mesmos. Desejando desesperadamente amor. Amor superficial e genuinamente capitalista, desejado como todas as coisas que podem ser compradas na vida. Amor individualista e sem troca, exibido em praça pública e jantares íntimos como prêmio de loteria. Estampado em porta-retratos velhos, enquadrados pela dureza do dia-a-dia, enquanto simplesmente sorrimos com nossos dentes brancos. E nós tão patéticos, comprando amor em livros de auto-ajuda, fitas k-7 para meditar, músicas, caixas de chocolate, remédios tarja preta, sessões de terapia e salas de bate-papo. Sofrendo por sentimentos miúdos e achando que isso é amor. Pensando que certidão de casamento é nota fiscal de felicidade. Procurando o par perfeito, como se a vida fosse perfeita o suficiente pra ele poder existir – ou sobreviver. Preenchendo nossos dias com trabalho, na esperança de não nos darmos conta do imenso vazio nos finais de semana. Nos odiando por não sermos amados. Ou pelo menos amados do jeito que nós gostaríamos. Ou imaginávamos. Fazendo falsas promessas em troca de amor, nem que ele seja breve, passageiro, fugaz e impregnado de álcool como as noites de sábado. Exibindo anéis dourados no dedo como condecorações de guerra. Dividindo o teto, mas não a vida. Dividindo a cama, mas não as aflições. Desejando desesperadamente ser resgatados do cotidiano maçante para mergulhar no universo dos contos de fadas que tanto nos prometeram quando éramos crianças. Jurando amar na alegria, na tristeza, na saúde ou na doença, mas nunca quando aparecer alguém interessante numa festa. Compensando as pisadas de bola com a única coisa que tem preço em qualquer relação: presentes. Fingindo ser modernos, bem-resolvidos e ocupados demais para uma coisa piegas como o amor. Entregando o resto de nós pela miséria que os outros têm para oferecer. Prostituindo nossa dignidade por pedacinhos de carinho doados numa noite por zés-ninguém ou marias-ninguém. Morrendo de amor pela falta dele e não pelo excesso. Usando a primeira pessoal do singular com mais freqüência do que deveríamos. Negligenciando a nós mesmos pela necessidade urgente de não morrermos sozinhos, apoiados na desculpa de que a vida é passageira, mesmo que hoje ela dure o mesmo que 10 anos atrás. Morrendo infelizes mas profundamente heróicos, carregando nossos falsos-amores como troféus, sem perceber quão pesados eles acabam sendo. Trocando amor por bebida. Trocando amor por cigarro. Trocando de amor como quem troca de roupa. Percorrendo todos os dias o longo caminho de casa. Acabando a noite sós. Ou acompanhados. Ou os dois juntos. Persistindo na eterna sina de dar amor sem se amar antes. Nós que não temos amor próprio. Nós que não temos respostas. Nós que não temos solução. Nós que não temos nada. Nós que só temos silêncio. Nós, tão sozinhos de nós mesmos. E dos outros.
E nós, tão sozinhos de nós mesmos. Desejando desesperadamente amor. Amor superficial e genuinamente capitalista, desejado como todas as coisas que podem ser compradas na vida. Amor individualista e sem troca, exibido em praça pública e jantares íntimos como prêmio de loteria. Estampado em porta-retratos velhos, enquadrados pela dureza do dia-a-dia, enquanto simplesmente sorrimos com nossos dentes brancos. E nós tão patéticos, comprando amor em livros de auto-ajuda, fitas k-7 para meditar, músicas, caixas de chocolate, remédios tarja preta, sessões de terapia e salas de bate-papo. Sofrendo por sentimentos miúdos e achando que isso é amor. Pensando que certidão de casamento é nota fiscal de felicidade. Procurando o par perfeito, como se a vida fosse perfeita o suficiente pra ele poder existir – ou sobreviver. Preenchendo nossos dias com trabalho, na esperança de não nos darmos conta do imenso vazio nos finais de semana. Nos odiando por não sermos amados. Ou pelo menos amados do jeito que nós gostaríamos. Ou imaginávamos. Fazendo falsas promessas em troca de amor, nem que ele seja breve, passageiro, fugaz e impregnado de álcool como as noites de sábado. Exibindo anéis dourados no dedo como condecorações de guerra. Dividindo o teto, mas não a vida. Dividindo a cama, mas não as aflições. Desejando desesperadamente ser resgatados do cotidiano maçante para mergulhar no universo dos contos de fadas que tanto nos prometeram quando éramos crianças. Jurando amar na alegria, na tristeza, na saúde ou na doença, mas nunca quando aparecer alguém interessante numa festa. Compensando as pisadas de bola com a única coisa que tem preço em qualquer relação: