quinta-feira, 19 de novembro de 2009

PARA SEMPRE

por Maria Rita Angeiras


Sentada no vestiário, ela trocava a roupa do dia pelo maiô preto, que fazia um contraste incrível com seus cabelos brancos e curtos. Carregava no rosto uma alegria sincera, envolvida pelas fortes rugas dos olhos, que se comprimiam toda vez que saudava de um jeito simpático as jovens moças de expressão reta, como se estas já carregassem nas costas mais de sessenta anos de batalha. Lá fora, em um banheiro de porta entreaberta, estava o homem que era seu, sentado em uma cadeira de rodas, de sunga, sem camisa, tentando achar nas frestas do azulejo alguma esperança, enquanto aguardava sua amada o vir buscar. Logo em seguida, ela saía, colocava as mãos na cadeira e subia a rampa que dava na piscina. Ela não precisava de fisioterapia, mas ele precisava dela. Precisava da companhia daquela mulher que conhecia seus cantos, seus poros, suas dores. Precisava daquelas mãos que empurravam não apenas a cadeira, mas ele próprio, que o davam coragem de ser forte só mais uma vez, preso em um corpo que já não respondia mais como antigamente. Precisava daquela mulher que andava logo atrás dele na piscina, dando várias voltas, impedindo que ele parasse por causa do cansaço. E ela simplesmente ia, sem sequer sentir, como se o próprio estar já fosse mecânico. Ia porque não sabia fazer outra coisa senão continuar indo. Precisava daquele homem frágil, sentado, porque ele fazia ela acordar todos os dias do ano. Precisava daquele homem porque ele tinha os olhos mais doces do mundo, e mesmo depois de décadas juntos, aquele olhar ainda causava cócegas lá no fundo da sua alma. Precisava daquele homem andando na sua frente, na piscina, porque só assim ela sabia em que direção seguir. Os dois precisavam um do outro, desesperadamente, tateando as bordas dos seus corpos enrugados e tentando se achar no meio das ondas que se formavam na piscina. Precisavam quando as mãos paravam de segurar, quando a oração parava de pedir, quando o olho parava de implorar, quando a perna parava de sentir, quando o peito parava de pular e quando a vida, contrariando o resto do corpo, insistia em seguir.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

DISTRAÍDA

por Maria Rita Angeiras


Estranho é deixar alguém partir
Alegando que essa dor não importa
Pelo motivo de não se perder de si
Porque dor mesmo é a dor da volta

Engano é não se deixar levar
Achando que correr faz muito sentido
Mas quando não se sabe de quê se corre
O pra onde também é um perigo

Incrível é preferir dormir
A escrever com a expressão reta
Para salvar da dor as palavras
Para poupar da tristeza o poeta

PEDAÇOS

por Maria Rita Angeiras


O grande problema do escritor não é a tristeza, é a alegria.