presentes. Fingindo ser modernos, bem-resolvidos e ocupados demais para uma coisa piegas como o amor. Entregando o resto de nós pela miséria que os outros têm para oferecer. Prostituindo nossa dignidade por pedacinhos de carinho doados numa noite por zés-ninguém ou marias-ninguém. Morrendo de amor pela falta dele e não pelo excesso. Usando a primeira pessoal do singular com mais freqüência do que deveríamos. Negligenciando a nós mesmos pela necessidade urgente de não morrermos sozinhos, apoiados na desculpa de que a vida é passageira, mesmo que hoje ela dure o mesmo que 10 anos atrás. Morrendo infelizes mas profundamente heróicos, carregando nossos falsos-amores como troféus, sem perceber quão pesados eles acabam sendo. Trocando amor por bebida. Trocando amor por cigarro. Trocando de amor como quem troca de roupa. Percorrendo todos os dias o longo caminho de casa. Acabando a noite sós. Ou acompanhados. Ou os dois juntos. Persistindo na eterna sina de dar amor sem se amar antes. Nós que não temos amor próprio. Nós que não temos respostas. Nós que não temos solução. Nós que não temos nada. Nós que só temos silêncio. Nós, tão sozinhos de nós mesmos. E dos outros.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
A LATA DE SARDINHA É POP – OU CALOR HUMANO IS BEAUTIFUL
por Maria Rita Angeiras
Quem disse que era uma boa idéia inventar o ônibus? Quem foi o retardado que um belo dia sentou numa mesa de reunião, colocou a palma das mãos sobre a mesa e disse: “Já sei! Imaginem uma caixa de sapato, imaginaram? Pronto, agora imaginem que ela tem rodas e portas laterais. Tão me acompanhando? Agora imaginem essa caixa de sapato com rodas e portas laterais cheia de gente. Tipo umas 60, 90 nos dias mais cheios. Algumas em pé, outras sentadas, algumas espremidas entre as que estão em pé e as que estão sentadas e algumas na categoria dois corpos ocupam sim o mesmo lugar no espaço se esse espaço for um ônibus”.
Um idiota número 2 ajeita a gravata, levanta a mão e tenta honrar seu pseudo-MBA com a seguinte pergunta: “E se elas tivessem que pagar por isso? Pagar pra estar nessa caixa de sapatos com rodas e portas laterais e mais 79 pessoas?”.
O babaca número 3, que olhava para as pernas da secretária, acrescenta: “Poderíamos colocar catracas para medir a quantidade de pessoas ao dia. Assim um passageiro x saberá que ele é a 5.467a pessoa a passar a mão naquele corrimão. Isso vai comprovar ainda mais nossa eficiência frente ao transporte público”.
O imbecil número 4, sentado na ponta da mesa e louco pra ir passar o final de semana na praia, reage: “´Esse é o espírito! Dona Cleuza, escreva tudo nas atas da reunião. Meus caros, quero um protótipo disso pra segunda-feira”.
E foi assim que provavelmente o conceito de transporte popular nasceu. E popular, diga-se de passagem, significa: 10 pessoas por metro quadrado, cobrador ouvindo Calypso nas alturas, 90 perfumes misturados de manhã cedo, pessoas penduradas em corrimãos, estranhos pescando e encostando a cabeça no seu ombro e muito, mas muito mais. É um show de horrores. É a prostituição da sociedade em torno do velho conceito “de massa”. Transporte de massa. Comunicação de massa. Cultura de massa. Por isso, quando você ouvir a palavra massa, corra. É o jeito que os magos do marketing – com seus top five made in taiwan - inventaram de omitir a expressão “gente pra cacete” de uma frase.
Isso sem falar nos famosos “eu podia estar roubando, eu podia estar matando”. Nessas horas eu tento imaginar que o cara é um político idealista exilado de Brasília e saco 2 reais da bolsa. Penso que é a minha boa ação do dia, até concluir que eu, como 150 milhões de brasileiros, também estou ajudando um político a subir na vida. “Devolve o meu dinheiro, seu safado”, eu grito pela janela.
Voltando à decadência social do transporte de massa. Você descobre que tem andado muito de ônibus quando começa a reconhecer algumas pessoas. Outro dia olhei pra uma senhora e pensei “nossa, ela ficou bem com o cabelo vermelho”. Também acontece de você olhar pra alguém que tá cochilando e pensar “besta, vai perder o ponto da Juscelino”.
Eu diria que andar de ônibus é um laboratório humano. Uma experiência minimamente curiosa dentro de uma caixa de sapato. Mas a grande verdade é que pobre adora se juntar. Pobre adora ficar amontoado. Pobre nordestino então, já viu: se sente orgulhoso de andar de ônibus porque, ao contrário do povo apático do metrô, o povo do ônibus tem calor humano. E põe calor humano nisso.
Quem disse que era uma boa idéia inventar o ônibus? Quem foi o retardado que um belo dia sentou numa mesa de reunião, colocou a palma das mãos sobre a mesa e disse: “Já sei! Imaginem uma caixa de sapato, imaginaram? Pronto, agora imaginem que ela tem rodas e portas laterais. Tão me acompanhando? Agora imaginem essa caixa de sapato com rodas e portas laterais cheia de gente. Tipo umas 60, 90 nos dias mais cheios. Algumas em pé, outras sentadas, algumas espremidas entre as que estão em pé e as que estão sentadas e algumas na categoria dois corpos ocupam sim o mesmo lugar no espaço se esse espaço for um ônibus”.
Um idiota número 2 ajeita a gravata, levanta a mão e tenta honrar seu pseudo-MBA com a seguinte pergunta: “E se elas tivessem que pagar por isso? Pagar pra estar nessa caixa de sapatos com rodas e portas laterais e mais 79 pessoas?”.
O babaca número 3, que olhava para as pernas da secretária, acrescenta: “Poderíamos colocar catracas para medir a quantidade de pessoas ao dia. Assim um passageiro x saberá que ele é a 5.467a pessoa a passar a mão naquele corrimão. Isso vai comprovar ainda mais nossa eficiência frente ao transporte público”.
O imbecil número 4, sentado na ponta da mesa e louco pra ir passar o final de semana na praia, reage: “´Esse é o espírito! Dona Cleuza, escreva tudo nas atas da reunião. Meus caros, quero um protótipo disso pra segunda-feira”.
E foi assim que provavelmente o conceito de transporte popular nasceu. E popular, diga-se de passagem, significa: 10 pessoas por metro quadrado, cobrador ouvindo Calypso nas alturas, 90 perfumes misturados de manhã cedo, pessoas penduradas em corrimãos, estranhos pescando e encostando a cabeça no seu ombro e muito, mas muito mais. É um show de horrores. É a prostituição da sociedade em torno do velho conceito “de massa”. Transporte de massa. Comunicação de massa. Cultura de massa. Por isso, quando você ouvir a palavra massa, corra. É o jeito que os magos do marketing – com seus top five made in taiwan - inventaram de omitir a expressão “gente pra cacete” de uma frase.
Isso sem falar nos famosos “eu podia estar roubando, eu podia estar matando”. Nessas horas eu tento imaginar que o cara é um político idealista exilado de Brasília e saco 2 reais da bolsa. Penso que é a minha boa ação do dia, até concluir que eu, como 150 milhões de brasileiros, também estou ajudando um político a subir na vida. “Devolve o meu dinheiro, seu safado”, eu grito pela janela.
Voltando à decadência social do transporte de massa. Você descobre que tem andado muito de ônibus quando começa a reconhecer algumas pessoas. Outro dia olhei pra uma senhora e pensei “nossa, ela ficou bem com o cabelo vermelho”. Também acontece de você olhar pra alguém que tá cochilando e pensar “besta, vai perder o ponto da Juscelino”.
Eu diria que andar de ônibus é um laboratório humano. Uma experiência minimamente curiosa dentro de uma caixa de sapato. Mas a grande verdade é que pobre adora se juntar. Pobre adora ficar amontoado. Pobre nordestino então, já viu: se sente orgulhoso de andar de ônibus porque, ao contrário do povo apático do metrô, o povo do ônibus tem calor humano. E põe calor humano nisso.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
MAKE IT DOUBLE, PLEASE
por Maria Rita Angeiras
“Homem é que nem biscoito: vai um vem dezoito”. Taí, essa é a frase mais mentirosa que as mulheres inventaram nos últimos tempos depois da famosa “hoje não, eu tô com dor de cabeça”. Sendo um pouco flexível, arriscaria dizer que dezesseis desses possíveis dezoito são do tipo que você encontra na balada. Tem os bêbados, os babacas, os drogados, os nerds, os bombadinhos, os vítimas da sociedade, os perdidos e os gloriosos não-vou-te-ligar-no-dia-seguinte-mas-me-dá-teu-telefone. Peça pelo número, querida, tem várias opções. Tudo mercadoria sem nota. Brinco que preciso ir pra balada com minha cara de menina pra casar, mas meninas pra casar não vão pra balada, fazer o quê. Voltando à quantidade de homens. Dezoito? Diga sinceramente: qual foi a última vez que você, inclusive, viu dezoito homens juntos no mesmo lugar? No estádio? Tá, mas de olho em quem? Nas coxas do artilheiro. Ah, talvez eu seja exigente demais com biscoito. Coisa de menina pra casar, claro.
Outro dia sentei na balada com uma fake cara de vodka demais pra evitar conversar e um cara encostou. Disse que queria conversar. De fato, queria. Aliás, ele só queria conversar mesmo. Um fotógrafo idealista. Passou meia hora discursando sobre a vida dele e só parava pra dizer que estava enchendo meu saco. Mas meninas pra casar são educadas. Elas colocam as mãos sobre o colo e ouvem atentamente, com a mesma placidez de quem faz tricô na varanda de casa. “Desabafe, meu caro”. Entre goles de vodka, sonhos e casualidades ele tenta se defender quando eu brinco sobre as intenções dos homens na balada. Ele concorda discordando: “imagina que o mundo tem dois milhões de pessoas. Desses dois milhões, 1 milhão e meio é gay. Trezentos mil são bi. E os duzentos mil que sobraram são héteros. E 1% desses duzentos mil são caras fiéis como eu, que têm namorada e vão pra balada sem ficar com ninguém”. “Idiota”, eu pensei. “Eu sozinha aqui na balada, ele senta, ocupa meu tempo, fala que tem namorada e ainda diz que faz parte dos 1% que são fiéis”. “Muito prazer, meu amigo”. Olho pro céu e resmungo que só eu mesma pra ir na balada conhecer alguém que faz parte desses raros 1% mas já é comprometido”. Nessa hora a torcida do São Paulo levanta e grita: loser!
Pelas estatísticas, decido aderir ao fato de que as pessoas realmente interessantes estão em casa assistindo filme iraniano e não na balada, impregnadas de cigarro, tropeçando de tão bêbadas e sacudindo a escassa massa cerebral ao som de tutz-tutz, ou putz-putz, como dizem por aqui. Vou esperar o príncipe encantado em casa mesmo. Quando ele tocar a campainha, vou baixar o volume de “Desperate Housewives”, assumir a cara de colchão – e não a de menina pra casar, girar a chave, encostar na porta e dizer: “você tá atrasado”.
“Homem é que nem biscoito: vai um vem dezoito”. Taí, essa é a frase mais mentirosa que as mulheres inventaram nos últimos tempos depois da famosa “hoje não, eu tô com dor de cabeça”. Sendo um pouco flexível, arriscaria dizer que dezesseis desses possíveis dezoito são do tipo que você encontra na balada. Tem os bêbados, os babacas, os drogados, os nerds, os bombadinhos, os vítimas da sociedade, os perdidos e os gloriosos não-vou-te-ligar-no-dia-seguinte-mas-me-dá-teu-telefone. Peça pelo número, querida, tem várias opções. Tudo mercadoria sem nota. Brinco que preciso ir pra balada com minha cara de menina pra casar, mas meninas pra casar não vão pra balada, fazer o quê. Voltando à quantidade de homens. Dezoito? Diga sinceramente: qual foi a última vez que você, inclusive, viu dezoito homens juntos no mesmo lugar? No estádio? Tá, mas de olho em quem? Nas coxas do artilheiro. Ah, talvez eu seja exigente demais com biscoito. Coisa de menina pra casar, claro.
Outro dia sentei na balada com uma fake cara de vodka demais pra evitar conversar e um cara encostou. Disse que queria conversar. De fato, queria. Aliás, ele só queria conversar mesmo. Um fotógrafo idealista. Passou meia hora discursando sobre a vida dele e só parava pra dizer que estava enchendo meu saco. Mas meninas pra casar são educadas. Elas colocam as mãos sobre o colo e ouvem atentamente, com a mesma placidez de quem faz tricô na varanda de casa. “Desabafe, meu caro”. Entre goles de vodka, sonhos e casualidades ele tenta se defender quando eu brinco sobre as intenções dos homens na balada. Ele concorda discordando: “imagina que o mundo tem dois milhões de pessoas. Desses dois milhões, 1 milhão e meio é gay. Trezentos mil são bi. E os duzentos mil que sobraram são héteros. E 1% desses duzentos mil são caras fiéis como eu, que têm namorada e vão pra balada sem ficar com ninguém”. “Idiota”, eu pensei. “Eu sozinha aqui na balada, ele senta, ocupa meu tempo, fala que tem namorada e ainda diz que faz parte dos 1% que são fiéis”. “Muito prazer, meu amigo”. Olho pro céu e resmungo que só eu mesma pra ir na balada conhecer alguém que faz parte desses raros 1% mas já é comprometido”. Nessa hora a torcida do São Paulo levanta e grita: loser!
Pelas estatísticas, decido aderir ao fato de que as pessoas realmente interessantes estão em casa assistindo filme iraniano e não na balada, impregnadas de cigarro, tropeçando de tão bêbadas e sacudindo a escassa massa cerebral ao som de tutz-tutz, ou putz-putz, como dizem por aqui. Vou esperar o príncipe encantado em casa mesmo. Quando ele tocar a campainha, vou baixar o volume de “Desperate Housewives”, assumir a cara de colchão – e não a de menina pra casar, girar a chave, encostar na porta e dizer: “você tá atrasado”.
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